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VOZES E TERRITÓRIOS | Caminhos Negros revela história invisibilizada da população negra em Rio Grande (RS)

Projeto nasce do movimento negro e articula educação e memória com percursos mapeados em circuito a céu aberto

 
 

Iniciativa tem como eixo reparação histórica e sociocultural através de ações educativas e foi reconhecida, em 2026, no 1º Prêmio Rotas Negras, do governo federal | Crédito: Divulgação/Prefeitura de Rio Grande
 

Um dos principais pontos de chegada de pessoas negras escravizadas ao território que hoje corresponde ao Rio Grande do Sul, a cidade de Rio Grande, primeira do estado e marcada pela colonização lusitana, teve parte central de sua história construída com base na invisibilização dessas trajetórias.

A iniciativa tem como eixo a reparação histórica e sociocultural e foi reconhecida, em 2026, no 1º Prêmio Rotas Negras, do governo federal. O projeto identifica, mapeia e demarca territórios negros da cidade com base em pesquisa e participação comunitária, construindo narrativas a partir da perspectiva da população negra e promovendo ações educativas voltadas à implementação da Lei 10.639 e do Estatuto da Igualdade Racial.

“O Caminhos Negros é uma ideia coletiva, uma necessidade coletiva”, afirma o idealizador do projeto e coordenador de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no município, Chendler Siqueira. “Por muito tempo, participando das conferências de igualdade racial e das rodas de conversa, eu comecei a ouvir os nossos mais velhos dizendo que os nossos locais estão se apagando, que as nossas histórias estão sumindo, que ninguém fala sobre as nossas contribuições.”

 

Segundo ele, o projeto surge desse acúmulo de escutas e denúncias sobre o apagamento de espaços, memórias e contribuições da população negra na formação da cidade. Com o tempo, essa percepção se aprofunda. “Eu comecei a me dar conta de que era um apagamento proposital, que não contava uma versão da história oficial da cidade.”

Essa lacuna também aparece no cotidiano das escolas. “A gente sente que ainda existe uma carência muito grande de formação sobre a Lei 10.639, sobre o ensino de África e da cultura afro-brasileira”, afirma a professora de história Giovanna Pontes Farias, doutora em educação e integrante do Núcleo de Relações Étnico-Raciais da Secretaria de Educação. “A gente ainda tem que fazer um trabalho de formiguinha, de explicar o porquê, porque é uma sociedade que não é letrada racialmente.”

 

Percurso começa nas docas do Mercado Público, onde pessoas escravizadas eram desembarcadas e comercializadas | Crédito: Marcelo Ferreira

 

Construção coletiva e disputa de narrativa

A proposta começa a ganhar forma quando Siqueira, então secretário adjunto de Cidadania e Assistência Social, articula um grupo com professoras da rede municipal e estadual, militantes da União de Negros e Negras pela Igualdade (Unegro) e integrantes do Conselho Municipal da Comunidade Negra (Condescom). O processo envolveu consulta pública sobre os territórios negros da cidade, a criação de um grupo de trabalho com representatividade e a realização de pesquisas bibliográficas e orais.

“Eu não sentei um dia e escrevi o projeto. A gente começou a pensar coletivamente como estruturar algo que desse conta de visibilizar esses espaços e essas histórias”, afirma.

O debate se fortalece a partir de experiências já existentes em outras cidades. “Em Porto Alegre já existiam os territórios negros organizados pela Companhia Carris Porto-Alegrense (Carris). Nós fomos atrás dessa experiência. E por que não criar algo semelhante em Rio Grande?”

Nesse processo, também entra a revisão da própria narrativa histórica local. “A gente sempre fez a narrativa de que Rio Grande é o berço do estado do Rio Grande do Sul. Então, Rio Grande sempre teve, e tem, um débito muito grande com a população negra”, afirma Siqueira. Dessa reflexão surge o projeto, com o objetivo de contar “a história que não é contada”. “A cidade se orgulha de ser lusitana, mas não fala que, junto com os primeiros portugueses, vieram pessoas escravizadas que ergueram o Forte Jesus Maria José. Tudo que existe aqui tem contribuição direta da população negra.”

 

Festa de Iemanjá no Balneário Cassino, em Rio Grande, é uma das maiores manifestações religiosas afro-brasileiras do estado; estátua integra o Caminhos Negros | Crédito: Divulgação/Urumi

 

Ele reforça que havia também uma dimensão política na construção do projeto. “A gente entendia que precisava ser vanguarda na discussão e implementação de políticas afirmativas reparatórias, compensatórias ao crime de lesa-humanidade, que hoje tivemos a grata felicidade da ONU reconhecer como o pior crime contra a humanidade.”

A secretária de Cultura, Rita Pata Rache, aponta que essa revisão também se dá no campo das políticas públicas e do patrimônio. Segundo ela, não se trata apenas de preservar uma narrativa já consolidada, como a herança lusitana, mas de reconhecer a centralidade da presença negra e da diáspora africana na formação da cidade. “E quando digo construção, é construção mesmo: quem edificou a cidade foram esses povos.”

Para Rache, professora licenciada da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), essa mudança passa também pela ocupação dos espaços de decisão. “Política é decisão sobre onde colocar recursos e o que priorizar.”

O processo inicial foi marcado por um levantamento coletivo de memórias e referências. Entre elas, aparecem contribuições como as do pesquisador Luiz Marim, que trouxe a história do Largo das Quitandeiras, e de Milton Ricardo Serafim, da Oluparum Produções, que apontava para a existência de um pelourinho na cidade, até então pouco reconhecido.

“Eu nunca tinha parado para pensar que toda cidade tinha um pelourinho. E onde era em Rio Grande? Eu não sabia. E não era só eu”, relata Siqueira.

 

Atividade passando pelo Largo das Quitandeiras (atualmente Praça Júlio de Castilhos), onde mulheres negras vendiam alimentos e teve um pelourinho | Crédito: Divulgação/Prefeitura de Rio Grande

 

Do papel ao território: entraves e retomadas

A proposta inicial previa um circuito com placas físicas espalhadas pela cidade, contendo informações históricas e QR Codes. O projeto foi contemplado em edital de fomento à extensão da Furg, em 2019, a partir da parceria com professoras como Rita Pata Rache e Fabiane Pianovski.

“Eu cheguei ao projeto Caminhos Negros a partir de uma preocupação com a educação em artes visuais. Criamos uma disciplina chamada ‘Caminhadas Estéticas e Educativas’, que sai da universidade e vai para os territórios”, explica Rache. “A ideia era pensar como a educação em artes se relaciona com a vida social, com a política, com o mundo que queremos construir.”

De acordo com ela, a proposta também busca subsidiar a implementação das leis 10.639 e 11.645, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena nas escolas.

Sem financiamento suficiente para execução integral, a proposta enfrentou interrupções, agravadas por cortes de orçamento federal e pela pandemia. Como alternativa, o grupo desenvolveu uma versão virtual do circuito, com mapa interativo. Os pontos do trajeto foram definidos com participação popular: de uma lista inicial de 26 locais, 10 foram escolhidos por votação.

Agora, o projeto avança com novos recursos, cerca de R$ 90 mil, provenientes de emenda parlamentar e da premiação no 1º Prêmio Rotas Negras, que devem viabilizar a instalação das placas, além da produção de cartilha para distribuição nas escolas e de um documentário. “A ideia é consolidar o circuito, institucionalizar, para que não dependa de gestão”, afirma Siqueira.

O 1º Prêmio Rotas Negras, concedido em 2026, é uma iniciativa do Ministério da Igualdade Racial em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria e reconhece roteiros turísticos baseados na história e cultura de comunidades afro-brasileiras em todo o país.

Educação, território e enfrentamento

A proposta envolve diretamente as escolas. “A gente traz as escolas, as professoras para dentro desse projeto e passa a dar visibilidade para histórias que estavam silenciadas”, afirma a coordenadora do Núcleo Étnico-Racial da Secretaria de Educação, Rejane de Oliveira Gomes.

