Região Celeiro e Missões recebeu atividades de formação e partilha de saberes com Frei Wilson Zanatta

4 de maio de 2019

Atividades partiram de assuntos como a sabedoria popular, as ervas medicinais e a alimentação natural, chegando até a temas espinhosos como o abuso dos venenos agrícolas e as epidemias que assombram a humanidade na contemporaneidade

 

Público escolar participando da atividade em Redentora (Foto: ICPJ)

O pesquisador popular e entusiasta das Ervas Medicinais, Frei Wilson Zanatta, esteve em roteiro na última semana percorrendo a região Celeiro e Missões. As atividades – derivadas do projeto Ervas Medicinais do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) – voltadas à formação e partilha de saberes tradicionais e populares envolveram camponeses e camponesas da base do movimento dos Pequenos Agricultores, grupos de mulheres, estudantes, professores e também indígenas.

 

A primeira atividade do roteiro aconteceu na terça-feira, 23, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Três Passos. Na quarta, 24, seguiu para Redentora, onde realizou palestra e formação na escola Américo dos Santos, na vila São João, para duas turmas formadas por alunos, professores, pais e camponeses.  Ainda em Redentora, Frei Zanatta visitou as áreas indígenas Gengibre e Capoeira dos Amaros, onde conversou e trocou informações sobre plantas medicinais e saberes tradicionais com famílias da etnia Guarani. O roteiro encerrou em Palmeira das Missões, com atividade realizada na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde foram recebidos ainda grupos de Cerro Grande e Sagrada Família. No total, as atividades alcançaram um público de aproximadamente 200 pessoas.

 

Parte do grupo de participantes da atividade em Três Passos (Foto: ICPJ)

– A sabedoria popular precisa ser compartilhada pois só assim vai se perpetuar e passar de uma geração à outra, todos temos algo a ensinar e algo a aprender -, comentou Zanatta, que já publicou três livros referenciais sobre o assunto. “Quando perdemos uma pessoa que se dedicou a aprender e entender as tradições, os remédios e as curas pela natureza e não compartilhou esses saberes, é como se perdêssemos uma biblioteca inteira, por isso precisamos intensificar esses momentos de troca, tentar sistematizar ao máximo os conhecimentos, principalmente dos mais velhos e das comunidades tradicionais”, acrescentou. Outro aspecto que tem pautado as atividades desenvolvidas pelo frei capuchinho é em relação à vida do solo: “precisamos compreender que se a terra está doente, o ser humano também adoece”, destacando que iniciativas como a adubação orgânica, a remineralização do solo com pó de rocha, e a utilização de biofertilizantes nos cultivos são elementos decisivos para que se complete os elos que interligam a alimentação e a saúde.

 

O membro da coordenação do MPA na região, Plínio Simas, destacou a importância do curso realizado na sede da entidade, frisando o momento em que se proporcionou o encontro entre os saberes populares e a ciência, pois no mesmo espaço estavam presentes camponeses e camponesas, representantes da terceira idade e benzedeiras, ao lado de profissionais da saúde pública, professores e alunos da universidade e gestores públicos. “A diversidade de conhecimentos que se pôde compartilhar foi muito ampla, envolvendo níveis diferenciados e áreas de conhecimento diferenciadas em um encontro de alto nível”, expressou. O método do trabalho, baseado no diálogo constante e na mescla dos elementos teóricos e práticos também foi elogiada pelos participantes.  “Essa atividade ajuda a concretizar o projeto do MPA e nos desafia a executar essa grande tarefa, debatendo com a comunidade e construindo conhecimento popular” concluiu.

 

Público presente na atividade em Palmeira das Missões (foto: ICPJ)

Erenita Lucia Adamy, uma das coordenadoras do grupo de mulheres do Sindicato dos Trabalhadores rurais de Três Passos considerou a atividade positiva e ressaltou que todas e todos que tiveram oportunidade de participar manifestaram interesse em dar continuidade. “Foi muito importante construir esse momento de resgate a respeito das plantas medicinais e dos saberes tradicionais, vem ao encontro de um projeto que temos de construir hortos nos 13 municípios que compõem nossa regional sindical e assim incentivar que cada família desenvolva novamente o costume de ter suas ervas, seus chás, suas plantas em casa também”, comentou.  

 

Ivonildo Vieira, dirigente do MPA na região Celeiro, destacou que a presença do Frei Zanatta além de viabilizar o momento de troca de saberes sobre saúde popular, também renovou o ânimo da militância camponesa neste momento onde tantos retrocessos estão atingindo a classe: “Tendo em vista a difícil conjuntura que estamos passando,quando o camponês está fazendo de tudo para não ter que abandonar a roça e ir vender a força de trabalho fora, as palavras do Frei Zanatta nos despertam para uma necessária indignação individual e coletiva, chamando cada um a assumir a sua parte na tarefa de resistência em defesa de tudo que acreditamos, do nosso modo de vida, da comida sem veneno, da saúde sem químicos, do sentido do coletivo sem exploração de um pelo outro”.

 

Além dos diálogos, o envolvimento prático dos presentes na preparação de remédios caseiros foi um destaque nas atividades (foto: ICPJ)

Os livros de Frei Zanatta – “Ervas Medicinais”, “Tenha Uma Farmácia Em Casa” e “O poder curativo da Guaçatonga” – são comercializados pela loja virtual do Instituto Cultural Padre Josimo (https://padrejosimo.com.br/loja/) e presencialmente nas atividades de formação que desenvolve, assim como nas coordenações regionais do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Os valores arrecadados são integralmente investidos nos projetos sociais e educacionais do ICPJ, sem fins lucrativos.

 

 

Marcos Corbari – Jornalista

ICPJ | MPA | BdF/RS | Rede Soberania