Realizado em Santa Maria a 19ª Edição do Curso Oscar Romero

9 de janeiro de 2019

Por Michele Corrêa*

“A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim a Igreja encontra sua missão”.

Dom Oscar Romero

 

Foto: Michele Corrêa

O curso Oscar Romero ocorre anualmente, sempre entre a primeira e a segunda semana de janeiro, inspirado na vida e missão do Santo Dom Oscar Arnulfo Romero, canonizado em 14 de outubro de 2018. Oscar Romero foi arcebispo de San Salvador capital de El Salvador na América Central, tendo sido assassinado enquanto celebrava missa, a mando da junta militar que governava aquele país, em 24 de março de 1980, por defender os pobres. Ele foi morto “por ódio à fé e ao testemunho profético em oposição a opressão militar” que dominava El Salvador. Romero era uma das poucas vozes de resistência ao regime militar naquele país, dentro da igreja, e recebia muitas ameaças por conta da sua atuação crítica e engajada com a sociedade.

Nasceu em Ciudad Barrios (El Salvador), em 1917. Entrou no Seminário em El Salvador, estudou na Itália e Foi ordenado sacerdote em 1942, regressou a El Salvador onde assume uma paróquia do interior, antes de ser transferido para a Catedral de San Miguel. Em 1970 é nomeado bispo auxiliar de San Salvador e, em 1974, Paulo VI o designa bispo da Diocese de Santiago de Maria, no meio de um contexto político de forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas.

Em 1977, D. Óscar Romero é nomeado arcebispo de San Salvador; pouco tempo depois, é assassinado o padre jesuíta Rutílio Grande. Este foi o momento de sua conversão. Romero passa então a denunciar a repressão, a violência do Estado e a exploração imposta ao povo pela aliança entre os setores político-militares e econômicos, apoiada pelos EUA, bem como a violência da guerrilha revolucionária.

Na homília do Sábado de Aleluia, (1979), Dom Romero afirmava: “Graças a Deus, temos páginas do martírio não somente na história do passado, como também na hora presente. Há sacerdotes, religiosos, catequistas, homens humildes do campo assassinados e massacrados que tiveram seus rostos desfeitos e esmagados, foram perseguidos por serem fiéis ao único Deus e Senhor”. E acrescentava: “Tenho sido frequentemente ameaçado de morte. Devo dizer-lhes que como cristão não creio na morte sem ressurreição. Se me matam, ressuscitarei no meu povo salvadorenho. Digo isso sem orgulho, com a maior humildade… Como pastor, estou obrigado a dar a vida por quem amo, que são todos os salvadorenhos, como também aqueles que vão me matar. Se chegarem a cumprir as ameaças, desde agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição de El Salvador”.

Inspirados na vida, missão e espiritualidade de São Oscar Romero, estiveram reunidos durante os dias 04 a 08 de janeiro, em Santa Maria, no Instituto Magnificat, agentes de pastorais, religiosos e religiosas, padres, leigos e leigas, da Igreja Católica e Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), para o 19º Curso Oscar Romero. O curso é promovido pela Equipe Arquidiocesana de Articulação da CEBs, a Faculdade Palotina (FAPAS) e a Equipe Colegiada de Coordenação Pastoral da Arquidiocese de Santa Maria.

A 19ª edição do Curso Oscar Romero contou com a assessoria da Pastora Luterana (IECLB) Romi Bencke, dialogando sobre “Violência, Ecumenismo, Gênero”. A pastora chamou a atenção para os tipos de violências que permeiam a sociedade, partindo de um resgate sócio histórico, apresentou exemplos de violências, especialmente contra as mulheres, presente na história, e não raramente, legitimado pelas estruturas patriarcais, machistas e sexistas sobre as quais a sociedade vem sendo edificada através dos séculos. Onde as violências não são somente físicas, podendo ser também simbólicas ou sistêmicas (ou ideológicas), sendo as violências simbólicas, as violências por meio da linguagem e as sistêmicas as que são provocadas por sistemas de exclusão. A pastora Romi é também secretária do CONIC (Conferência Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil), a partir de sua experiência junto as demais Igrejas Cristãs partilhou algumas de suas vivencias e como as Igrejas estão trabalhando ecumenicamente as temáticas de violência e gênero, nos auxiliando a refletir como podemos contribuir com esse diálogo na sociedade e em nossas comunidades religiosas.

A segunda assessoria do Curso foi a professora Rosemary Fernandes da Costa, abordando o tema “Juventudes e Espiritualidade Libertadora na linha de Dom Oscar Romero”, onde partilhou alguns momentos dos Encontros Nacionais de Espiritualidade Libertadora (2014 e 2017), indicando a riqueza presente nas diversas juventudes, em resposta a cultura do consumismo e a indústria do entretenimento que visa massificar e alienar a juventude. A partir das partilhas de diversas realidades de juventudes engajadas na construção de uma Civilização do Amor demonstradas nos testemunhos nos revela que a juventude, em suas palavras e gestos, faz profecia hoje. Somos hoje mais do que testemunhas dessa eclosão espiritual, social e política. Somos convocados à parceria solidária, ao exercício coletivo da cidadania, a aprendermos juntos novas formas de construção desse mundo que tanto desejamos, e que somos capazes de conquistar.

Esta vocação ecoa no coração da juventude atenta aos sinais dos tempos e ao desejo de vida plena que reside em cada coração e que é legítimo e inviolável. E aqui a juventude nos convoca, a todos os latino-americanos, a não apenas observarmos e diagnosticarmos, mas, a partir do discernimento espiritual e crítico, comunitário e propositivo, nos encarregarmos das estruturas humanas, ambientais, na direção do projeto do Reino de todos, de todas, de toda a Criação.

Para encerrar a 19ª edição do Curso o Teólogo e Monge Beneditino Marcelo Barros, refletiu a temática “Por uma espiritualidade sócio-política libertadora”, encerrando assim a método ver, julgar, agir e celebrar, onde começou com um panorama do resultado da eleição, onde afirma: “Quem mais votou no Bolsonaro foi o povo religioso… Disso podemos dizer que, para muitos, Deus pode ser a divinização do poder… pode ser a legitimação do domínio sobre o outro. Porém é preciso ter a confiança de que para muitos Deus é amor que subverte. É justiça que revoluciona. É fonte de vida”.

Barros falou sobre espiritualidade que não é espiritualismo, não é moralismo, não é legalismo, não é religião. Espiritualidade é a vida conduzida pelo espírito. Passa do egocentrismo ao etnocentrismo e finalmente ao cosmocentrismo. Deus se esconde e se revela, ele se esconde no universo que ele criou, encontramos Deus na natureza, nas pessoas, nos acontecimentos, nos sinais de amor. Encerrando o curso com o seguinte questionamento: “Em que Deus eu acredito? Em que Deus eu sou ateu? ”.

Referências:

http://www.falachico.org/2018/10/papa-canoniza-dom-oscar-romero.html

http://www.pom.org.br/sao-oscar-romero-bispo-e-martir/

 

*Graduanda em Filosofia na UFPel,

Assessora da Pastoral da Juventude (PJ) e

Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)