Pesquisadores e lideranças negras recuperam histórias de resistência que atravessam passado e presente do sul gaúcho
Fabiana Reinholz e Marcelo Ferreira

Conhecida nacionalmente pela tradição doceira e pela arquitetura herdada do ciclo do charque, Pelotas, no sul do Rio Grande do Sul, guarda, sob os casarões históricos do centro, marcas ainda visíveis da escravidão que ergueu a cidade. Em muitos prédios no entorno da Praça Coronel Pedro Osório, antigas senzalas permanecem preservadas nos subsolos. Já a praça central, hoje um dos principais cartões-postais do município, abrigou um pelourinho onde pessoas negras eram castigadas publicamente.
“A história da cidade de Pelotas crescendo enquanto um espaço que se ergue através do trabalho, do sangue, do suor dos escravizados e dos seus descendentes, mas que absolutamente os segrega”, resume.
A pró-reitora de Ações Afirmativas e Equidade da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Daiane Molet, destaca que a cidade foi construída a partir do trabalho e dos conhecimentos da população negra escravizada, não apenas na força física, mas também na produção intelectual e técnica.

“A gente precisa pensar o quanto de inteligência e sabedoria negra foi utilizada para erguer a cidade de Pelotas”, afirma. “O quanto há de conhecimento quando alguém constrói uma parede, quando alguém ajuda a levantar um centro histórico como o nosso.”
Segundo ela, a dinâmica das charqueadas impunha um ritmo de trabalho e um desgaste distintos dos encontrados em ciclos agrícolas tradicionais, como os da cana-de-açúcar e do café.
Praça dos Enforcados e o apagamento da memória negra
A violência daquele período permanece registrada inclusive nos nomes populares da cidade. A Praça Cipriano Barcellos, próxima ao camelódromo, é conhecida popularmente até hoje como Praça dos Enforcados. Segundo Gonçalves, o local era palco de execuções públicas de pessoas negras durante o século 19. As pessoas se reuniam para assistir à pena capital sendo aplicada a corpos negros”, afirma.
O historiador sustenta que o apagamento da presença negra em Pelotas não ocorreu apenas nos espaços físicos, mas também na memória cultural da cidade. Ele cita como exemplo a tradição doceira pelotense, historicamente associada à influência europeia, embora tenha sido construída também pelo trabalho e pelos saberes de mulheres negras escravizadas e trabalhadoras do pós-abolição.
“Quem mexia tacho para melado? Quem estava na cozinha? Eram pessoas negras”, ressalta.

Ao comentar sobre a região central da cidade, Gonçalves aponta que, embora parte da área ainda seja ocupada por comunidades marginalizadas, predominantemente pretas e pardas, houve um processo contínuo de desrespeito e exclusão.
“Toda essa região foi completamente desrespeitada.”
Segundo ele, em nome de uma economia considerada pujante, hoje concentrada sobretudo na construção civil e no mercado imobiliário, ocorreu um avanço marcado pelo racismo estrutural e também pelo racismo ambiental.
“É um avanço da economia imobiliária, espremendo as pessoas cada vez mais para regiões marginais e avançando sobre o Passo dos Negros, por exemplo, que foi trilha de escravizados (que saia de Rio Grande) que chegaram aqui antes mesmo da formação dos quilombos que hoje vocês estudam e que nós conhecemos há bastante tempo”, ressalta.
Apesar disso, Gonçalves afirma que a resistência negra permaneceu viva nos bairros populares, nos quilombos rurais e nos clubes sociais negros da cidade, como o Clube Cultural Fica Aí Pra Ir Dizendo. Para ele, locais como Passo dos Negros, Dunas e Navegantes ajudam a compreender como a segregação racial moldou o crescimento urbano de Pelotas ao longo dos séculos.

Trabalho exaustivo e violência permanente
A professora Daiane Molet observa que, embora o trabalho nas charqueadas fosse extremamente insalubre e violento, é importante evitar hierarquizar as experiências da escravidão. Para ela, todas as formas de trabalho escravizado foram marcadas pela desumanização e pela negação da cidadania da população negra.
“A escravidão foi horrenda em qualquer parte onde ela existiu, independentemente do tipo de trabalho que foi executado”, afirma. “Estamos falando de uma legislação e de costumes que tratavam as pessoas escravizadas como mercadorias, que podiam ser compradas, vendidas, trocadas e herdadas.”
Molet ressalta que pesquisas históricas apontam as duras condições das charqueadas, marcadas pelo contato constante com sangue, vísceras, umidade e jornadas exaustivas. Ainda assim, pondera que outras experiências de trabalho escravizado também foram profundamente violentas.
“Quando a gente coloca que uma experiência foi mais ou menos violenta, corre o risco de amenizar outras experiências igualmente duras”, avalia. “A gente pode dizer, sim, que o trabalho nas charqueadas era muito difícil, muito duro, mas sem esquecer que a escravidão, de qualquer forma, foi extremamente violenta.”
Segundo Francisca Jesus, o ambiente das charqueadas era, por definição, um espaço de extrema crueza. O trabalho envolvia contato direto e permanente com sangue, vísceras e carcaças em decomposição. O manuseio constante desses resíduos orgânicos, muitas vezes sem qualquer proteção e com ferimentos expostos, favorecia infecções e a disseminação de doenças.
Além disso, o processo de salga submetia os trabalhadores à umidade constante e ao contato intenso com o sal, causando ulcerações na pele e agravando problemas reumatológicos.
Jesus também ressalta que a produção do charque seguia uma lógica exaustiva. O ritmo de trabalho era determinado pela necessidade de processar rapidamente grandes quantidades de carne antes da deterioração.
“Não era uma jornada organizada apenas pelo ciclo do sol, mas pela urgência da produção”, afirma.
O esforço físico para o abate do gado e o transporte das peças de carne exigia trabalho contínuo e intenso.

