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VOZES E TERRITÓRIOS | Terreiros acolhem periferias e disputam memória negra em Pelotas (RS)

Casas de matriz africana preservam ancestralidade, promovem ações sociais e enfrentam racismo religioso
Mãe Ìyá Jaqueline D’Esú Biomí e filhos de terreiro na cozinha solidária do Ilê Baray Xangô, no Barro Duro, em Pelotas (RS) | Crédito: Marcelo Ferreira
 

Em uma cidade marcada pela presença negra e pela força histórica das religiões de matriz africana, os terreiros de Pelotas (RS) sustentam redes de fé, acolhimento e resistência. Mais do que espaços de culto, as casas preservam saberes ancestrais, promovem ações sociais, cuidam de pessoas em situação de vulnerabilidade e enfrentam o racismo religioso em um município onde a herança africana permanece viva, mas ainda disputa reconhecimento.

No Balneário dos Prazeres, conhecido como Barro Duro, o Ilê Baray Xangô é um desses territórios. Dirigido por Mãe Ìyá Jaqueline D’Esú Biomí, o terreiro reúne espiritualidade, cuidado comunitário, formação cultural e ações voltadas a crianças, adolescentes e famílias da região. Com mais de quatro décadas de caminhada religiosa e a casa aberta desde 1987, ela relembra que os primeiros passos aconteceram nos fundos da casa da mãe.

Em 2000, Mãe Jaqueline mudou-se de Porto Alegre para o Barro Duro. Desde então, o espaço foi ampliado com a ajuda de filhos de santo, doações e recursos obtidos por graças alcançadas. Segundo a dirigente do terreiro, o território, historicamente frequentado pela população negra e marcado por celebrações como a Festa de Iemanjá, carrega uma dimensão ancestral.

 
 

Cuidado, alimento e formação

Cozinha solidária do Ilê Baray Xangô serve almoço para a comunidade | Crédito: Marcelo Ferreira

Hoje, um dos principais projetos desenvolvidos no local é o Apoerê, inserido no programa “Caminho Negro Ancestral: Oralidade e Religiosidade da População Negra do Extremo Sul”. Para a religiosa, a iniciativa representa a realização de um sonho antigo. “Eu sou uma mulher que sonha muito. Sou mãe de santo, sou negra, luto muito pelos meus sonhos e pelos meus objetivos. E acredito que tudo se torna realidade quando a gente faz o bem”, diz.

O projeto reúne cozinha solidária e oficinas para crianças e adolescentes nas áreas de música, teatro, dança, boxe, capoeira, tambor e sopapo. A proposta é ampliar as atividades por meio de novas parcerias e oferecer oportunidades de formação cultural e social. “Não é só aprender a tocar. As crianças também aprendem a confeccionar o sopapo e instrumentos de percussão”, explica Mãe Jaqueline.

Entre as iniciativas que mais emocionam a dirigente está a cozinha solidária, criada para atender famílias da comunidade. “É uma coisa muito boa poder ter essa cozinha solidária ativa. Eu gostaria que fosse todos os dias. É um trabalho que está começando, mas quem sabe daqui a pouco estaremos aqui todos os dias ajudando as famílias que precisam”, relata.

Para Mãe Jaqueline, essas iniciativas mostram que os terreiros podem ser espaços de transformação social, apesar das dificuldades enfrentadas historicamente pelas religiões de matriz africana. A atuação social, ressalta, não está separada da espiritualidade. Além das giras e incorporações, o espaço promove ações culturais, oficinas de costura, atividades para crianças e adolescentes e acolhimento de moradores do território. “O que fazemos dentro do terreiro não é só a gira. Tem toda uma culinária, uma cultura muito rica que as pessoas precisam conhecer.”

 

Terreiro como espaço de acolhimento

Ao refletir sobre o papel das religiões de matriz africana em Pelotas, Mãe Jaqueline afirma que os terreiros cumprem funções que vão além da prática religiosa. Filha de Antônio Carlos de Xangô, conhecido como Didi, e herdeira de uma tradição familiar ligada aos cultos afro-brasileiros, ela afirma que as casas historicamente acolhem pessoas em situação de vulnerabilidade e oferecem suporte comunitário muitas vezes ausente em outros espaços. “Os terreiros, assim como os quilombos, acolhem as pessoas que precisam.”

