ESCOLA FAMÍLIA AGRÍCOLA – EFA CENTRO RS
Programa Raio X Rural
Produção coletiva da Equipe de Divulgação da EFA Centro, apresentação desta edição de Frei João Osmar
94º programa: 25 de fevereiro de 2026:
1 -Resenha: No programa de hoje vamos tratar sobre a mobilização de mulheres e de entidades de Direitos Humanos em Novo Hamburgo, RS em ato que cobra a reabertura do Centro de Referência da Mulher, após o RS ter registrado 17 feminicídios neste ano de 2026. A manifestação ocorreu na Praça do Imigrante no sábado passado, dia 21/02. Os manifestantes também exigiram mais Políticas Públicas de todos os órgãos de Governo e nas três esferas de poder. Sigo aqui material publicado no site do jornal Brasil de Fato RS, cujo link colocado a seguir para quem quiser ter acesso ao material completo. Ato em Novo Hamburgo (RS) cobra reabertura do Centro de Referência da Mulher – Brasil de Fato
No dia em que o Rio Grande do Sul registrou o 17º feminicídio de 2026, manifestantes realizaram, na manhã do sábado (21), um ato em Novo Hamburgo, na região Metropolitana de Porto Alegre, pelo fim da violência contra as mulheres e pela retomada do Centro de Referência da Mulher (CRM), serviço destinado ao acolhimento, orientação e acompanhamento de vítimas. A mobilização, organizada por diversos coletivos e pela bancada feminina da Câmara de Vereadores, ocorreu na Praça do Imigrante, no centro da cidade, e reuniu movimentos sociais, sindicais e parlamentares gaúchos. Com cartazes e faixas, as participantes realizaram uma caminhada ao redor da praça carregando 16 sapatos, em alusão às vítimas do estado até então. Durante o percurso, fizeram paradas para registrar na calçada os nomes das mulheres assassinadas. A morte mais recente é da ex-vereadora e diretora administrativa Roseli Vanda Pires Albuquerque, assassinada em Nova Prata (RS). O principal suspeito é o ex-marido, de quem ela estava se separando, e que também foi encontrado morto.
A mobilização foi articulada após os 11 feminicídios registrados em janeiro. Entre as vítimas está a hamburguense Karizele de Oliveira Sena, 30 anos, morta a facadas pelo ex-companheiro há cerca de um mês. Segundo a Polícia Civil, ela havia registrado três ocorrências contra Kelvyn Luan Tavares Nunes, 31 anos, que está preso preventivamente. A vítima deixou duas filhas, uma adolescente de 13 anos e uma bebê de nove meses. De acordo com familiares, a filha mais velha teria pegado a irmã e saído à rua para pedir ajuda a uma vizinha.
Serviço fechado desde 2019 é principal reivindicação
Representando a Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o escritório Tomaz e Pierre de Cunha, a advogada Isadora Cunha afirmou que o ato também apoia um abaixo-assinado pela reabertura do CRM, fechado em 2019. “Desde então a gente está sem um serviço aqui na cidade para atender às mulheres vítimas de violência doméstica”, disse. Ex-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Condim) por três anos, ela destacou que a retomada do centro é a principal pauta do conselho. Segundo Cunha, instituições como Defensoria Pública e Ministério Público tentam levar a demanda ao Executivo municipal, sem sucesso. “A gente não tem sido recebido. É um absurdo. Isso aqui é uma tentativa de sensibilização da nossa cidade, porque não pode: 17 mulheres já morreram vítimas de feminicídio só neste ano no Rio Grande do Sul.”
Ela destacou que, quando estava em funcionamento, o centro acompanhava ao menos 120 casos por mês. “Hoje esse passivo é ainda maior. E cadê o centro para atender?”, questionou. A advogada explicou que o CRM oferece atendimento jurídico, psicológico e social especializado, além de articulação com a segurança pública. Atualmente, as mulheres são atendidas no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas 2) do município, um serviço voltado à família, que também atende os agressores. “Não é um serviço ruim, mas não é a natureza daquele serviço atender violência doméstica”, afirmou. Cunha também apontou problemas na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), que, segundo ela, não funciona 24 horas apesar de lei estadual de 2023. “Foi informado que não tinha contingente e era por isso que não estava sendo cumprido.”
“São mortes cruéis e naturalizadas”
A presidenta do Sindicato das Sapateiras e Sapateiros de Novo Hamburgo, Jaqueline Hertal, destacou a importância de mobilizações públicas para evitar a normalização da violência. “São mortes cruéis. Hoje são essas mulheres, mas amanhã pode ser eu, pode ser você, pode ser a sua filha”, afirmou. Para ela, o feminicídio tornou-se banalizado. “As pessoas estão achando normal todo dia ver no jornal mulheres sendo mortas simplesmente por serem mulheres.” Integrante do coletivo Mulheres Quebrando Tabus, Laudiceia de Abreu Viveiros lamentou a recorrência das notícias. “É horrível amanhecer com mais uma notícia de feminicídio. É muito triste, especialmente pelas famílias e pelos órfãos que ficam”, disse.
