O outro lado da terra do carv√£o: assentamentos do MST, agroecologia e vidas recuperadas

16 de fevereiro de 2018

Publicado originalmente em Sul21.

Viveiro de mudas de √°rvore nativas, no assentamento Conquista da Fronteira. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


Marco Weissheimer

A regi√£o de Candiota, munic√≠pio localizado na metade sul do Rio Grande do Sul, pr√≥ximo √† fronteira com o Uruguai, √© conhecida por abrigar a maior jazida de carv√£o do pa√≠s, com mais de 1 bilh√£o de toneladas do min√©rio. √Č a terra do carv√£o. Quem trafega hoje pela BR 293, na regi√£o de Seival, em Candiota, tem essa impress√£o refor√ßada ao se deparar com as imponentes obras de constru√ß√£o da Usina Termel√©trica Pampa Sul. No in√≠cio da manh√£ do dia 6 de fevereiro, centenas de funcion√°rios entravam no canteiro de obras para mais um dia de trabalho. Muitos deles, chineses. A presen√ßa da m√£o de obra e do capital chin√™s √© ilustrada por placas bil√≠ng√ľes (em portugu√™s e mandarim), bandeiras e outros materiais de sinaliza√ß√£o em torno da obra. Prevista para entrar em opera√ß√£o em 2019, a nova usina est√° sendo constru√≠da pelo grupo Engie (antiga Tractebel) com tecnologia da empresa chinesa SDEPCI.

No entanto, nem tudo √© carv√£o em Candiota e regi√£o. Do outro lado da BR 293, na mesma √°rea onde est√° sendo constru√≠da a Pampa Sul, um cen√°rio marcado por centenas de mudas de √°rvores nativas indica a exist√™ncia de outra matriz econ√īmica e modelo de produ√ß√£o na regi√£o, que n√£o tem a mesma fama da minera√ß√£o de carv√£o, mas vem construindo pr√°ticas agroecol√≥gicas e agroindustriais que buscam outro padr√£o de desenvolvimento. As mudas de √°rvores nativas s√£o produzidas pelos assentamentos de Reforma Agr√°ria, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que come√ßaram a ser implementados na regi√£o no final da d√©cada de 1980. O plantio das mudas faz parte do plano de compensa√ß√£o ambiental que a Engie tem que executar para minimizar o impacto das obras de constru√ß√£o da usina.

Obras da usina termelétrica Pampa Sul, que está sendo construída na região do Seival. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


Al√©m da produ√ß√£o de mudas de √°rvores nativas, o mundo dos assentamentos espalhados pelos territ√≥rios de Candiota, Hulha Negra e Acegu√° est√° associado √† produ√ß√£o de sementes agroecol√≥gicas, √† preserva√ß√£o de sementes crioulas, a agroind√ļstrias familiares, ao cultivo de plantas medicinais, √† produ√ß√£o de leite, milho, soja (incluindo um experimento com soja convencional, n√£o transg√™nica), entre outras culturas. Em meio a muitas precariedades de infra-estrutura, como estradas de ch√£o cobertas de pedregulhos, que prejudicam o escoamento da produ√ß√£o, e um cr√≠tico abastecimento de √°gua, √© um mundo que valoriza a cria√ß√£o e recupera√ß√£o de vidas e saberes tradicionais, materializando a abertura de novos caminhos para pessoas que tinham a vida marcada pela aus√™ncia de futuro.

Esse territ√≥rio encravado na ‚Äúterra do carv√£o‚ÄĚ abrange um total de 56 assentamentos que atingem um total de 47 mil hectares nos munic√≠pios de Candiota, Hulha Negra e Acegu√°. Ao todo, s√£o cerca de 1860 fam√≠lias assentadas, vindas, em sua maioria, da regi√£o norte do Rio Grande do Sul, que foi palco, desde 1979, de enfrentamentos motivados pela agenda da Reforma Agr√°ria. Os primeiros anos dos primeiros assentamentos foram vividos sob lonas e barracas, como nos acampamentos, sem energia el√©trica, moradias ou abastecimento de √°gua. As primeiras noites foram repletas de escurid√£o. Os primeiros dias, de incerteza sobre o futuro daquela empreitada. Quem visita a realidade desses assentamentos hoje dificilmente consegue vislumbrar o caminho que percorreram para chegar ao que existe hoje.