Outro aspecto destacado pela pesquisadora é a relação entre o uso de instrumentos de corte e a violência do controle social nas charqueadas. Como os trabalhadores escravizados atuavam diariamente com facas e cutelos, os senhores intensificavam a vigilância e os castigos exemplares como forma de impedir rebeliões.
“O sistema precisava impor também um esmagamento psicológico permanente”, explica.
Para Jesus, esse modelo de produção representou uma forma precoce de industrialização da carne, transformando pessoas escravizadas em peças de uma engrenagem marcada pela exaustão e pela brutalidade.
Ela ainda observa que a documentação histórica frequentemente enfatiza os lucros dos charqueadores, mas pouco registra sobre o cotidiano dos trabalhadores negros submetidos à insalubridade e à violência sistemática.
Segundo a pesquisadora, a baixa expectativa de vida nessas unidades produtivas revela a dimensão da exploração vivida nas charqueadas gaúchas.
Cidade negra e disputa por reconhecimento
Para Gonçalves, os impactos desse processo histórico também aparecem na ocupação dos espaços de poder e na dificuldade de consolidação de políticas públicas voltadas à população negra.

Segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Pelotas possui cerca de 325,6 mil habitantes, dos quais aproximadamente 32% se autodeclaram pretos ou pardos. O percentual é superior à média do Rio Grande do Sul, onde a população negra representa cerca de 21% dos habitantes, embora permaneça abaixo da média nacional. No Brasil, pessoas pretas e pardas somam 55,5% da população.
A cidade conta ainda, de acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, com quatro comunidades quilombolas: Alto do Caixão, Vó Elvira, Algodão e Cerrito Alegre.
Embora outros municípios gaúchos possuam coordenadorias, departamentos ou assessorias voltadas à promoção da igualdade racial, Pelotas passou a contar, em 2025, com uma secretaria municipal específica para o tema, apresentada pela gestão como a primeira do tipo no Rio Grande do Sul.
Em abril deste ano, a cidade inaugurou a Casa da Igualdade Racial, primeiro equipamento público do tipo na região Sul do Brasil concebido pelo Ministério da Igualdade Racial para promover políticas públicas voltadas à população negra e às comunidades tradicionais. O município também ampliou recentemente a presença de lideranças negras e quilombolas em espaços institucionais.
Para Gonçalves, esses avanços representam uma mudança importante na cidade. Ainda assim, o historiador pondera que a representatividade, por si só, não garante transformações estruturais.
“A manifestação de uma composição diversa das pastas do Poder Executivo, garantindo a presença de pessoas pretas, pardas, mulheres e tal, não necessariamente materializa avanços sociais”, afirma.
Para o secretário municipal de Igualdade Racial de Pelotas, Júlio Domingues, a criação da secretaria representa uma reivindicação histórica do movimento negro.
“Não tem como fugir do que foi o processo de escravização e das consequências que ele ainda produz.”

O secretário avalia ainda que parte da história da cidade segue sendo contada sem destacar a contribuição da população negra na formação cultural, social e econômica do município. Segundo ele, até mesmo a produção do charque incorporou conhecimentos trazidos pelas pessoas negras escravizadas.
Domingues cita como exemplo o tambor de sopapo, criado por pessoas escravizadas nas charqueadas e transformado em um dos principais símbolos da cultura negra pelotense.
“O tambor de sopapo mostra a capacidade de criação da população negra mesmo em uma realidade de exploração”, afirma.
Na avaliação do secretário, a presença negra permanece marcante em Pelotas, seja nos quilombos, nas religiões de matriz africana, nos clubes sociais negros ou nas manifestações culturais espalhadas pela cidade.
“Toda vez que uma pessoa negra sai do Rio Grande do Sul existe um estranhamento, como se aqui não houvesse população negra.”
Para ele, a ideia de um estado marcado apenas pela herança europeia contribui para invisibilizar a presença histórica da população negra na região sul.
“A presença negra sempre foi marcante aqui, desde o período das charqueadas até os quilombos, clubes negros e movimentos culturais que seguem vivos na cidade.”
Terreiros, memória e resistência
Para o presidente do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas, babalorixá Rodrigo Domingues, os terreiros também cumprem papel central na preservação da memória negra da cidade.
“Valorizar os povos de terreiro e os quilombos é também um passo essencial para construir uma narrativa mais justa e fiel à história de Pelotas”, afirma.
Segundo ele, além da dimensão religiosa, esses espaços funcionam como territórios de resistência cultural e de transmissão de saberes ancestrais.
Rotas Negras e a reconstrução da memória afro-brasileira