 

Mãe Ìyá Jaqueline em seu Ilê | Crédito: Marcelo Ferreira

 

Segundo ela, muitas demandas recebidas envolvem sofrimento emocional, adoecimento mental e exclusão social. Terapeuta em Terapia de Reprocessamento Generativa (TRG), Mãe Jaqueline também defende o potencial de cuidado das práticas tradicionais. “Se cura nas ervas, se cura nas energias, através da mão, através do alimento”, explica.

A religiosa afirma que os terreiros exercem papel fundamental no acolhimento da população LGBTQIA+, muitas vezes rejeitada pelos próprios familiares. Ao longo dos anos, relata, a casa recebeu pessoas que precisavam de moradia temporária, apoio financeiro ou incentivo para seguir estudando. “Muitas vezes eu dava o dinheiro da passagem para que a pessoa pudesse estudar. Hoje uma dessas pessoas é doutor em história.”

Para Mãe Jaqueline, boa parte da sociedade desconhece a dimensão humana do trabalho desempenhado pelas casas de religião. “Nos julgam sem saber o quanto o nosso trabalho é humano”, resume.

 

Exu Bará e a disputa pelo espaço público

A presença dos terreiros em Pelotas também se expressa na disputa pelo reconhecimento público da ancestralidade negra. No caso de Mãe Jaqueline, um dos símbolos dessa luta é o Monumento a Exu Bará, inaugurado em 30 de agosto de 2025, no bairro Fátima, em Pelotas.

Devota de Exu desde jovem, ela conta que imaginava a construção de um monumento desde os 18 anos. O projeto avançou com apoio de lideranças religiosas e articulação junto ao poder público, mas enfrentou resistência. “Tivemos muitas pessoas nos barrando e nos atacando. Inclusive evangélicos nos atacaram muito. Tivemos que fazer um abaixo-assinado para mostrar que a comunidade apoiava”, recorda.

 

Estátua de Exu Bará da Rua foi inaugurada em 30 de agosto de 2025 em Pelotas | Crédito: Marcelo Ferreira

 

Apesar das dificuldades, o monumento foi inaugurado em um evento que reuniu mais de 5 mil pessoas. Situada em uma área portuária, a praça é vista por Mãe Jaqueline como espaço de memória ancestral ligado à história da população negra na cidade.

“É um portal de Exu. Tudo foi sincronizado na energia, na magia e na forma como a ancestralidade quis”, avalia.

 

Presença pública e memória negra

A presença pública das religiões de matriz africana também aparece no Mercado Público, nas procissões e nas celebrações que ocupam a cidade. Para o babalorixá Juliano Silva da Silva, o Pai Juliano de Oxum, esse movimento é parte da preservação da memória negra e da afirmação pública dos povos de terreiro.

Embora não seja a única religião de matriz africana da cidade, o Batuque é uma das tradições mais praticadas em Pelotas e tem forte relação histórica com o sul do estado. Para Pai Juliano, a história de Pelotas e Rio Grande está diretamente ligada à formação dessa tradição no Rio Grande do Sul. “Pelotas e Rio Grande são o berço do Batuque. Foi pelo porto de Pelotas que entrou toda essa tradição trazida pelos nossos ancestrais negros”, afirma o babalorixá.

Há 15 anos participando das atividades realizadas no Mercado Público de Pelotas, Pai Juliano afirma que a caminhada foi marcada por resistência. Nos primeiros anos, relata, muitos praticantes tinham receio de participar das atividades por causa das perseguições históricas sofridas pelas religiões de matriz africana. “Os mais antigos diziam: ‘Já tentamos fazer isso antes. Vocês vão quebrar a cara’.”

Hoje, afirma, a realidade é diferente. “Outros irmãos conseguem entrar no Mercado com axé, roupa, fio de contas, instrumentos e fazer o passeio religioso”, relata.

Para o religioso, essa presença pública contribuiu para que mais pessoas passassem a se identificar abertamente como praticantes das religiões de matriz africana. Antes, avalia, parte da comunidade ainda evitava essa autodeclaração por medo ou estigma. “Hoje a pessoa diz: ‘Eu sou povo de terreiro, sou candomblecista, sou umbandista’.”