Bionatur produz entre 100 e 150 toneladas de sementes agroecológicas ao ano. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


Sementes agroecológicas para alimentos saudáveis

Um dos principais cart√Ķes de visita dos assentamentos do MST na regi√£o √© a Bionatur Sementes Agroecol√≥gicas que, em 2017, completou 20 anos de vida.¬†No final da d√©cada de 90, os assentados j√° vendiam sementes para grandes empresas privadas. Era uma √©poca de crise, conta Anderson Ardenchy, diretor administrativo da Bionatur, e a venda de sementes era um meio de sobreviv√™ncia. At√© que sofreram um calote por parte de algumas dessas empresas. ‚ÄúAl√©m do calote, as empresas exigiam que se colocasse muito veneno e o pessoal j√° n√£o estava muito de acordo com essa vis√£o. As doze fam√≠lias que estavam dedicadas √† produ√ß√£o de sementes se reuniram e decidiram criar a Bionatur. Ela come√ßou como um setor dentro da Cooperal, uma cooperativa produtora de leite, com o objetivo de produzir sementes agroecol√≥gicas. No in√≠cio, a produ√ß√£o era mais voltada para a alimenta√ß√£o mesmo. O que sobrava era entregue para a Bionatur‚ÄĚ.

Com o passar do tempo, relata ainda Anderson, foi aumentando o n√ļmero de fam√≠lias dedicadas √† produ√ß√£o de sementes agroecol√≥gicas e a Bionatur ganhou personalidade jur√≠dica ‚Äď a Cooperativa Agroecol√≥gica Nacional Terra e Vida (Conaterra) ‚Äď e uma sede pr√≥pria, em Candiota. Hoje, 200 fam√≠lias assentadas produzem em m√©dia 100 a 150 toneladas ao ano de aproximadamente 200 variedades de sementes varietais e crioulas no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. O cat√°logo de produ√ß√£o da Bionatur inclui variedades de sementes de alface, tomate cereja, salsa, cenoura, cebola, pimenta, berinjela, couve, mostarda, r√ļcula, melancia, ab√≥bora, moranga, mel√£o, abobrinha caseira, abobrinha redonda, couve br√≥colis, repolho, coentro e jil√≥, entre outras.

Anderson Ardenchy: Bionatur é uma trincheira de resistência. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


‚ÄúA Bionatur sempre foi vista como uma trincheira de resist√™ncia que h√° vinte anos vem se mantendo e desenvolvendo a produ√ß√£o agroecol√≥gica de sementes, para a produ√ß√£o de alimentos de qualidade e sem agrot√≥xicos. N√£o s√≥ se mantendo como crescendo. Estamos ampliando os nossos grupos de produ√ß√£o. Hoje, estamos em Hulha Negra, Candiota, Piratini, Pinheiro Machado, Cangu√ßu, entre outras regi√Ķes do Estado. H√° dois anos, temos grupos de produ√ß√£o tamb√©m no sul e no norte de Minas Gerais e, agora, estamos tentando expandir para Esp√≠rito Santo, Bahia e outros estados‚ÄĚ, relata Anderson.

A história de Olália

Além da simbologia de resistência e de construção de alternativas ao modelo de agricultura baseado no uso intensivo de agrotóxicos, os assentamentos também carregam histórias de vida recuperadas do abandono e da violência. Olália Fátima da Silva, a Cocota, como é conhecida desde os tempos de acampamento, é um exemplo disso. Na década de 1990, Olália participava dos movimentos de luta por moradia em Santa Maria. Ela ajudou a organizar uma grande ocupação urbana no município, numa área onde hoje há 5.800 famílias assentadas. Mas a luta social veio acompanhada de muita violência doméstica, fato que fez com que ela decidisse criar suas filhas sozinha.

‚ÄúMinha fam√≠lia sofreu muita viol√™ncia dom√©stica, minha m√£e, minhas irm√£s. Eu sempre via tamb√©m os homens b√™bados batendo nas vizinhas. Eu decidi viver sozinha e ter duas filhas. E tive duas filhas. Mas junto com a luta social, n√£o tem como controlar tudo. Eu trabalhava fora como empregada dom√©stica e ajudava a organizar as lutas dos movimentos sociais‚ÄĚ, relata.

Essa realidade come√ßou a mudar, conta Ol√°lia, quando ela conheceu Cedenir de Oliveira, uma das lideran√ßas do MST no Rio Grande do Sul. Ele convidou-a a ir para um acampamento do movimento e lutar por um peda√ßo de terra. ‚ÄúEu comecei a pensar, terra e casa, essa combina√ß√£o me soou bem no ouvido. Era tudo o que eu precisava. A minha filha mais velha j√° estava com 14 anos na √©poca e come√ßou a se envolver com o tr√°fico. Eu n√£o tinha tempo de ficar cuidando delas. Tinha que trabalhar para elas comer. O tr√°fico tamb√©m come√ßou a entrar na ocupa√ß√£o. At√© hoje, quem tem o poder nas periferias das grandes cidades √© o tr√°fico. Isso n√£o √© novidade pra ningu√©m. Neste momento, o companheiro Cedenir me convidou para ir para o Movimento Sem Terra. Um dia, eu olhei pra minha filha e disse: n√≥s vamos embora daqui‚ÄĚ.

Olália Fátima da Silva: A gente tem tudo isso que tu está vendo aqui. Pode parecer tão pouco, mas é muito. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


Em 1999, ela foi para um acampamento em Palmeira das Miss√Ķes e iniciou uma nova etapa em sua vida que culminou na conquista da terra e da casa no assentamento Conquista dos Cerros. ‚ÄúFoi um per√≠odo muito dif√≠cil. Eu quase me acabei, mas sou muito forte, sou negra. Quem ag√ľentou a senzala ag√ľenta o tranco e a luta. Uma m√£e √© uma leoa. Eu sa√≠ de l√° (de Santa Maria) por causa da minha filha‚ÄĚ. Ol√°lia lembra que, quando chegou no assentamento, em mar√ßo de 2001, iniciou outra batalha. ‚ÄúA estrada que vinha pra c√° era por dentro da mina, que est√° fechada hoje. A gente veio para c√° na carroceria de um caminh√£o. Eu estava gr√°vida do meu guri mais velho que, nasceu aqui, e depois de muita conversa o motorista me deixou ir na cabine. A√≠ come√ßou a parte boa da hist√≥ria. Na √©poca, Ol√≠vio (Dutra) era o governador e tinha todo um aparato da reforma agr√°ria. No primeiro dia que chegamos aqui tomamos um susto. Tinha uns 20 t√©cnicos trabalhando em projetos para o assentamento‚ÄĚ.

Hoje, ela celebra o que conquistou nesta caminhada. ‚ÄúA gente tem tudo isso que tu est√° vendo aqui. Pode parecer t√£o pouco, mas √© muito. √Č uma muita diferen√ßa muito grande ter tudo isso aqui l√° na favela e ter aqui. Quando eu morava na cidade, com o pouco sal√°rio que tinha, √†s vezes chegada do servi√ßo e n√£o tinha o que comer. Agora estou vivendo a posi√ß√£o contr√°ria. Fico permanentemente reclamando do excedente de alimenta√ß√£o que tem que jogar para os animais‚ÄĚ. Ol√°lia produz doces, molho de tomate, p√£es caseiros, queijo, sementes para a Bionatura, cultiva rosas, pimentas, hortali√ßas, morangos e feij√Ķes, entre outros cultivos. Al√©m de garantir uma fartura de alimento para a fam√≠lia, toda essa produ√ß√£o tamb√©m √© comercializada em feiras e entre os vizinhos do assentamento.

A aposta na diversificação

Amarildo: Cerca de 700 colmeias com uma produção de 10 a 15 toneladas de mel/ano. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


A história de Amarildo Antonio Zanovello remonta a 1989, ano em que foi assentado em Hulha Negra, após ficar um ano e nove meses em um acampamento. Em 2005, ele foi morar no assentamento Roça Nova, no lugar de uma família que decidiu ir embora. No final de 2005, a convite do MST, ele fez parte de uma brigada internacionalista e ficou dois anos na Venezuela. Em 2008, retornou para o assentamento, quando, além de produzir sementes para a Bionatur começou um projeto para a produção de mel. Hoje, a apicultura representa a principal fonte de renda da família.

‚ÄúTemos cerca de 700 colmeias com uma produ√ß√£o que varia de 10 a 15 toneladas de mel por ano. Esse ano, em fun√ß√£o do clima, temos uma expectativa muito maior, podendo a passar a casa das 20 toneladas‚ÄĚ. As abelhas, por meio da poliniza√ß√£o, tamb√©m desempenham um papel importante na produ√ß√£o de sementes. Muitas fam√≠lias que produzem sementes de hortali√ßas pedem abelhas em suas √°reas com o objetivo de aumentar a produ√ß√£o de sementes.

Amarildo destaca que a ‚Äúdiversifica√ß√£o‚ÄĚ √© uma das palavras-chave no sistema de produ√ß√£o dos assentamentos. ‚ÄúAl√©m do mel, que √© a nossa principal atividade, estamos investindo na cria√ß√£o de gado e ovelhas, no cultivo de frutas e come√ßamos a fazer alguma coisa de piscicultura. Essa √© uma quest√£o de seguran√ßa‚ÄĚ, assinala, lembrando o problema atual com o desaparecimento e morte de abelhas. ‚ÄúUm dos principais estrangulamentos que a apicultura enfrenta na regi√£o √© a invas√£o das lavouras de soja, com os agrot√≥xicos que as acompanham. Al√©m de matar as abelhas, os herbicidas destroem a florada nativa do Pampa. Isso acaba nos for√ßando a migrar para as florestas de eucalipto. O potencial para a produ√ß√£o de mel nos assentamentos era muito grande, mas ele caiu a partir da entrada da soja. Em 2013, perdemos mais de 50 colmeias mortas por inseticidas, alguns deles contrabandeados do Uruguai. Uma abelha contaminada com fipronil (um inseticida) acaba matando todo o enxame‚ÄĚ.

A produ√ß√£o de leite foi outra alavanca importante para os assentamentos da regi√£o, mas hoje enfrenta graves problemas, em fun√ß√£o da queda do pre√ßo, for√ßando muitas fam√≠lias a migrar para outras culturas, em especial a de soja. Esse fen√īmeno, diz Amarildo, est√° provocando um novo √™xodo rural dentro dos assentamentos. ‚ÄúO plantio de soja n√£o √© para pequeno agricultor. Ele exige uma tecnologia e uma estrutura muito pesada. Tem muita gente endividada, correndo riscos de perder suas terras. N√≥s temos outras alternativas, como a fruticultura, o mel e o pr√≥prio leite, que podemos potencializar. Aqui em Candiota n√≥s temos uma situa√ß√£o muito espec√≠fica por causa da minera√ß√£o. Tudo se volta para ela como a solu√ß√£o para a regi√£o, enquanto o campo tem um potencial muito grande que n√£o est√° sendo devidamente explorado. Quase cem por cento das hortali√ßas consumidas pela popula√ß√£o de Candiota v√™m de outras regi√Ķes. Estamos tentando fomentar esse debate no munic√≠pio‚ÄĚ.

‚ÄúEu n√£o dependo do carv√£o e vivo muito bem‚ÄĚ

Dirceu Dias: Eu n√£o dependo do carv√£o e vivo muito bem. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


Assentado h√° 21 anos, junto com sua esposa, Dirceu Dias recorda as dificuldades do in√≠cio, quando n√£o havia energia el√©trica nem estradas e destaca a import√Ęncia da diversifica√ß√£o de culturas. ‚ÄúTivemos quatro filhas e hoje temos energia el√©trica, estradas, √°gua encanada. A minha linha de produ√ß√£o √© na √°rea do leite, sementes (milho, feij√£o e soja) e um pouco tamb√©m no setor da carne. √Č preciso diversificar para garantir a sobreviv√™ncia e a nossa manuten√ß√£o no campo‚ÄĚ. A atual crise do leite s√≥ refor√ßa a exig√™ncia da diversifica√ß√£o. ‚Äú√Č uma situa√ß√£o angustiante essa do leite. √Č um trabalho √°rduo, onde n√£o tem feriado, dia santo, nem primeiro do ano nem Natal. √Äs seis horas da manh√£ temos que estar prontos para tirar o leite. Hoje, o litro de leite est√° sendo vendido a um valor entre 60 e 65 centavos. O pre√ßo-base de algumas cooperativas chega at√© 40 ou 45 centavos. Estamos pagando para produzir‚ÄĚ, afirma Dirceu.

Apesar desses problemas, ele aposta no potencial da produ√ß√£o diversificada dos assentamentos como uma nova matriz para o desenvolvimento da regi√£o. ‚ÄúA mina de carv√£o de Candiota traz uma riqueza, mas n√£o podemos viver s√≥ do carv√£o. √Č preciso diversificar e o poder p√ļblico tem que prestar mais aten√ß√£o na nossa regi√£o que √© muito rica. Eu n√£o dependo do carv√£o e vivo muito bem, obrigado, com qualidade de vida‚ÄĚ.

O leque de diversidade de culturas nos assentamentos de Candiota, Hulha Negra e Acegu√° incluem tamb√©m o cultivo de plantas medicinais e a preserva√ß√£o de sementes crioulas. Autor de livros como ‚ÄúErvas Medicinais: Rem√©dios e Receitas Caseiras da Sabedoria Camponesa‚ÄĚ e ‚ÄúTenha uma farm√°cia em sua casa‚ÄĚ, o Frei Wilson Zanatta √© n√£o s√≥ um pesquisador do tema, como um produtor dessas plantas. Al√©m disso, dedica-se tamb√©m a recolher receitas tradicionais que s√£o usadas h√° v√°rias gera√ß√Ķes para que elas n√£o caiam no esquecimento. Atr√°s da casa onde mora no assentamento Conquista da Fronteira, ele cultiva um horto com mais de 60 esp√©cies de plantas medicinais. A partir deste horto, s√£o distribu√≠das mudas de plantas e produzidos ch√°s, pomadas e tinturas.

Horto com mais de 60 espécies de plantas medicinais no assentamento Conquista da Fronteira. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


‚ÄúEu sempre gostei de trabalhar com rem√©dio caseiro. Isso vem desde casa. A minha m√£e gostava muito tamb√©m de rem√©dios caseiros. Quando viemos morar nesta regi√£o, percebi a necessidade de desenvolver um trabalho nesta √°rea. Eu participava de um programa de r√°dio, onde, no final, eu indicava uma receita. As comunidades come√ßaram a pedir essas receitas e para facilitar a distribui√ß√£o decidi fazer uma apostilha. Dessa apostilha surgiu o livro e do livro esse trabalho de produ√ß√£o de tinturas, ch√°s e pomadas‚ÄĚ.

Protagonismo das mulheres na agroind√ļstria

A demanda pr√≥pria da popula√ß√£o dos assentamentos e tamb√©m da merenda de escolas da regi√£o vem estimulando o florescimento de pequenas agroind√ļstrias que produzem p√£es, cucas, bolachas, biscoitos doces e salgados. Um desses projetos nasceu de um grupo de dezoito idosos de nove fam√≠lias que ganhou uma m√°quina para a produ√ß√£o de p√£es. ‚ÄúEra s√≥ para o nosso consumo no in√≠cio, mas come√ßou a surgir demanda de merenda escolar e outras coisas e resolvemos ir mais a fundo‚ÄĚ, conta Ivanir Ivete da Silva, uma das idealizadoras da Padaria dos Idosos. ‚ÄúConseguimos alguns casais mais novos para nos ajudar na empreitada e seguimos em frente. Hoje, vendemos nossos produtos nas casas dos assentamentos e o nosso objetivo √© atender tamb√©m a merenda escolar e os quarteis de Bag√©‚ÄĚ.

Eliziane C√Ęmara: N√£o troco esse lugar por nada do mundo. √Č um lugar muito bom de viver. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


Na mesma linha, Eliziane Outeiro C√Ęmara, moradora do assentamento Est√Ęncia Velha h√° 14 anos, criou a Cozinha da Tia Zane. A iniciativa, segundo ela, partiu de uma necessidade da pr√≥pria regi√£o e de uma ideia de meu filho.

‚ÄúComecei fazendo feira na cidade e fiquei sabendo da possibilidade de vender para a merenda escolar. Isso me incentivou bastante. Hoje, produzo p√£es, cucas, salgadinhos e v√°rias qualidades de bolacha. Comecei vendendo para os col√©gios e hoje os mercados j√° est√£o me procurando. Al√©m de Candiota, j√° cheguei a Bag√©, Acegu√° e Pinheiro Machado. O meu marido trabalhava pra fora como motorista e voltou pra me auxiliar. Eu trabalhava na bacia leiteira e na horta e tamb√©m tive que sair. Esqueci as vacas e fiquei s√≥ aqui. N√£o troco esse lugar por nada do mundo. √Č um lugar muito bom de viver‚ÄĚ.

A produção de mudas de árvores nativas

As mudas que estão sendo plantadas às margens da BR 293, dentro do plano de compensação ambiental da usina Pampa Sul, são cultivadas em um grande viveiro no assentamento Conquista da Fronteira, administrado pela Cooperativa de Produção e Trabalho, Integração Ltda (Coptil). Esse trabalho, relata Helmuth Griesang, que trabalha no viveiro, começa com a colheita das sementes de árvores como anjico, goiaba serrana, aroeira vermelha, entre outras. Ao todo, estima Helmuth, o viveiro cultiva mais de 35 espécies. Algumas delas, estão ameaçadas de extinção, como é o caso do araçá do prata, que está sendo resgatado no viveiro. O trabalho de produção das mudas dura entre seis e oito meses, até que elas estejam prontas para serem plantadas. Os planos para o futuro, anuncia, incluem o cultivo de mudas de árvores frutíferas, como cereja, pitanga e goiaba serrana, bem como de plantas ornamentais.

Assentamentos do MST, nestes √ļltimos anos, j√° produziram mais de um milh√£o de mudas de √°rvores nativas. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


A maior parte dessas mudas nativas est√£o sendo destinadas a processos de recupera√ß√£o de cobertura vegetal e de compensa√ß√£o ambiental. ‚ÄúNos √ļltimos dez anos, praticamente toda a nossa produ√ß√£o do viveiro ficou focada na produ√ß√£o de mudas nativas‚ÄĚ, explica Emerson Francisco Capelesso, gerente geral da Coptil. ‚ÄúTivemos um grande processo de recupera√ß√£o ambiental nos assentamentos, envolvendo cerca de mil hectares, al√©m do projeto em torno da usina da CGTEE, numa √°rea de mais de cem hectares. Agora, com a Pampa Sul, fechamos todo o processo de fornecimento de mudas. S√£o mais de cem hectares de √°rvores que est√£o sendo plantadas, envolvendo a produ√ß√£o de algo em torno de 250 e 260 mil mudas nativas do bioma Pampa e da bacia do rio Jaguar√£o. Nestes √ļltimos anos, j√° produzimos mais de um milh√£o de mudas de √°rvores. S√≥ nos √ļltimos dois anos, foram cerca de 250 mil mudas, s√≥ para a Pampa Sul‚ÄĚ.

Desafios para o futuro

O mercado de comercializa√ß√£o dos produtos dos assentamentos √© basicamente regional, mas os assentados tem planos para superar esse est√°gio. Emerson Capelesso aponta qual a estrat√©gia para atingir esse objetivo: ‚ÄúN√≥s j√° tivemos um processo de produ√ß√£o, mas enfrentamos problemas comerciais e log√≠sticos. Optamos por dar alguns passos atr√°s e organizar melhor a parte da ind√ļstria. Agora, com a parte industrial pronta, estamos retomando o processo produtivo. Bag√© √© um centro consumidor que tem potencial, mas o grande mercado consumidor √© mesmo Porto Alegre. Se a gente n√£o conseguir industrializar nossos produtos e fazer com que eles tenham uma durabilidade maior, acabamos tendo muitas dificuldades‚ÄĚ.

Emerson Capelesso: oferecemos um contraponto ao modelo do agronegócio. (Foto: Marco Weissheimer/Sul21)


Ele reconhece que o carv√£o √© uma riqueza importante da regi√£o, mas observa que ela n√£o pode ficar concentrada nas m√£os de um pequeno grupo. ‚ÄúEssa riqueza tem que descentralizar o desenvolvimento para toda a regi√£o preservando o meio ambiente. Al√©m da explora√ß√£o do carv√£o, que tem os seus impactos, temos o modelo agr√≠cola do agroneg√≥cio, com uso de agrot√≥xicos e transg√™nicos. N√≥s oferecemos um contraponto a esse modelo, com a produ√ß√£o org√Ęnica, recupera√ß√£o e preserva√ß√£o ambiental. A Cooperativa tem atuado nesta dire√ß√£o para construir alternativas de renda para as fam√≠lias segundo a l√≥gica desse contraponto‚ÄĚ. Essa constru√ß√£o √© mais dif√≠cil, reconhece Emerson, pois conta com menos recursos. ‚ÄúMas essa √© a nossa tarefa do dia-a-dia‚ÄĚ, resume: ‚Äúconstruir alternativas que beneficiem toda a nossa base social para que todos consigam se desenvolver produzindo alimentos saud√°veis e de qualidade‚ÄĚ.