Notícia

Romaria da Terra transforma memória de Frei Sérgio em compromisso coletivo

Cerca de 5 mil pessoas participaram da 48ª Romaria da Terra no Santuário do Caaró, em Caibaté-RS

 

A 48ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, realizada em 17 de fevereiro de 2026, terça-feira de Carnaval, no Santuário Diocesano do Caaró, em Caibaté (RS), reuniu cerca de 5 mil pessoas e ficou marcada não apenas por integrar as celebrações dos 400 anos da evangelização missioneira, mas por se tornar um grande tributo público à vida e ao legado de Frei Sérgio Antônio Görgen. Com o tema “400 anos de Evangelização Missioneira: Terra Sem Males e Ecologia Integral” e o lema “Eu vi um novo Céu e uma nova Terra” (Ap 21,1), a Romaria articulou fé, memória histórica e compromisso socioambiental. Mas, ao longo de toda a programação, a presença de Frei Sérgio — falecido em 3 de fevereiro deste ano — foi constante, visível e profundamente sentida.

 

O hábito que caminhou com o povo

Um dos gestos mais simbólicos da Romaria foi a condução do hábito franciscano utilizado por Frei Sérgio durante a caminhada pelo bosque do Santuário. Conduzido entre as cruzes – da Romaria e das Missões – , em meio a símbolos indígenas e faixas dos movimentos sociais, o hábito levado pelo jornalista Marcos Antonio Corbari, que conviveu com Frei Sérgio nos últimos 8 anos, tornou-se sinal concreto de que sua missão permanece viva.

Ao longo do trajeto, banners conduzidos por amigos e companheiros de fé e luta recordavam passagens marcantes de sua trajetória: a defesa da agricultura camponesa e familiar, o apoio firme à reforma agrária, o compromisso com povos originários e comunidades tradicionais, bem como sua atuação histórica nas Romarias da Terra. A cada parada, seu nome era lembrado não como saudade distante, mas como convocação à continuidade.

A própria escolha do território missioneiro para sediar esta edição nasceu de sua insistência. Como recordou o padre Anderson Rabêlo Costa, SJ, reitor do Santuário do Caaró, a proposta partiu da inquietação de Frei Sérgio diante da necessidade de revisitar criticamente a história das Missões Jesuítico-Guarani. “Ele dizia que não podíamos falar de terra sem falar do que aconteceu aqui. Essa romaria também é fruto da insistência dele”, afirmou o jesuíta.

 

Condução do hábito de Frei Sérgio no trajeto da Romaria foi executada pelo jornalista e militante do MPA, Marcos Corbari

 

Quatro paradas, uma memória viva

A caminhada central da Romaria foi organizada em quatro paradas pedagógicas e espirituais, articulando memória histórica e desafios atuais.

A primeira estação foi dedicada à Mãe Terra e aos povos indígenas, reconhecendo que o território missioneiro já era habitado muito antes da chegada dos europeus. O pedido de perdão aos Guarani, repetido ao longo da programação, marcou profundamente o encontro. “A gente não pode celebrar 400 anos sem olhar para as dores que marcaram esse processo”, afirmou padre Anderson. “A terra sem males e o Reino de Deus não se constroem sem justiça.”

A segunda parada refletiu sobre a água como direito do povo. Realizada nas proximidades da fonte sagrada, abençoada pelos Santos Mártires que ali viveram, serviu também de cenário para equipes do Instituto Cultural Padre Josimo relembrar dos projetos mais recentes defendidos por Frei Sérgio: proteção de nascentes e construção de cisternas na região Sul do RS, onde o acesso a água potável tem sido um desafio de sobrevivência para o povo que vive nos campos.

A terceira, inspirada na espiritualidade franciscana e na ecologia integral, evocou São Francisco de Assis — em sintonia com o Ano Jubilar pelos 800 anos de sua morte — e foi também um momento especial de recordação da trajetória de Frei Sérgio, destacando sua coerência entre fé, defesa da terra e compromisso com os pobres. A benção franciscana, proferida pelo bispo de Bagé, Dom Frei Celonir Dal Bosco, entre a imagem de Francisco e a presença do hábito de Sérgio, emocionou aos presentes. 

A quarta estação apontou para o futuro, convocando à continuidade da resistência indígena e camponesa diante das mudanças climáticas e da concentração fundiária, culminando um percurso que foi percorrido em cerca de uma hora, apresentando símbolos religiosos e elementos da espiritualidade indígena foram conduzidos pelos participantes, compondo um gesto coletivo de reconciliação e responsabilidade histórica.

 

Marcelo Bernal (D) anunciou a criação do Instituto Frei Sérgio, que vai cuidar da preservação da obra, memória e projetos do franciscano

 

Depoimentos que emocionaram

Entre os momentos mais comoventes estiveram os depoimentos sobre a vida do frade.

O capuchinho frei Wilson Zanatta, que conviveu por mais de 30 anos com Frei Sérgio, recordou o irmão de comunidade, o homem simples e coerente, fiel ao carisma franciscano. Destacou sua espiritualidade encarnada, sua capacidade de unir reflexão teológica e ação concreta e sua dedicação incansável aos camponeses e povos originários. Mais que militante, disse, Frei Sérgio era um irmão profundamente evangélico, cuja radicalidade nascia da oração e do compromisso com os últimos.

Também o engenheiro florestal Marcelo Bernal sublinhou o impacto de sua trajetória. Ao final da Romaria, anunciou a criação do Instituto Frei Sérgio, iniciativa que terá como missão cuidar, preservar e difundir sua obra e memória. O anúncio foi recebido com aplausos e emoção, entendido como passo concreto para que seu pensamento e sua prática sigam iluminando as lutas sociais e ambientais no estado.

A Romaria foi marcada ainda por forte conteúdo de reparação histórica. O pedido de perdão aos povos Guarani ecoou nas falas de lideranças religiosas e indígenas. O cacique Eloir Oliveira lembrou que antes do período missioneiro havia dezenas de milhares de indígenas na região; hoje são pouco mais de quatro mil no estado. “Isso não é um dado qualquer, é resultado de extermínio”, afirmou.

Para Roberto Antônio Liebgott, do Cimi Sul, a memória precisa se traduzir em ações concretas, especialmente na demarcação de territórios e no reconhecimento de direitos.

Dom Liro Vendelino Meurer destacou que pedir perdão é passo necessário: “A reconciliação só é possível quando há verdade.” Já lideranças políticas como Olívio Dutra e Edegar Pretto relacionaram a experiência missioneira e a crise ambiental atual à necessidade de um novo modelo de desenvolvimento, baseado na cooperação, sustentabilidade e justiça social.

A Carta da 48ª Romaria da Terra reafirmou esse caráter espiritual e político, denunciando injustiças históricas contra povos indígenas, quilombolas e camponeses, defendendo reforma agrária, demarcação de territórios, agroecologia, proteção das águas e reflorestamento com espécies nativas. O documento criticou o avanço de empreendimentos considerados predatórios e reafirmou o compromisso com a democracia e os direitos dos povos dos campos, das águas e das florestas.

 

Um legado que floresce

Durante a tarde, além das manifestações culturais e da leitura da Carta, foi realizado o plantio de uma árvore em homenagem a Frei Sérgio no Santuário do Caaró — gesto que sintetizou o espírito da jornada: memória que cria raízes e aponta para o futuro.

Na bênção final, mais de duas mil mudas de espécies nativas foram distribuídas aos romeiros como sinal concreto de compromisso com a criação. Ao final, lideranças da Diocese de Osório receberam a cruz e o Círio da Romaria, anunciando a próxima edição.

Mas, para muitos dos que participaram, o símbolo mais forte deste ano não foi apenas o jubileu missioneiro nem o pedido de perdão histórico. Foi a certeza de que a vida de Frei Sérgio segue germinando. Na terra marcada por martírio e resistência, a Romaria transformou luto em compromisso — e fez da memória de Frei Sérgio não um ponto final, mas uma semente lançada novamente ao chão missioneiro.

 

Frei Sérgio durante a 47a. Romaria da Terra do RS, em que exerceu forte protagonismo na organização, em Arroio do Meio, RS.

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