Patrimônio e reparação histórica

Pai Juliano também destaca o protagonismo de Pelotas na valorização do patrimônio ligado às religiões de matriz africana. Ele lembra que a cidade provocou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para reconhecer o Bará do Mercado de Pelotas como patrimônio antes de processos semelhantes em Porto Alegre e Rio Grande. “Pelotas provocou o Iphan para tornar patrimônio o Bará do Mercado de Pelotas. Bem antes que o Bará do Mercado de Porto Alegre e o de Rio Grande”, destaca.

 

Pai Juliano de Oxum ao lado do Bará do Mercado de Pelotas | Crédito: Marcelo Ferreira

 

O babalorixá ressalta ainda a importância da demarcação realizada por Mãe Giza de Oxalá e Pai Paulo de Xangô. Desde 2015, acrescenta, a Procissão do Bará fortalece esse processo de afirmação pública da ancestralidade negra. “Este ano completa 11 anos da Procissão do Bará, mas é milenar a história de todos os Barás”, diz.

A força das águas também aparece na memória religiosa da cidade. Para Pai Juliano, Pelotas tem relação profunda com Iemanjá, expressa historicamente nas celebrações de 2 de fevereiro. “Pelotas tem muita força de Iemanjá. Era uma cidade que, turisticamente, chegava a abrigar 45 mil pessoas nos dias 1º e 2 de fevereiro”, relembra.

Ao falar sobre a cosmovisão das religiões de matriz africana, ele destaca a relação com os ancestrais e com a coletividade. “Nós somos a única tradição em que a gente dança com nossos ancestrais, dança com nossas divindades.”

Racismo religioso impõe barreiras

A valorização dessa herança cultural e religiosa convive com desafios históricos. Apesar dos avanços na visibilidade e no reconhecimento das religiões de matriz africana, lideranças apontam que o racismo religioso segue presente no cotidiano das comunidades tradicionais.

Para o presidente do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas (CMPTERPEL), Rodrigo Domingues, uma das manifestações mais recorrentes aparece por meio da intolerância direta, expressa em ofensas, ataques simbólicos e depredação de espaços sagrados. “Essas situações demonstram que ainda existem setores da sociedade que não reconhecem as religiões de matriz africana como tradições legítimas”, afirma Domingues.

O presidente do conselho ressalta, porém, que o problema não se limita às agressões explícitas. O racismo religioso também se manifesta de forma estrutural e institucional, criando obstáculos ao acesso a direitos básicos. “Muitas lideranças de terreiro relatam dificuldades na regularização de seus espaços, na obtenção de alvarás e no reconhecimento institucional pleno”, aponta.

Segundo Domingues, essas barreiras revelam como a discriminação também opera no âmbito burocrático. Outro desafio é a estigmatização social, frequentemente alimentada por preconceitos históricos e pela desinformação. “As religiões de matriz africana ainda são associadas de forma negativa em muitos contextos, o que contribui para o isolamento de praticantes e para a reprodução de estereótipos”, analisa.

Apesar desse cenário, ele avalia que os povos de terreiro têm fortalecido estratégias de resistência por meio da organização coletiva, da ocupação de espaços públicos e da afirmação das identidades culturais e religiosas.

A articulação entre terreiros, quilombos e movimentos culturais, acrescenta Domingues, tem ganhado força em Pelotas. Entre as pautas comuns estão o reconhecimento institucional, a proteção de territórios, o enfrentamento ao racismo e a ampliação da participação política dessas comunidades nos espaços de decisão. “Para essas comunidades, o território não representa apenas um espaço físico, mas um elemento fundamental de identidade, memória e continuidade cultural”, ressalta.

Reconhecimento precisa ir além da visibilidade

As experiências relatadas pelas lideranças de terreiro em Pelotas dialogam com uma discussão mais ampla sobre memória, direitos e reconhecimento institucional. Para a psicóloga, escritora, coordenadora estadual do Movimento Negro Unificado (MNU), conselheira dos Conselhos Estadual e Municipal do Povo de Terreiro e vice-presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Ìyá Sandrali Bueno, o crescimento da presença das religiões de matriz africana nos espaços públicos representa uma conquista histórica, mas ainda insuficiente diante das desigualdades enfrentadas pelas comunidades.

