Sementes Crioulas em destaque no município de Rio Grande

6 de outubro de 2018

Localizado no extremo sul do RS, o município de Rio Grande sediou no dia 26 de setembro de 2018 a 2ª Mostra de Sementes Crioulas, concomitante à Feira da Agrobiodiversidade, Sabores, Usos e Soberania Alimentar. A atividade foi realizada na Vila da Quinta, junto a sede do CTG Raphael Pinto Bandeira, contando com exposição de sementes, mudas, produtos e artesanato de origem camponesa e indígena. Durante a programação também foram realizadas palestras abordando temas relativos as sementes crioulas, a agrobiodiversidade e o papel das famílias no cuidado com os saberes tradicionais e a soberania genética representada através do legado das sementes. Participaram do evento agricultores e agricultoras camponesas da região, assim como alunos de várias escolas de Rio Grande, São Lourenço, Canguçu e pesquisadores da Embrapa Pelotas. Também estiveram presentes acadêmicos de Agroecologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e da Universidade Federal de Rio Grande (FURG).

 

Conforme Irajá Antunes Ferreira, da Embrapa Clima Temperado, “as sementes crioulas possuem um grande valor, tanto pelas diferentes formas e cores que possuem e de serem consumidas, mas também pela sua riqueza nutricional e funcional, que pode contribuir para uma dieta mais rica e, consequentemente, mais saudável”. Para o pesquisador, que é doutor em genética e melhoramento de plantas, as sementes crioulas são produto do trabalho e da inteligência dos agricultores, levando consigo uma rica herança cultural, que se transmite aos seus filhos e a outras gerações com as quais convivem. “Portanto os agricultores que mantém as variedades crioulas, conhecidos como guardiões de sementes, precisam ser reconhecidos e apoiados pela sociedade porque são eles os grandes responsáveis pelos alimentos que são hoje em dia produzidos, mesmo aqueles oriundos da indústria de sementes, que em um dado momento usaram as variedades crioulas para desenvolver as variedades comerciais que hoje vendem”, concluiu.

 

A tradição representada pelos guardiões das sementes, da agrobiodiversidade e e ervas medicinais é apoiada pela Prefeitura Municipal de Rio Grande. Conforme o secretário-adjunto da secretaria da Agricultura, Cladenir Vergara, um projeto de patrimonialização está em andamento: “Estamos realizando junto com a FURG um processo elencando espécies que vão se tornar patrimônio imaterial do município, exatamente por serem centenárias, como o milho, o feijão, uma espécie de ervilha (nanica), batata roxa (indígena) e variedades de feijões portugueses (como o feijão da praia)”, enumerou. A agricultora aposentada Donatilia Martins, da localidade de Povo Novo, levou ao evento suas sementes crioulas, destacando o milho branco, que há anos foi trazido do município de Tavares pelos seus pais, e que ainda hoje é plantado pela família. Com orgulho, a camponesa apresentou sementes de pimenta-malagueta, feijão sopinha, milho doce, sementes de feijão Manoel João(carioquinha), abóbora, moganga e a fruta exótica Fisalis. “Acho muito importante essa questão da preservação das sementes e do resgate das sementes crioulas”, destacou Donatilia, enaltecendo a importância da troca de sementes e saberes populares entre os participantes.

 

 

Marciane Fischer

Instituto Cultural Padre Josimo | Rede Soberania