Seminário Estadual da Vida Religiosa Consagrada, Inserida e Solidária aprova Carta Aberta

4 de setembro de 2018

Íntegra da Carta:

 

CARTA DO SEMINÁRIO ESTADUAL

“Se calarem a voz dos profetas, as pedras clamarão. (cf. Lc 19,40)
Nós, Vida Religiosa Consagrada Inserida e Solidária, reunidas em Seminário Estadual dos dias 31/08 a 02/09/2018, com o tema: Projeto Sócio-Político de Inclusão e Libertação, utilizando a metodologia Ver – Julgar – Agir, fizemos uma retomada da história do Brasil, com nuances da realidade global. Para conduzir os estudos, reflexões e debates, contamos com a presença de Eliane Moura Martins, Frei Sérgio Görgen, Frei Wilson Dallagnol e a enriquecedora participação do grupo.

A reflexão iniciou a partir das angústias expressas pelo grupo diante da realidade atual: pobreza crescente, insegurança, medo, impotência, violência, fome, mentira, depressão, intolerância, lutas e organização. Estas angústias foram situadas em um contexto histórico, a partir da ótica dos empobrecidos.

Vimos que, desde a sua colonização, o Brasil se constituiu como uma “empresa”, e não como uma nação, tendo constantemente suas riquezas “saqueadas” para o exterior. Criou-se a cultura de que tudo o que vem de fora é melhor, dificultando a construção de nossa identidade como nação. No início do processo civilizatório, a ideia de que “índio não tem alma”, negro é mercadoria e de que ser pobre é vontade de Deus, justificava essa opressão.

Percebemos que ao longo da nossa história, nunca conseguimos nos libertar deste sistema capitalista de exploração de nossas riquezas. Com a era Vargas, criaram-se expectativas de direitos mínimos, o que se arrasta ao longo dos anos. As pequenas conquistas das lutas dos trabalhadores não resultaram na concretização de políticas públicas realmente sérias e um Governo comprometido com a causa da construção de uma nação própria, que assegure vida digna para seu povo.

Durante a implantação do imperialismo neoliberal, no governo Fernando Henrique Cardoso, sob o capitalismo financeiro, aconteceram as privatizações, a implantação do Estado mínimo.

No Governo Popular, houve avanço de políticas públicas, crescimento da economia, distribuição de renda. Porém não ocorreram mudanças estruturais. Para que essas mudanças acontecessem seriam necessários organização, formação e luta, tendo como horizonte o projeto popular.

Com o golpe de 2016, legitimado pelo Poder Judiciário, sofremos o desmonte das políticas públicas, fortalecendo o sistema neoliberal. Estamos imersos numa profunda crise econômica, civilizatória, ética e democrática. Crise difícil em que “o velho não morre e o novo não nasce”.

Todo este cenário foi iluminado com a experiência do profeta Jeremias que, em meio aos sofrimentos da nação israelita, denuncia as injustiças causadas pelos que detém o poder, em conchavo com o Império. O profeta clama ao Senhor por justiça para o povo!

Esta realidade humana de opressão é algo que toca profundamente o coração de Deus, que toma partido dos oprimidos. Jesus, o Filho amado, se encarna no seio da humanidade, sob a condição de pobre, mergulha em sua vida e se identifica com ele. Sua relação com os pobres não é de solidariedade, mas de identidade. É o grau mais radical de encarnação.

Em fidelidade a Jesus de Nazaré e ao Projeto de vida de Jesus, que é o Projeto do Reino do Pai, não se compreende uma Vida Religiosa Consagrada, sem uma identificação e um compromisso sério com os pobres. Este engajamento inevitavelmente passa pela construção de um projeto popular de nação, em que haja vida em abundância. (cf.Jo 10,10).

Percebemos que, neste momento, precisamos ter a SABEDORIA de discernir os projetos em disputa e, profeticamente nos engajar, sem perder a esperança. A hora é agora!

Porto Alegre, 02 de setembro de 2018