Segundo Sandrali, compreender a presença dos terreiros hoje exige reconhecer o papel dessas casas na reconstrução das heranças africanas no Brasil. “Quando afirmo que cada terreiro reconfigura a África em um novo território, estou falando de um processo de reconstrução da vida”, afirma.

 

Ìyá Sandrali Bueno: ‘Reconhecimento simbólico sem proteção material ainda é um reconhecimento incompleto’ | Crédito: Camila Schäfer / Ascom DPE/RS

 

Para a dirigente, os terreiros não podem ser compreendidos apenas como espaços religiosos. Eles também são territórios de formação, acolhimento, proteção social, alimentação, cura, educação comunitária, preservação ambiental e transmissão de saberes. “O terreiro reorganiza esses elementos em um território novo. Ele não é uma reprodução estática ou idealizada do continente africano. É uma construção afro-diaspórica produzida no encontro entre memória, resistência, ancestralidade e realidade brasileira”, explica.

Sandrali pontua que essa presença ganha significado especial em Pelotas, cidade marcada pela riqueza produzida pelo trabalho escravizado e por tentativas históricas de apagamento da presença negra. Para ela, quando os terreiros ocupam as ruas, realizam celebrações públicas e reivindicam reconhecimento, demonstram que a população negra não participou apenas da construção econômica da cidade, mas também da formação cultural, espiritual e comunitária de Pelotas.

“Tornar essa presença visível significa devolver à cidade uma parte de sua memória que foi sistematicamente silenciada”, resume.

A dirigente avalia que iniciativas como o assentamento de Bará no Mercado Público e as procissões realizadas na cidade ajudam a romper com séculos de invisibilização e reafirmam o direito das religiões de matriz africana de ocupar o espaço público em igualdade com outras tradições religiosas. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva: reconhecimento não pode significar transformação das tradições em espetáculo turístico, folclore ou atração cultural.

A coordenadora estadual do MNU defende que o reconhecimento institucional venha acompanhado de medidas concretas, como proteção aos terreiros, combate ao racismo religioso, formação de agentes públicos e participação efetiva dos povos de matriz africana na formulação das políticas públicas. “Reconhecimento simbólico sem proteção material ainda é um reconhecimento incompleto”, afirma Sandrali.

Racismo, educação e mulheres negras

Para Sandrali, as violências sofridas pelos povos de terreiro devem ser nomeadas corretamente.

“Devemos chamar essas violências pelo nome correto: racismo religioso. Não estamos diante apenas de divergências entre crenças. Estamos diante de um sistema que inferioriza tudo aquilo que está relacionado à África, à população negra e às suas formas de produzir conhecimento e espiritualidade”, enfatiza.

Na avaliação de Sandrali, esse racismo também está ligado às narrativas que historicamente buscaram invisibilizar a presença negra no sul do estado. Por isso, fortalecer os terreiros significa também disputar memória, identidade e pertencimento.

 

Festa de Iemanjá no Balneário dos Prazeres, em Pelotas, reúne multidão e mostra a força das religiões de matriz africana | Crédito: Michel Corvello / Ascom Prefeitura de Pelotas

 

Entre os caminhos para enfrentar essa realidade, ela destaca a importância da educação e da implementação efetiva do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Também ressalta o papel das mulheres negras na sustentação das comunidades tradicionais, muitas delas fundadas, protegidas e mantidas por mulheres que preservam fundamentos, transmitem saberes e garantem a continuidade material e espiritual dos terreiros. “Não basta convidá-las para realizar uma bênção na abertura de um evento. É necessário ouvi-las na construção das políticas, reconhecer seus conhecimentos e garantir condições para a manutenção de suas comunidades”, defende.

Ao refletir sobre a trajetória dos povos de terreiro em Pelotas, Sandrali resume o significado dessa presença histórica: “Os terreiros não estão à margem da história de Pelotas. Eles são parte constitutiva dessa história.”

 

 


Esta matéria é parte das ações do Projeto “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”, executado em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. O apoio se dá conforme o Termo de Fomento nº 973281, correspondente à Meta 6 (Produção de Matérias escritas para mídias digitais).

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