Selecionado pelo Ministério da Igualdade Racial, o projeto “Rotas Negras – O Passo Negro na Batuqueira do Sul” busca transformar Pelotas em um território de valorização da memória afro-brasileira por meio do turismo histórico e cultural.
A iniciativa, apresentada pelas secretarias municipais de Igualdade Racial e de Turismo, foi contemplada no 1º Prêmio Rotas Negras de Valorização da Cultura Afro-Brasileira, garantindo R$ 50 mil para implementação.
Para a diretora de Eventos da Secretaria de Turismo de Pelotas, Jaqueline Santos, o projeto representa um movimento de reconhecimento da população negra em uma cidade historicamente marcada pela exclusão.
“O Rotas Negras entra na minha vida num momento em que a gente tenta se reconhecer dentro de uma cidade excludente, racista e homofóbica”, afirma.
Santos pontua ainda que o projeto busca valorizar quilombos, religiões de matriz africana e trajetórias historicamente invisibilizadas no sul do país.
“Dizer para o Brasil que aqui no Sul tem negros e que existe essa resistência negra é muito importante”, ressalta.
Em Pelotas, a rota pretende mapear espaços centrais da presença e da resistência negra na cidade, conectando territórios históricos que vão do Centro até as margens do Canal São Gonçalo. O percurso incluirá locais como o cais do Porto, o Passo dos Negros, o Largo do Mercado, a Praça Coronel Pedro Osório, antigo Largo do Pelourinho, além de casas comerciais, residências de charqueadores e charqueadas históricas.
Para Francisca Jesus, o projeto ajuda a reconstruir os caminhos do tráfico de pessoas escravizadas no sul do país e evidencia como essas conexões seguem presentes nas desigualdades atuais.
“O tráfico se comunicava do sul do sul até o norte do país”, afirma.
Segundo ela, o levantamento realizado pelas equipes busca desenhar no mapa os caminhos da escravização e da circulação da população negra na região sul, a partir de inventários de famílias charqueadoras, registros de compra e venda e outros documentos históricos.
Jesus aponta que Pelotas possuía diferentes pontos estratégicos ligados ao comércio de pessoas escravizadas. Entre eles, cita a área onde hoje funciona o Jockey Club, além da região da balsa e do centro da cidade.
“Onde tem o chafariz hoje é um ponto da memória de dor da população negra.”
Ao relacionar essas rotas com os quilombos da região, Jesus afirma que municípios como Canguçu podem ter funcionado como importantes territórios de fuga e resistência da população negra escravizada.
“Talvez seja por isso que explique os 16 quilombos”, diz.
O Passo dos Negros e as rotas da escravização
Domingues afirma que o Passo dos Negros ocupa um lugar central na memória da cidade e nas rotas históricas da população negra no sul do estado. “Para nós, o Passo dos Negros é onde começa a cidade de Pelotas.”
Segundo ele, a região integra trajetos históricos de circulação, resistência e fuga da população negra escravizada, conectando cidades como Rio Grande, Pelotas e Canguçu.
A pesquisadora Francisca Jesus também destaca o reconhecimento do Passo dos Negros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como resultado de uma longa luta dos movimentos negros e pesquisadores da região. “Pelotas pode ser o terceiro maior parque arqueológico de recorte da população negra do Brasil”, afirma.

Em abril deste ano, o Iphan autorizou a realização do Projeto de Pesquisa Arqueológica no Passo dos Negros (PROPasso), iniciativa que pretende investigar mais de dois mil anos de ocupação humana na região de Pelotas.
Desenvolvido pela UFPel, com apoio do Escritório Técnico da Fronteira Sul do Iphan-RS, o estudo articula diferentes áreas do conhecimento, como arqueologia, antropologia, arquitetura, geografia, ecologia e saberes populares.
Os trabalhos de campo começaram oficialmente em 16 de março. A coordenação técnico-científica está a cargo do arqueólogo Cláudio Baptista Carle.
Segundo Francisca Jesus, as pesquisas arqueológicas em andamento poderão aprofundar a compreensão sobre a chegada da população negra à região e sobre o funcionamento das rotas do tráfico humano no sul do país.
Além do resgate histórico, o projeto Rotas Negras também pretende fortalecer o protagonismo da população negra, estimular a educação patrimonial e contribuir para o enfrentamento ao racismo estrutural. A iniciativa aposta no turismo como ferramenta de reparação histórica e valorização cultural, promovendo experiências ligadas à gastronomia, religiosidade, música e arte afro-brasileira presentes na cidade.