Durante a visita os caravanistas realizaram ações e conheceram projetos sociais na fronteira com o Uruguai
Marcos Corbari
BdF/RS – ICPJ – MPA

Os jovens militantes do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) Rafael Souza Celestino, Camila Borges, Márcio Kappes e Marta Bringmann, que reunidos formam um dos grupos itinerantes da Caravana de Luta Camponesa Alexina Crespo, estiveram cumprindo agenda durante 12 dias na região da Campanha. Durante a passagem pelos municípios de Hulha Negra, Bagé, Candiota e Aceguá – na fronteira com o Uruguai -, conheceram os projetos sociais e ambientais desenvolvidos pelo Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ), realizaram atividades de formação em escolas localizadas no interior de assentamentos, visitaram e conheceram a realidade de comunidades quilombolas remanescentes, conheceram o processo de beneficiamento de sementes agroecológicas da BioNatur e participaram de roda de conversa e integração com jovens militantes do Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST).
Na estrada desde abril passado, os caravanistas estão percorrendo o estado reforçando o trabalho de base do MPA e contribuindo com outras organizações e segmentos que colocam em debate os temas do campesinato, as pautas da juventude e o necessário processo de resistência do povo trabalhador frente aos movimentos de supressão de direitos a que vêm sendo vítima desde o afastamento da então presidenta Diulma Roussef, empreendidos inicialmente pelo governo Temer e agora agravado no governo Bolsonaro. Repleta de características peculiares, a região do Pampa Gaúcho deixou fortes impressões nos caravanistas, que relatam a importância das atividades para o seu próprio processo de formação enquanto militantes e a oportunidade de contribuir para com os locais trazendo o testemunho de realidades vivenciadas em outras regiões do estado e do país.

– Foi uma experiência importante, que vou levar para minha vida -, destaca Camila, que ressaltou a importância em especial de conhecer outras realidades e ter a oportunidade de experienciar outras metodologias de trabalho. Para a jovem, um dos momentos mais marcantes foi conhecer a realidade dos assentados do MST na região e ouvir as histórias de resistência dos pessoas que ali empenharam seu trabalho, suas vidas, seus sonhos e com muito esforço fizeram frutificar uma terra que antes era improdutiva.
Marta, por sua vez, relata a realidade chocante presenciada nos territórios quilombolas, em especial na Vila da Lata, área em processo de reconhecimento que está encravada entre gigantescas fazendas e, em contraste, apresenta necessidades básicas relevantes que não são garantidas. “Foi diferente de tudo o que passamos até aqui, a grande distância de uma coisa da outra se faz representar no abandono que o estado e o capital tem em relação ao povo e o trabalho”. Para a jovem, o testemunho de vida apreendido ali renova o desafio de ação e de luta da caravana: “é preciso dividir as terras, dividir os territórios, todos têm direito a uma vida digna, não é justo que algumas pessoas e algumas regiões tenham tudo em abundância, enquanto outros estão espremidos, passando por necessidades básicas, sendo submetidos a condições extremas de vida”.
Rafael, fez depoimento semelhante, relatando o choque inicial que as condições de extremo risco social a que muitos e muitas estão expostos em uma região que abriga algumas pessoas que possuem muito enquanto muitos não têm direito a quase nada. Porém no depoimento dado à reportagem, o jovem mato-grossense frisou que da luta destes que aparentemente não tem nada, brotam exemplos bonitos de resistência e superação. “É bonito ver que onde o povo se reuniu para lutar, as coisas aconteceram ou vem acontecendo, a realidade vai se transformando, a terra trabalhada vai dando frutos e a dinâmica social vai se estabelecendo”, apontou. “Precisamos nos unir, vencer as diferenças que nos afastam, somente com união poderemos fazer frente aos abusos que o capitalismo pratica enquanto avança sobre todos nós”, refletiu.
Márcio, por sua vez, relatou os aprendizados novos e a oportunidade de também compartilhar saberes com outros jovens: “O que trazemos conosco foi colocado à disposição dos jovens da região e neles encontramos testemunhos fortes e corações abertos para compartilhar aspectos relevantes de suas lutas e de seus saberes”. Arrematando a conversa, ele relata a impressão de que toda a andança entre o povo da Campanha, fica um grande chamado: “Seja por cada um de nós, por cada um deles ou por tantos outros e outras que por algum motivo não tenham tido ainda voz nem vez, é preciso continuar em frente, é preciso lutar, é preciso continuar lutando”, arrematou.