Vereadoras apontam ausência de políticas públicas
A vereadora Luciana Martins (PT) afirmou que a motivação do ato é a sobrevivência das mulheres. “Enquanto preparávamos este ato, tínhamos 11 mulheres mortas; depois 16; e esta noite tivemos a 17ª. Nós vivemos um ódio em relação às mulheres e uma ausência de políticas públicas que preservem a nossa vida.” Segundo ela, a retomada do CRM é uma medida concreta de enfrentamento às violências. “Desde 2017, Novo Hamburgo não conta com esse equipamento público.” A vereadora e inspetora de polícia Daia Hanich (MDB) também defendeu a urgência do serviço e alertou para casos em que filhos das vítimas também são mortos. Ela lembrou que, quando ingressou na polícia, o programa Viva Mulher funcionava na cidade e permitia o encaminhamento imediato das vítimas após o registro da ocorrência. “Lá ela tinha acolhimento, assistente social, atendimento jurídico e psicológico. Hoje o município carece disso”. Para a vereadora Deza Guerreiro (PP), a luta contra a violência deve envolver toda a sociedade. “Não é uma luta só de mulheres. É de homens e mulheres.” Ela destacou ainda a relação entre violência contra animais e violência doméstica, afirmando que 71% das mulheres relataram que os agressores primeiro atacaram seus animais antes de agredi-las. Dos 14 vereadores que compõem a Câmara Municipal, seis participaram do ato.
Autoridades apontam prevenção como caminho
A defensora pública Deise Sartori afirmou que o feminicídio é a face mais extrema de uma sequência de violências. “Antes dele acontecem muitos outros atos que podem ser prevenidos com políticas públicas efetivas.” Para ela, o direito penal isoladamente não resolve o problema. “A mais eficiente prevenção é o empoderamento da mulher por meio do Centro de Referência da Mulher.” A promotora de Justiça Roberta Fava, do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), relatou que desde o final de 2024 busca a re-implantação do serviço. Segundo ela, a prefeitura informou previsão orçamentária até 2029, sem cronograma concreto. Fava afirmou que os casos graves de violência doméstica aumentaram significativamente no município. “Temos cerca de 50 presos por violência doméstica, número nunca antes registrado em Novo Hamburgo.” Ela destacou que cidades vizinhas contam com centros de referência e que o principal obstáculo local é a falta de acolhimento contínuo às vítimas para romper o ciclo de violência.
Comunidade denuncia hostilidade e pede medidas urgentes
Ursula Gottschald, do Comitê Popular de Mulheres de Novo Hamburgo, criticou a ausência de políticas estruturais e cobrou medidas do poder público municipal, incluindo a criação de uma secretaria da mulher. Ela também mencionou o Pacto Brasil contra o Feminicídio, assinado pelo governo federal, e afirmou que o governador do estado não participou da adesão. A liderança comunitária Re Rodrigues, do bairro Boa Saúde, participou do ato segurando um dos sapatos simbólicos e relatou forte emoção. “Estava com vontade de chorar, porque eu estava representando alguém que partiu, uma família que perdeu uma mãe, uma irmã, uma filha.”
Ela também relatou hostilidade durante a manifestação. “Alguns carros passaram vaiando, achando que era ato partidário. Mas isso é uma luta de toda a comunidade.” Segundo Rodrigues, crianças e adolescentes ficam sem referência após os crimes. “Perdem a mãe, a avó, a família.” A dirigente do Sindicato dos Municipários de Estância Velha (Simev) Rejane Nascimento denunciou a negligência do poder público e do sistema de Justiça diante da violência contra meninas e mulheres, classificando a situação como uma “questão política” e de descumprimento da lei. Segundo ela, o Código Penal brasileiro é claro ao estabelecer que menina não pode ser tratada como esposa, mãe ou namorada, e decisões que relativizam essa proteção representam um cenário de “barbárie” e retrocesso civilizatório. Nascimento também criticou a incapacidade do Estado de proteger vítimas que buscam ajuda formal. “Mulheres conseguem medidas protetivas e acabam assassinadas dentro de casa. Isso significa que o Estado brasileiro está nos matando.” A dirigente cobrou ainda a implementação imediata do pacto nacional de enfrentamento à violência contra as mulheres anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defendendo que a iniciativa seja efetivada com urgência em municípios como Novo Hamburgo e Estância Velha, além de todo o país. Por fim, responsabilizou agentes públicos pela continuidade dos feminicídios e exigiu ações concretas: “Basta de nos matarem”.
