Padres emitem carta conjunta abordando a defesa da democracia e reafirmando a necessidade de uma cultura da paz

25 de outubro de 2018

Religiosos católicos são veementes em criticar os movimentos políticos conservadores que dão origem a um novo fascismo em todo o mundo e denunciam os riscos que a democracia brasileira corre a partir da escolha do eleitorado neste domingo

Um grupo formado por padres diocesanos e religiosos de diversas dioceses, congregações e institutos de vida consagrada de todo o Brasil, refletindo e se unindo a favor da democracia e dos valores evangélicos, publicou uma carta aberta dirigida à população brasileira nesta quinta-feira, 25. O documento, assinado inicialmente por mais de uma centena de padres e freis, deve contar com mais adesões nos próximos três dias, aborda de forma concreta o segundo turno da eleição presidencial.

– A fé cristã exige de nós uma firme postura diante do mal -, afirma o texto. “Os seguidores de Cristo não podem se permitir corromper por interesses, sejam eles ideológicos ou econômicos”, acrescenta. “Muito mais escandaloso, então, é a possibilidade de que os discípulos e discípulas de Jesus se permitam motivar pelo ódio contra as minorias, já tão esmagadas em nosso país”, completa.

Os eixos centrais que nortearam os debates, deram origem a um documento mais amplo, que foi encaminhado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao Vaticano, colocando em pauta o papel da Igreja Católica no processo de enfrentamento à ditadura (1964-1984) e na redemocratização, o contexto atual e o perigo para a democracia, bem como o questionamento a respeito de quais vozes proféticas tem se manifestado em nosso tempo.

Quanto às candidaturas de Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, embora não sejam citadas nominalmente, a opção dos religiosos é clara ao aconselhar em qual candidato um cristão não deve votar: “Deixar de lado a democracia para acolher e confiar num discurso de um candidato que possui uma fala extremamente excludente e marcada pela violência, é abandonar o Evangelho e colocar a esperança em falsos deuses”, apontam os religiosos em seu texto, pedindo ao povo que não abra mão “da democracia, que a duras penas resgatamos após um regime militar autoritário e ditatorial”.

Confira o documento na íntegra:

 

Carta Aberta

Brasil, 25 de outubro de 2018

Padres brasileiros e o grave momento político:

Uma palavra à luz da evangélica opção pela vida e a paz

Queridos irmãos e irmãs, somos um grupo de padres que teme pelo destino político que está sendo gestado para o Brasil. No corrente ano de 2018, depois de uma campanha marcada por mentiras, “Fake News”, e por manifestações claras de ódio e de indiferença quanto ao diálogo, nós queremos recordar ao povo que nos foi entregue, nossa firme convicção pelos valores evangélicos.

A fé cristã exige de nós uma firme postura diante do mal. Os seguidores de Cristo não podem se permitir corromper por interesses, sejam eles ideológicos ou econômicos. Muito mais escandaloso, então, é a possibilidade de que os discípulos e discípulas de Jesus se permitam motivar pelo ódio contra as minorias, já tão esmagadas em nosso país. Os pobres, sem teto, sem trabalho, sem o mínimo de dignidade humana são nossos senhores e sem eles, nenhum de nós poderá chegar à comunhão com Cristo (Mt 25,31-46).

As minorias são muitas nesse país marcado pela desigualdade: os negros e quilombolas que enfrentam o preconceito e a desigualdade de condições sociais; as comunidades indígenas que lutam para sobreviver; os grupos LGBTs tão perseguidos, desrespeitados e marginalizados; os imigrantes que buscam uma nova vida em nosso país; as mulheres que, ainda hoje são violentadas e ficam em cargos secundários na sociedade. Todos esses grupos, e outros que sofrem injustiça são expressão de Cristo crucificado entre nós.

Tendo em vista essas realidades, sabedores que somos da enorme crise ética pela qual passamos e pela desconfiança de grande parte da população em relação às instituições democráticas, pedimos ao nosso povo que não arrisque abrir mão da democracia, que a duras penas resgatamos após um regime militar autoritário e ditatorial. Deixar de lado a democracia para acolher e confiar num discurso de um candidato que possui uma fala extremamente excludente e marcada pela violência, é abandonar o Evangelho e colocar a esperança em falsos deuses.

A democracia brasileira é recente e precisa constantemente ser melhorada. Não esqueçamos que a democracia não é o regime político onde a maioria manda e as minorias se calam. Ou, em casos extremos, onde a maioria procura exterminar as minorias. A democracia é o sistema em que todos têm seus direitos e deveres assegurados, pois cada ser humano é reconhecido em sua dignidade.

Como servos do povo de Deus que não podem deixar morrer a voz profética da Igreja, pedimos ao nosso povo que não se permita manipular por ideologias totalitárias. Os cristãos são movidos pelos valores do Evangelho, são pobres de espírito, pacificadores, mansos de coração, têm fome e sede de justiça, são misericordiosos, são construtores da paz e, se preciso for, são perseguidos por defender esses valores que brotam do coração do Evangelho (Mt 5,1-11). Pedimos ao nosso povo que trabalhe pela paz e assegure a democracia que garante nossa liberdade, abrindo mãos das lógicas de violência e de todo e qualquer tipo de preconceito e de ódio.

