O povo simples do Pampa dá exemplo de preservação da natureza

18 de julho de 2019

Comunidade, organizações, movimentos sociais, iniciativa privada e poder público trabalham de mãos dadas e viabilizam projetos que transformam a realidade de assentados da reforma agrária na região do Pampa gaúcho

 

Os acordes inconfundíveis do violão e a voz marcante de Antônio Gringo deram o tom do dia e fizeram acolhida para cerca de 500 pessoas que não se intimidaram com o frio, o vento ou a garoa que tomou conta do Pampa na terça-feira, 11 de junho. “Nas lutas da vida corremos o mundo, buscando razões que nos façam felizes e junto levamos esse amor profundo da terra que um dia foi berço e raízes”, interpreta ele, em trecho da canção “A terra nunca me deixou”, fazendo trilha sonora ideal para a manhã cinzenta, que não tardaria a tornar-se colorida por olhares e sorrisos de gentes que aprenderam desde muito cedo que o cotidiano é uma luta constante, seja contra um sistema que é opressor, contra um clima que pode ser inóspito ou contra a tristeza que por vezes bate à porta. Dessa luta diária, são desde antes vencedores, ali se postam sorridentes, cheios de lembranças e histórias para contar. O dia é de festa, de bandeira desfraldada, de mãos entrelaçadas e fartura a ser partilhada. Reúnem-se em um Seminário de Educação Ambiental, onde têm disposição de aprender e têm vez de ensinar, mas acima de tudo celebrar: “Tomara que eu sempre mantenha a consciência… zelar por valores que são culturais, sem nunca perder os rumos da querência, alicerçado nos meus ideais”, emenda o cantor, ainda na mesma canção.

 

Quando em meados de 2015 se constituiu a primeira relação de parceria entre o Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) e o empreendimento da Usina Termelétrica Miroel Wolowski (UTE Pampa Sul), os assentados da reforma agrária já estavam beirando as três décadas de chegada à região. Precisavam compreender a chegada do novo vizinho, um empreendimento gigante que se anunciava como um novo elo de desenvolvimento e transformação local e regional. Nascia ali uma série de realizações que partiriam do Programa de Educação Ambiental para Agricultura Familiar, construído em conjunto entre a Pampa Sul e o ICPJ. O primeiro passo foi a realização de um Diagnóstico Rural Participativo (DRP), que ofereceu subsídios de onde viria a se desenvolver o Programa de Educação Ambiental para a Agricultura Familiar, de onde derivariam eixos temáticos interligados ativamente ao cotidiano das comunidades abrangidas. Colocou-se em pauta a promoção da agroecologia e do desenvolvimento sustentável, por meio da vinculação da teoria e prática, com a adoção e estruturação de eixos temáticos identificados no DRP junto à agricultura familiar e camponesa.

O analista sócio-ambiental da UTE Pampa Sul, Fulgêncio de Amorim Duarte, mostrou-se extremamente satisfeito com os resultados que foram alcançados até ali. “Ao longo destes quatro anos muita coisa construímos juntos, a destacar cada um dos projetos dentro desse grande programa de educação ambiental que se desenvolveu dentro da vertente da agroecologia”. Agradecendo à parceria dos colegas de trabalho e da equipe que o acompanha, fez questão de compartilhar com cada um os indicativos altamente positivos que estavam sendo demonstrados e usou a analogia da semente para finalizar sua fala: “Nós estamos na fase da obra de finalização da construção, começando a fazer a passagem para a operação, encerrando a nossa parte do trabalho, mas podemos avaliar que o que nós construímos vai ficar e principalmente o que nós semeamos aqui vai continuar ainda por um bom tempo”, qualificando o desenvolvimento social, humano e a preservação ambiental como elementos tão importantes para a empresa quanto o viés positivo do desenvolvimento econômico que por consequência também promove em relação à região.

 – Esse é um dia de apresentação dos resultados de um projeto que somente teve esses ótimos resultados porque cada um de vocês se envolveu, pegou junto – falou o diretor do ICPJ, Frei Sérgio Görgen, dirigindo-se às pessoas da comunidade que estavam ali presentes. “Quando falamos de movimentos sociais, falamos de pessoas que constroem esses movimentos e esses são sim o grande sinal de esperança para o nosso país neste momento”, acrescentou. A respeito do outro lado da parceria, sobre a empresa, destacou o envolvimento dos técnicos que foram muito além de suas responsabilidades profissionais e demonstraram muita sensibilidade humana ao olhar para a realidade da região e das pessoas que ali constroem a história de suas vidas. “Esse tipo de sensibilidade permitiu que a gente desenvolvesse esse tipo de projeto que teve alguns focos como as sementes crioulas, as mudas nativas e frutíferas, plantas medicinais e a proteção de fontes e nascentes, entre outras atividades que integraram esse grande esforço coletivo”, destacando ainda as ações em apoio ao grupo de feirantes e à cadeia produtiva do leite que vem sendo desenvolvidos com vistas ao médio e longo prazo.

O espaço geográfico 30 anos antes era composto pela melancolia de grandes latifúndios improdutivos entre os municípios de Bagé (no território que hoje é Hulha Negra), Aceguá e Candiota já havia passado por uma profunda transformação a partir da chegada dos assentados – camponeses e camponesas dos quatro cantos do RS, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) – que deram tons coloridos à região com a diversidade produtiva e a força da agroecologia. Seria possível que essa gente, simples no trato e guerreira no jeito, poderia se irmanar com um empreendimento de alta tecnologia e de mãos dadas com seus agentes construir uma nova etapa em sua história? Quatro anos depois da aproximação entre as organizações, é possível afirmar que sim.

– Quando nós chegamos aqui há 30 anos atrás muita gente dizia que a gente não ia conseguir sobreviver, que essa terra não produzia nada e que a fome ia ser a nossa companheira dali pra frente – relembrou a assentada Arlete Bulcão Pinto, que esteve junto do primeiro grupo a chegar na região para povoar os assentamentos. “Mas com o tempo nós fomos aprendendo a lidar com esse solo diferente do que a gente estava acostumado, fomos conseguindo fazer nossas roças, plantar nossas sementes, e produzir comida que hoje sustenta nossas famílias e ajuda a alimentar a mesa de muita gente que nos criticava”, contou. “Nunca foi fácil, mas a gente nunca andou sozinho, sempre tivemos a presença de pessoas especiais que caminharam junto com a gente, que ajudaram a vencer as dificuldades, como está acontecendo hoje com o Instituto Padre Josimo e com a Pampa Sul, que com seus projetos estão ajudando a transformar ainda mais para melhor a vida de cada uma das famílias assentadas aqui na região do Pampa”, completou.

– A parceria do Instituto Cultural Padre Josimo e a Usina Pampa Sul é um destaque, um exemplo que deve ser seguido por outras localidade, regiões, até mesmo nações -, comenta o camponês Pedro Kunkel, guardião de sementes vinculado ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) que veio de Panambi para participar do seminário e contribuir na partilha de sementes, mudas e saberes. “A Mãe-Terra e a Irmã Água precisam que tenhamos mais responsabilidade em nossas ações, precisam que sejamos responsáveis em lhes dar contrapartidas assim como nos beneficiamos de suas potencialidades e possibilidades”, comentou o camponês, frisando que ações como as que estava presenciando ali representam exatamente o tipo de integração entre desenvolvimento humano e preservação do meio ambiente que os movimentos sociais tem se esforçado tanto para defender e propagar.

Hoje, é difícil passar por um lote (como os assentados chamam a unidade produtiva onde desenvolvem suas atividades) sem que ali esteja presente uma ação que não tenha passado pela parceria que foi se irmanando através da Pampa Sul, do ICPJ, do MST e das prefeituras municipais. Os eixos temáticos que envolveram o apoio à transição Agroecológica, ao desenvolvimento do manejo sustentável dos recursos hídricos e a proteção de fontes e nascentes, o resgate e disseminação do conhecimento popular sobre saúde natural/tradicional e plantas medicinais, assim como a promoção efetiva de educação socioambiental nas escolas dos Municípios são exemplos vivos do que se falou neste dia e do que escrevemos aqui. Como bem disseram os apresentadores do dia, Isnar Borges e Marciane Fisher, ninguém que esteve em contato com o projeto saiu sem levar algo consigo, assim como deixou para os outros um pouco de si: “Pode ter sido uma semente trocada, o saber a respeito de uma erva medicinal, a obra de recuperação de uma fonte, um conselho, um abraço”, comentaram os dois. “Certo mesmo é que um projeto assim, grande e bonito, serve para transformar a vida a nossa volta, para transformar o meio em que vivemos e para transformar a cada um de nós enquanto seres humanos que somos”, completaram.

 

Confira como foi esse dia especial nas imagens captadas pelo jornalista Marcelo Ferreira, do Brasil de Fato, publicadas em álbum na fanpage do ICPJ no Facebook (CLIQUE AQUI)

 

 


Protegendo as Águas do Pampa

Durante a atividade foi apresentado um vídeo-documentário contendo imagens e depoimentos do projeto “Protegendo as Águas do Pampa”.  Efetivado através de uma parceria entre a Usina Pampa Sul e o Instituto Cultural Padre Josimo, o projeto está voltado à identificação e proteção de fontes, vertentes e nascedouros de água na região do Bioma Pampa, tem suas ações particularmente centradas entre os assentamentos da reforma agrária localizados nos municípios de Hulha Negra, Aceguá e Candiota.  

Essa ação é considerada um destaque entre as diversas atividades levadas a cabo através da parceria que envolve ICPJ, Pampa Sul e os assentados da reforma agrária organizados através do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), contando ainda com a participação das prefeituras municipais e outras organizações locais e regionais.

“Em um espaço geográfico onde a natureza está sob risco constante e o clima já demonstra isso através de períodos severos de estiagem que tem se somado ao longo dos últimos anos, projetos como este e os demais que estão sendo implementados centram suas atividades na preservação ambiental e desenvolvimento social em seu entorno”, explica o diretor do ICPJ, Frei Sérgio Görgen. Especificamente através do projeto “Protegendo as Águas do Pampa” já se obteve como resultado a proteção de 60 fontes, nascentes e vertentes pelas equipes do ICPJ e pelos camponeses e camponesas, com o apoio da Pampa Sul.

Conheça mais sobre este projeto voltado à preservação dos recursos hídricos naturais da região assistindo ao vídeo no canal TV Josimo, no Youtube (CLIQUE AQUI)

 


Apresentações Culturais

A mística de abertura do seminário envolveu uma apresentação com alunos da Escola Estadual Chico Mendes acompanhados de camponeses e camponesas que foram beneficiados pelos projetos da parceria Pampa Sul/ICPJ. O grupo de danças tradicionais gaúchas da Escola Municipal Santa Izabel também esteve presente demonstrando as coreografias elaboradas por seu elenco. Para completar a alegria, dezenas de talentos locais e regionais apresentaram poemas e canções acompanhados de dois dos mais renomados intérpretes da cultura gaúcha: o cantor Antonio Gringo e o poeta Odilon Ramos.

– É sempre uma alegria estar entre o povo da reforma agrária, essa energia de coragem, luta e superação nos revigora para seguir em frente com a nossa luta também, com os compromissos de transformação social que devem nos mover como seres humanos que somos – comentou Gringo, que além de cantar muitos de seus sucessos, relembrou o cancioneiro dos movimentos sociais e não negou-se nem mesmo quando chamado à acompanhar ao violão apresentações de jovens que tem se destacado em festivais estudantis.

– Recebemos tanto carinho aqui que saímos revigorados, saímos daqui com a certeza de que podemos transformar o mundo – afirmou Odilon Ramos, que chegou a se emocionar quando assistiu ao jovem Luciano Martins Pereira, 12 anos, declamar o longo poema “Mateando com Sepé”. “Nessa hora vemos que os verdadeiros artistas não somos nós, são eles”, comentou com olhar marejado de emoção, após ver e ouvir seu poema “vivo”, na voz jovem do menino.

 


Lançamento de 2 livros

Duas publicações em livro editadas pelo ICPJ foram lançadas no dia, a começar pelo Frei Wilson Zanatta, que dedica-se há cerca de 15 anos à pesquisa e sistematização de conhecimento popular a respeito de ervas medicinais e remédios caseiros. Durante o seminário ele apresentou o primeiro volume de seu novo projeto: “Receitas Caseiras: Plantas medicinais para a saúde humana”, que em breve será complementado por outros dois volumes, um voltado à receitas para alimentação e outro à receitas para a agricultura, sempre privilegiando o aspecto prático dos saberes compartilhados, onde o leitor pode efetivamente realizar em seu cotidiano. A publicação também integra o Programa de Educação Ambiental para Agricultura Familiar.

A segunda obra é o “Manual prático de Criação Animal”, de autoria do médico veterinário Geonavi da Silva, que trabalha nos assentamentos da reforma agrária, atendendo as demandas das unidades produtivas camponesas. Em seu cotidiano identificou a necessidade de instrumentalizar auxiliares técnicos ao atendimento veterinário, a partir do que passou a sintetizar procedimentos e exemplificar métodos que deram origem à publicação, que visa atender tanto ao meio profissional, quanto ao próprio camponês que pretenda melhorar seu proceder quanto aos animais domésticos que fazem parte do seu cotidiano.

Cada família participante do projeto recebeu um exemplar de cada livro, bem como convidados e demais participantes do evento. As duas publicações podem ser adquiridas pela loja virtual do ICPJ (CLIQUE AQUI). Projetos ambientais, sociais e de saúde popular podem solicitar a participação dos autores para palestras e seminários através do telefone (55) 3281-4820 ou pelo email instituto@padrejosimo.com.br.

 


Texto: Marcos Antonio Corbari

Fotos: Marcelo Ferreira

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