Parlamentares defendem criminalização da misoginia e fortalecimento da rede de proteção às mulheres
Durante o ato, parlamentares alertaram para o avanço da violência de gênero, a naturalização do feminicídio e a necessidade urgente de políticas públicas para proteger as mulheres. A deputada estadual suplente Ana Affonso (PT) defendeu que a misoginia seja tipificada como crime no Brasil, afirmando que o ódio às mulheres vem sendo disseminado inclusive na internet. “O racismo é crime, a homofobia é crime, mas a misoginia passa batido. A cultura do ódio às mulheres precisa ser crime.” Segundo ela, existem canais com milhões de seguidores que propagam essa discurso, inclusive em ambientes pouco visíveis ao público.“Na deep web e em outros espaços circula uma mensagem de ódio que alcança milhões de internautas e promove ainda mais violência.” A parlamentar também criticou a ausência de adesão do governo estadual a pactos nacionais de enfrentamento à violência contra as mulheres e afirmou que a falta de políticas locais sinaliza desvalorização da vida feminina. “Quando uma cidade não tem política pública para mulheres, está dizendo que nossas vidas não importam.” Como exemplo, citou a estrutura construída em São Leopoldo ao longo de duas décadas, com centro de referência, delegacia especializada, casa de acolhimento, patrulhas específicas e secretaria municipal. Ela defendeu que o acesso a recursos federais seja condicionado à existência desses serviços. “Sem isso, a gente vai continuar lutando, chorando mortes e enxugando gelo.”
Feminicídio é evitável, afirma relatora
A deputada federal Maria do Rosário (PT), relatora da comissão externa do Congresso Nacional sobre feminicídios ocorridos no Rio Grande do Sul, afirmou que o feminicídio não pode ser tratado como destino inevitável. Segundo ela, levantamento realizado com autoridades locais apontou obstáculos que dificultam denúncias e proteção às vítimas. “É como uma corrida com muitos obstáculos, e esses obstáculos significam não sobreviver.” A parlamentar criticou a naturalização da violência no estado e ressaltou que os crimes seguem um padrão. “O feminicídio não acontece de um momento para o outro. Ele é o crescendo da violência e pode ser evitado.” Ela destacou a importância da denúncia precoce e da atenção a sinais de agressão, que frequentemente começam com humilhações e ameaças. Maria do Rosário também relacionou a violência ao silenciamento das mulheres na esfera pública. “A tentativa de caçar mandatos de mulheres é também uma forma de apagar sua presença política.”
Fragilidades na rede de atendimento
A deputada apontou o enfraquecimento das estruturas de proteção no estado, incluindo delegacias especializadas e policiamento. “As delegacias da mulher foram desequipadas e há efetivo insuficiente na Patrulha Maria da Penha.” Segundo ela, apenas cerca de 140 a 160 policiais atuam na patrulha para atender 497 municípios, estando presentes em pouco mais de uma centena de cidades. Outro problema é o baixo uso de tornozeleiras eletrônicas para monitorar agressores com medidas protetivas. “Há cerca de 12 mil homens com afastamento determinado pela Justiça e menos de 900 usam tornozeleira.” Ela também defendeu atendimento 24 horas nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher. “A violência não marca hora. Em geral, acontece na madrugada.” A parlamentar ressaltou ainda a importância de profissionais da saúde identificarem sinais de violência em atendimentos médicos. Rosário citou a absolvição de um homem acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos em Minas Gerais, decisão baseada na alegação de “vínculo afetivo”. “Uma criança de 12 anos não pode ser considerada em relação consensual. O que querem fazer das nossas meninas?”
Apelo por mobilização e denúncia
A deputada também defendeu a retomada de serviços de atendimento às mulheres em Novo Hamburgo e alertou para o alto número de assassinatos mesmo entre vítimas com medidas protetivas. “Não é possível que o Rio Grande do Sul continue sendo o estado onde mais mulheres com medida protetiva são mortas.” Para ela, proteger as mulheres é condição para proteger toda a sociedade.“Se a vida da mulher não é protegida, a vida de ninguém é.” Encerrando, convocou a população a denunciar casos de violência: “Quem souber de uma mulher em situação de violência deve ligar para o 180. A denúncia pode ser anônima”. O ato foi encerrado com o coro das manifestantes pedindo a reabertura imediata do Centro de Referência da Mulher e o fim da violência de gênero. Na ocasião também foi feito abaixo assinado para re-instalação do CRM. O abaixo assinado pode ser acessado neste link
Retorno do governo A Prefeitura de Novo Hamburgo não informou previsão para a reestruturação do serviço. Em nota, afirmou que “o município realiza uma análise multissetorial, envolvendo o gabinete e diferentes pastas, sob coordenação da Secretaria Municipal de Saúde, para definir uma alternativa que atenda às necessidades das mulheres vítimas de violência”.
2- Testemunho/entrevista: Hoje vamos ouvir o testemunho da especialista em agroecologia, a agrônoma e doutora em desenvolvimento sustentável Emma Siliprandi, que foi consultora da FAO, agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura. A conversa trata da importância da agroecologia, tanto para a vida urbana quanto para a vida no campo, em um mundo que precisa curar as relações ambientais e sociais. Apresenta os conceitos e práticas desse conhecimento revolucionário, que aponta para a promoção de biodiversidade, saúde, autonomia, organização dos diferentes grupos sociais e ruptura do patriarcado. Retirado do Podcast Defato Nº64 de 24/10/2024 (parte 3);
3- Música: Eu Só quero é Ser Feliz, de André Cerqueira;
4- Fotos da internet: Sementes Crioulas – Brasil de Fato:
