Milhares de devotos levaram suas oferendas ao tradicional evento realizado junto ao monumento a Oxum na orla de Ipanema

Dezembro é o mês dedicado à rainha das águas doces. Em Porto Alegre, a tradicional Festa de Mãe Oxum e o Festival de Oxum ─ As Águas da Reconstrução reuniram milhares de pessoas ao longo de três dias para celebrar a orixá que rege rios, cachoeiras e fontes. Em sua 32ª edição, a tradicional festa na orla de Ipanema marcou o encerramento, nesta segunda-feira (8), das atividades dedicadas à divindade de matriz africana, ao som de tambores e orações.
Os festejos iniciaram ainda no sábado (6), com o Festival de Oxum ─ As Águas da Reconstrução, na Praça Açorianos, região da Ponte de Pedra, espaço historicamente ligado às oferendas para a orixá. Idealizado por Itanajara Almeida (Iyá Itanajara de Oxum), o evento buscou promover o diálogo entre proteção ambiental e culturas de matriz africana em meio à crise climática que marca o estado desde 2024.
Prosseguiu no domingo (7) com rodas de conversa que abordaram ancestralidade, religiosidade, território e meio ambiente. O encerramento aconteceu na noite de segunda-feira, dia dedicado à divindade, com a tradicional Festa de Mãe Oxum, realizada junto ao monumento na praia de Ipanema que abriga o assentamento de orixá. A festividade acontece logo após a realização ter se tornado lei na Capital.

Após um dia de oferendas pelo dia de Oxum no Guaíba, milhares de devotos acompanharam a procissão que levou a imagem da orixá pela avenida Guaíba até o palco principal. Após o cortejo, iniciou-se um ato conduzido pela Federação das Religiões Afro-Brasileiras (Afrobras), com apoio da Prefeitura de Porto Alegre e participação de lideranças religiosas e autoridades políticas.
O babalorixá Mozart de Iemanjá, da Casa de Iemanjá – Axé 11 de Maio, fez o cerimonial da festa, que segundo ele busca “acolher, cuidar e aliviar a dor e o sofrimento” das pessoas que confiam na força dos orixás. Ele lembrou que a trajetória do evento é marcada por dificuldades, preconceito e falta de apoio, mas sustentada pela persistência da fé. “Trinta e dois anos de lutas para a realização de uma festa religiosa”, disse, recordando que milhares de devotos já atribuíram graças e milagres à bondade de Mãe Oxum ao longo das três décadas.
Mozart falou ainda sobre a dimensão espiritual da orixá, descrita por ele como guardiã das águas que curam, símbolo da força feminina e de uma sabedoria ancestral que orienta e transforma. “Oxum é a vaidade sagrada que não se reduz ao espelho, mas reflete dignidade. Celebramos aqui uma herança espiritual que atravessou oceanos e hoje floresce com vigor, orgulho e identidade”, afirmou.
“A maior festa do mundo para Mãe Oxum”
O presidente da Afrobras, babalorixá José Antonio Salvador de Iemanjá, saudou a patrona da edição, a ialorixá Mãe Santinha de Ogum, e agradeceu o apoio da Secretaria Municipal da Cultura. Ele ressaltou o esforço coletivo para manter a tradição e erguer o monumento dedicado à orixá. “Essa festa não é a maior de Porto Alegre, nem do Rio Grande do Sul ou do Brasil. Ela é a maior festa do mundo pra Mãe Oxum”, declarou, enfatizando o número de participantes e o papel da comunidade religiosa na preservação do batuque.

Já o presidente do Conselho Estadual de Povos de Terreiro, Baba Diba de Iemonjá, afirmou que Porto Alegre “para e deve parar por essa festa maravilhosa e gigantesca”. Para ele, o encontro simboliza renovação espiritual e reforça a luta contra o racismo religioso e pela valorização das tradições afro-brasileiras.
Ele chamou atenção para a importância de campanhas permanentes de respeito aos terreiros e compreensão pública sobre o que pertence ao espaço sagrado e ao espaço social. “É uma festa maravilhosa, gigantesca. Que possamos pedir saúde, prosperidade e vida para todos nós.”
Baba Diba lembrou que o combate ao racismo religioso permanece central na atuação dos povos de terreiro. “Precisamos pedir respeito às nossas tradições, respeito aos terreiros, e ampliar a compreensão sobre o que é do espaço sagrado e o que é do espaço social.”
Mãe Santinha de Ogum: 70 anos de sacerdócio
Patrona da 32ª edição, Mãe Santinha de Ogum foi homenageada pela Afrobras como um dos grandes nomes da religiosidade afro-gaúcha. Com 70 anos de sacerdócio na nação Jeje-Ijexá, é considerada herdeira legítima da obra de Mãe Esther Ferreira de Yemanjá e neta do histórico Manuelzinho de Xapanã.

Sua trajetória foi lembrada como símbolo de disciplina, ancestralidade e continuidade das tradições. “Mãe Santinha é exemplo vivo de filantropia, resistência e dedicação aos bons valores do batuque afro-gaúcho, sendo referência incontestável para todas as novas gerações que seguem fortalecendo o axé no Rio Grande do Sul e por todo o Mercosul, onde se movimenta frequentemente”, disse Mozart durante a homenagem à ialorixá.
A secretária municipal de Cultura, Liliana Cardoso, filha de Oxum, pediu bênçãos para Porto Alegre. “Que a nossa rica mãe nos dê saúde, que abençoe a capital e nos faça enxergar com mais amor e generosidade”, disse, afirmando que a pasta seguirá apoiando o respeito às tradições de matriz africana.
Unidade religiosa e proteção para tempos difíceis

O babalorixá Jorge Quirino de Oxalá, presidente da Sociedade Espiritualista de Umbanda de Uruguaiana (Aruanda) e vice-presidente do Conselho Superior das Religiões Umbandistas e Afro do Estado do RS (Confubras), celebrou mais uma edição da festa e a união entre as entidades religiosas. Ele também destacou que a celebração é “a maior festa popular de religião para Oxum do estado e do Brasil”.
O prefeito Sebastião Melo (MDB) levou o apoio institucional da prefeitura e destacou a presença de Liliana no cargo. “É a primeira vez na história dessa cidade que tem uma filha de Mãe Oxum, negra, da periferia, como secretária”, afirmou. O prefeito pediu proteção para enfrentar os desafios climáticos em Porto Alegre e disse que a gestão municipal trabalha com respeito a todas as manifestações religiosas.
Flores, tambores e renovação
Após as falas, tambores anunciaram o início da grande roda formada por praticantes de matriz africana em frente ao palco. Centenas de pessoas dançaram e entoaram cantos à Mãe Oxum ao redor da mesa de oferendas.
Ao longo do dia e noite adentro, fiéis ofereceram flores amarelas, mel, frutas, espelhos e perfumes à Orixá nas águas do Guaíba. Também houve passes, orações, batuques e rituais de agradecimento distribuídos pela orla.
Três décadas viram livro
Durante a festa, foi feito o pré-lançamento do livro “Festas de Oxum, uma história de fé e axé”. A obra será assinada pelos babalorixás Antônio de Yemanjá, Jorge Quirino de Oxalá e Mozart de Iemanjá, e o lançamento está previsto para a Feira do Livro de Porto Alegre de 2026.
Segundo Mozart, a publicação vai registrar a trajetória das três décadas de devoção da festa na Capital, considerada um marco para as religiões afro-brasileiras. “Entre relatos, fotografias, bastidores e história de existência, o livro conduz o leitor por um caminho de axé que traduz o espírito desta festa que há trinta e dois anos convoca multidões para honrar Oxum.”
Esta matéria é parte das ações do Projeto “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”, executado em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. O apoio se dá conforme o Termo de Fomento nº 973281, correspondente à Meta 6 (Produção de Matérias escritas para mídias digitais).