Somos um grupo formado por padres diocesanos e religiosos de diversas dioceses, congregações e institutos de vida consagrada de todo o Brasil, refletindo e se unindo a favor da democracia e dos valores evangélicos.

 


Religiosos que subscrevem a carta, apoios recebidos até a manhã de 26/10/2018.

1. Fr. Alexandre Magno Cordeiro da Silva, ofm

2. Fr. João Fernandes Reinert. Diocese de Duque de Caxias

3. Fr. Jorge Skiavini – Diocese de Petrópolis

4. Fr. Luis Carlos Susin

5. Fr. Olavio Dotto – assessor Pastorais Sociais

6. Fr. Orestes Serra, ofm. Paróquia Sta Clara – Porto Alegre- RS

7. Fr. Sérgio Gorgen ofm.

8. Fr. Wellington, OFM

9. Pe, Domingos Rodrigues Lopes – Diocese de Bagé/RS – Em missão no Moçambique no Projeto CNBB Sul3

10. Pe, Elautério Conrado da Silva Junior- Diocese de Bagé

11. Pe. Adalberto Lumertz Borges…D. Pedro de Alcântara…RS

12. Pe. Adilson Zilio – Diocese de Caxias do Sul – RS

13. Pe. Adir Rodrigues – Diocese de Chapecó

14. Pe. Alberto Marques de Sousa, MI

15. Pe. Antonio Lopes de Lima – Diocese de Limoeiro Norte- CE

16. Pe. Antônio Luiz Marchioni (Padre Ticão) – Paróquia São Francisco de Assis. – Diocese de São Miguel Paulista. Região Leste da cidade de São Paulo

17. Pe. Badacer Ramos de Oliveira Neto – Diocese de Itabuna, Bahia.

18. Pe. Benedito Chaves Santos. C.Ss.R- Diocese de Macapá

19. Pe. Carlos Pacchin

20. Pe. Carlos Roberto Borges Júnior – Diocese de Goiás.

21. Pe. Cezar Menegat – Diocese de Erexim Rs

22. Pe. Cleber Pagliochi – Abelardo Luz – Diocese de Chapecó

23. Pe. Cleto Stulp – Diocese de Chapecó

24. Pe. Décio Valdevino Marques. Arq Maringá

25. Pe. Djavan da Silva Fermandes. Diocese de Limoeiro do Norte-ce

26. Pe. Edegar Barrozo – Pinheiro Machado – Diocese de Bagé

27. Pe. Edilberto Reis, da Diocese de Quixadá- CE

28. Pe. Edivandro Luiz Frare – Diocese de Chapecó

29. Pe. Edson Luiz Bataglin – Diocese de Osório

30. Pe. Eduardo Luis Haas – Diocese de Montenegro – RS

31. Pe. Elautério Conrado da Silva Junior- Diocese de Bagé

32. Pe. Ezael Juliatto – Reg.Ep. Brasilândia. Arquidiocese de São Paulo

33. Pe. Flávio Luiz Gonzaga dos Santos -CSSp. Superior do grupo Espiritanos da Amazônia.

34. Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues, Diocese de Mossoró-RN

35. Pe. Francisco de Aquino Júnior – Diocese de Limoeiro do Norte – CE

36. Pe. Gianfranco Graziola – Vice Coordenador Nacional da Pastoral Carcerária São Paulo

37. Pe. Gustavo – Diocese de Caxias

38. Pe. Itacir Brassiani msf, Superior provincial dos Missionários da Sagrada Família, Passo Fundo/RS

39. Pe. Itamar Antonio Belebom – Diocese de Chapecó

40. Pe. Ivam Macieski -Resposavel pelas obras sociais da Diocese de Joinville SC

41. Pe. Jaime Carlos Patias, conselheiro Geral IMC, Roma.

42. Pe. Jaime Schmitz. Pároco e da Pastoral do Povo de Rua. Diocese de São José dos Pinhais.

43. Pe. Jean Carlos Demboski, Diocese de Erexim-RS

44. Pe. Joao Carlos Pacchin. – Diocese de Osasco

45. Pe. Jolimar Márcio Lemos Silva, da diocese de Santa Cruz do Sul/RS. Assessor das CEBs.

46. Pe. Jorge Boran – CCJ São Paulo

47. Pe. José Cândido Cocaveli de Andrade – Prelazia de Tefé-Am – Diretor Adm. Instituto de Teologia (ITEPES)

48. Pe. José Domingos Bragheto Região Episcopal Brasilandia (Arquidiocese de São Paulo) Área Pastoral Nossa Senhora e Santana)