 

Placas do projeto Caminhos Negros foram expostas no Mercado Público na Semana do Patrimônio 2025 de Rio Grande | Crédito: Divulgação/Prefeitura de Rio Grande

 

De acordo com a coordenadora, um dos impactos é o reconhecimento de referências negras locais. “O Caminhos traz nomes que os alunos não conheciam, como Carlos Santos, primeiro presidente da Assembleia Legislativa gaúcha e primeiro deputado negro, e Marcílio Dias, marinheiro negro.”

Ela aponta que a ausência dessas referências no espaço urbano também passa a ser questionada. “A gente chega no ponto onde deveria estar a estátua de Marcílio Dias e não encontra. Isso diz muito sobre o racismo estrutural.” E completa: “Se diz que há depredação, mas em outros pontos com estátuas de pessoas brancas, elas permanecem.”

Para Gomes, o projeto impacta diretamente o ambiente escolar ao reposicionar sujeitos históricos. “A gente se reconhece como agente, não objeto de estudo.” Segundo ela, apesar dos obstáculos, houve avanços institucionais.

O núcleo também se fortaleceu. “Antes era assessoria, hoje é um núcleo institucionalizado.” Com isso, ampliam-se as ações de formação e projetos nas escolas. “Hoje se entende que essas narrativas não podem ser apagadas.”

Do mercado ao Passo dos Negros

O percurso começa nas docas do Mercado Público, onde pessoas escravizadas eram desembarcadas e comercializadas. “Ali começa a dor do nosso povo”, afirma Siqueira.

A partir dali, muitos eram levados a pé, acorrentados, até as charqueadas de Pelotas, em um trajeto de mais de 30 quilômetros conhecido como Passo dos Negros.

 

Rejane de Oliveira Gomes, Chendler Siqueira e Giovanna Pontes Farias nas docas do Mercado Público | Crédito: Marcelo Ferreira

 

Entre os pontos do circuito está o bairro Getúlio Vargas, historicamente estigmatizado e reconhecido como um dos principais territórios negros da cidade. Formado por trabalhadores portuários, se consolidou a partir da ocupação de áreas de banhado. “O bairro negro centenário, o bairro mais negro que nós temos no município, foi construído por trabalhadores portuários que não tinham transporte público eficiente na época. Eles ocupam um espaço que era um banhado, constroem a Vila do Cedro, que depois se torna bairro Getúlio Vargas”, explica Siqueira.

Segundo o coordenador, é nesse território que se expressa de forma mais evidente a vida comunitária e cultural negra na cidade. “Ali, toda segunda-feira, em todas as encruzilhadas, tu vai encontrar milho, pipoca e batata. No Carnaval, tem samba em todas as quadras. O terreiro é muito presente, o pagode, o samba são muito presentes. Ali se vive uma outra forma de sociedade. A criança de uma casa não é daquela casa, é da quadra inteira. Toda quadra cuida da criança, toda casa sabe da criança, repara a casa do vizinho.”

“A gente leva as pessoas para conhecer aquele bairro que, por muitos anos, foi apontado como o mais violento da cidade. Não é à toa: é o bairro mais negro”, afirma Siqueira. Ele contesta essa associação: “As mortes nem aconteciam ali, mas eram atribuídas ao território.” Para o coordenador, o bairro expressa outra lógica social. “Ali não é o indivíduo, é o coletivo. Existe um pertencimento muito forte.” O movimento negro defende o reconhecimento do bairro Getúlio Vargas como quilombo urbano.

Rio Grande não possui hoje um território quilombola consolidado, mas há comunidades reconhecidas. “A comunidade de Macanudos é reconhecida, mas o território foi vendido e nunca recuperado”, conta Siqueira. Segundo ele, outros quilombos aparecem na memória oral, como o do Negro Lucas, nas ilhas. “São histórias que não foram sistematizadas, mas seguem vivas.”