49. Pe. José Renato Back, da coordenação diocesana de pastoral da diocese de Santa Cruz do Sul/RS

50. Pe. Júlio Renato Lancellotti – São Paulo pastoral de rua

51. Pe. Kleython Cabral de Moura – Prelazia de Tefé-Am.

52. Pe. Lauro Lopes da Silva – Diocese de Araçatuba SP.

53. Pe. Leandro Lopes – Diocese de Bagé-RS

54. Pe. Leandro Luiz Ludwig – Paróquia São João Batista – Diocese de Montenegro

55. Pe. Leomar Antonio Montagna – Maringá – PR

56. Pe. Leonardo Lucian Dall Osto – Reitor do Seminário Maior São José – Diocese de Caxias do Sul/RS

57. Pe. Lotário José Niederle msf, Passo Fundo-RS

58. Pe. Lotário Thiel – Diocese de Chapecó

59. Pe. Luciano dos Santos – Diocese de Joinville – SC

60. Pe. Luciano Paulo Henkes Gattermann, da Diocese de Chapecó – SC, referencial da Pastoral Familiar.

61. Pe. Luizinho – Diocese de Afogados da Ingazeira – PE.

62. Pe. Magnos Giovani Hartmann – Diocese de Santo Ângelo – RS

63. Pe. Maicon Malacarne, da Comissão Nacional de Assessores da Pastoral da Juventude, diocese de Erexim/RS

64. Pe. Marcelo Francisco Marques, Santo Amaro- São Paulo- SP.

65. Pe. Marciano Guerra – Assessor do Setor Juventude / Diocese de Caxias do Sul, RS

66. Pe. Marco Antonio Cardoso da Silva – Arquidiocese de Manaus

67. Pe. Marcos Pereira Siqueira – Prelazia de Tefé-Am

68. Pe. Mário Geremia – Arquidiocese São Sebastião do RJ

69. Pe. Maurício da Silva Jardim – Arquidiocese de Porto Alegre/RS

70. Pe. Mauro Ferreira de N. Sra de Monte Serrate Cotia, Diocese de Osasco

71. Pe. Mauro Sérgio Rodrigues Maciel

72. Pe. Nerlan Souza Gama, Santo Amaro- São Paulo- SP – Igreja Católica Ortodoxa

73. Pe. Olindo Antônio Zanini. C.Ss.R- Diocese de Macapá

74. Pe. Omar dos Reis- Diocese de Osasco- Paróquia São Pedro Apóstolo- Carapicuíba-SP

75. Pe. Paulo Joanil da Silva, O.M.I.

76. Pe. Paulo Mayer – Diocese de Santa Cruz do Sul – RS

77. Pe. Raimundo Aristide da Silva Crl

78. Pe. Remi Gotardo Casagrande – Caxias do Sul/RS, Centro Diocesano de Pastoral

79. Pe. Reneu Zortea – Diocese de Chapecó

80. Pe. Roberto Ferreira Rodrigues – Diocese de Limoeiro do Norte-CE

81. Pe. Rodrigo Schüler de Souza – Diocese de Osório – RS

82. Pe. Rudinei Zorzo – Coordenador do serviço da evangelização da juventude – CNBB Sul 3.

83. Pe. Sebastião dos Reis Miranda – Paróquia Nossa Senhora Aparecida – Helena Maria.

84. Pe. Tacizio Pontel – Carlista – Hulha Negra RS.

85. Pe. Thomas James – Diocese de Quixada

86. Pe. Tiago Gomes – Diocese de Osório-RS

87. Pe. Valdemar Scatolin – Diocese de Chapecó

88. Pe. Valter Fiorentin – Diocese de Chapecó

89. Pe. Valter Girelli, Diocese de Erexim RS

90. Pe. Vilson schafer – Santo Antônio da Patrulha – Diocese de Osório-RS

91. Pe. Wander Torres – Arquidiocese de Mariana

92. Pe. Wellington Pain da Silva – Goiás Velho

93. Fr. Wilson Zanatta

94. Pe. Xavier Cutajar, Vigário da Paróquia N. Sra. Aparecida de Helena Maria, Osasco SP – Diocese de Osasco

95. Pe. Raimundo Aristide da Silva

96. Pe. Valdecir Mayer Molinari – Scalabriniano Manaus

97. Pe. Sérgio Barbosa do Amaral, Diocese São José dos Pinhais-PR

98. Pe. José Peixoto Alvez, Jaguaribe-CE – Diocese de Limoeiro do Norte

99. Pe. Benedito Ferraro, Assessor da Pastoral Operária, Arquidiocese de Campinas

100. Pe. Flávio Lazzarin, Comissão Pastoral da Terra, Diocese de Coroatá – MA

101. Pe. Edilberto Aparecido Brasil de Sá, Paróq. N.S. do Rosário. Serra Talhada-PE

102. Pe. Barbosa, Diocese de São Miguel Paulista – SP

103. Pe. Luiz Marques Ferreira, Paróquia São José, Ingazeira – PE

104. Pe. Otaviano Bezerra Santana Filho, Paróquia N.S. das Dores, Triunfo – PE

105. Dom Sílvio Guterres Dutra, Diocese de Vacaria – RS