 

Na Praça da Geribanda, hoje conhecida como Praça Tamandaré, há o monumento do tambor de sopapo, símbolo de resistência negra do Rio Grande do Sul | Crédito: Marcelo Ferreira

 

Memória, religiosidade e apagamento

O projeto também evidencia como o apagamento se manifesta em elementos cotidianos da cidade. “Quando se troca o nome de Largo das Quitandeiras, se apaga uma história inteira”, defende Siqueira. O mesmo ocorre com a antiga Praça da Geribanda, hoje conhecida como Praça Tamandaré. “Quando não se fala, aquilo deixa de existir.”

Nesse contexto, a presença do Bará no Mercado Público integra esse processo de visibilização. Dois momentos são centrais: o toque realizado em 29 de junho, iniciado por Mãe Mábia de Iansã, e o assentamento do Bará, construído coletivamente com lideranças religiosas. “A relação entre Bará e o mercado é africana. Ele é o senhor das trocas, das negociações, da comunicação”, explica o coordenador.

 

Visita do projeto ao Bará do Mercado | Crédito: Divulgação/Prefeitura de Pelotas

 

A partir dessa articulação, foi instituída a Semana Municipal contra a Intolerância Religiosa, realizada em torno de 31 de outubro.

Outro eixo do projeto é a valorização de elementos da cultura de matriz africana no espaço público, associado a práticas de visibilização e enfrentamento à intolerância religiosa.

Um dos dados mais expressivos do projeto vem do mapeamento dos terreiros. “Visitamos oito bairros e já identificamos mais de 950 terreiros. A cidade tem mais de 50 bairros”, destaca Siqueira. A estimativa inicial era de cerca de 2 mil. “Não chegamos nem na metade e já temos esse número. A Secretaria da Fazenda não tem nem 20 cadastrados.”

 

Visita do projeto à Casa de Oxum Taladê, de Mãe Graça de Oxum, no bairro Getúlio Vargas | Crédito: Divulgação/Prefeitura de Rio Grande

 

O percurso do Caminhos termina de forma deliberada em um terreiro, a Casa de Oxum Taladê, de Mãe Graça de Oxum, no bairro Getúlio Vargas. “Muitas pessoas resistem a entrar, porque veem como espaço religioso”, relata Siqueira. “Mas o terreiro é um espaço de salvaguarda de saberes.” Ele compara: “Se fosse terminar na Catedral de São Pedro, ninguém questionaria.” Para ele, os terreiros funcionam como “quilombos urbanos”, responsáveis por preservar saberes ancestrais.

Para Rache, a compreensão desses espaços exige superar leituras simplificadas. “A vida nos terreiros é uma forma complexa de organização social, com valores e princípios próprios.”

 

Professora licenciada e secretária de Cultura de Rio Grande, Rita Pata Rache | Crédito: Marcelo Ferreira

 

Disputa por memória e direito à cidade

Sobre a continuidade do projeto diante de mudanças de governo, Gomes afirma que a estratégia é institucionalizar. “A gente busca consolidar o trabalho, fazer com que ele seja documentado.” Segundo ela, já há avanços, como a criação de um protocolo antirracista, a aprovação no Conselho e a elaboração de um documento orientador, com o objetivo de garantir base legal para a permanência da iniciativa.

Para Siqueira, o projeto também disputa o direito à cidade e a forma como a história é narrada. “Hoje, quando a gente olha, parece que só os brancos portugueses construíram tudo.”

Ele afirma que a iniciativa atua diretamente na construção de identidade e no enfrentamento dessa narrativa. “É uma virada de chave: se amar, não ter vergonha e não comprar essa ideia de que é preciso se embranquecer para ser aceito.”

Com a implementação das placas, da cartilha e do documentário, a expectativa é consolidar o projeto no território. “A ideia é garantir que essa história não seja apagada novamente e que a cidade reconheça quem a construiu.”

 


Esta matéria é parte das ações do Projeto “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”, executado em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. O apoio se dá conforme o Termo de Fomento nº 973281, correspondente à Meta 6 (Produção de Matérias escritas para mídias digitais).

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