Marcos Antonio Corbari | Com informações da TV Aparecida

O Santuário Nacional de Aparecida inaugurou o monumento “Jesus Sem-Teto”, escultura que retrata Cristo deitado em um banco, coberto por um manto, com os pés marcados pelas chagas da crucificação. A obra, instalada no Jardim Norte do complexo, foi apresentada em celebração que reuniu lideranças da Igreja no contexto da Campanha da Fraternidade 2026, dedicada ao tema da moradia digna.
Ao abrir a cerimônia, o padre Mauro Vilela, diretor da TV Aparecida, destacou que o monumento “convida você, convida a mim, convida a todos nós a olhar e a reconhecer Cristo no rosto dos mais pobres” e a “defender a dignidade de todas as pessoas”. Para ele, diante da imagem, o Evangelho ganha concretude: “Se há irmãos e irmãs sem casa, sem abrigo, sem segurança, ali está o próprio Cristo”.
Secretário executivo das Campanhas da Fraternidade da CNBB, o padre Jean Paul lembrou que a missão da Igreja é também discernir “onde é que o Cristo, verbo encarnado, mora entre nós”. Segundo ele, a escultura é “um desafio à proximidade” e o espaço vazio no banco é “pedagógico”: não basta aproximar-se do bronze, é preciso aproximar-se “da imagem e semelhança de carne e osso que está no meio de nós”.
Durante o rito de bênção, o cardeal dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (Celam), pediu que a imagem seja “memória viva do Evangelho e apelo constante à conversão do coração”. Em outro momento, reforçou que “a fé que não se expressa no compromisso social, no cuidado para com a vida, não é expressão do seguimento de Jesus”. Citando São João Crisóstomo, recordou: “Não basta honrar o Cristo no altar se nós não buscamos para ele sequer o abrigo necessário”.
O padre Fábio Evaristo conduziu uma oração responsorial, repetida pela assembleia: “Jesus escondido nos que dormem nas ruas, ensina-nos a amar”. Para ele, que a imagem “seja consciência, que seja evangelho vivo e que nunca mais possamos dizer que não te vimos”.
Convidado especial da celebração, o padre Zezinho ressaltou que a Campanha da Fraternidade não faz “política partidária, mas política de aproximação, de unidade, de solidariedade”. Ao recordar a prática de Jesus, afirmou: “Ele não veio para ser servido, mas para servir”, e insistiu que toda a mensagem cristã se resume numa palavra: “o outro”.
Reitor do Santuário Nacional, o padre Eduardo Catalfo relacionou o monumento à realidade brasileira: “Nem todos nós temos moradia, nem todos nós temos um teto. Ainda falta cidadania e dignidade para muita gente”. Segundo ele, ao acolher a escultura, a Casa da Mãe Aparecida se une a gestos concretos de promoção da dignidade.
Arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes destacou o impacto pastoral da Campanha da Fraternidade e a necessidade de coerência entre devoção e prática: “O povo gosta de imagem, gosta de tocar na imagem. Eu peço que todos que tocarem nessa imagem possam tocar também em todos os que não têm casa”.
Fé que se traduz em compromisso
A escultura é de autoria do artista canadense Timothy P. Schmalz, conhecido internacionalmente por obras de temática religiosa com forte dimensão social. Fundida em bronze e em tamanho real, a peça integra uma série instalada em diferentes países. A proposta estética é simples e direta: apresentar Jesus identificado com uma pessoa em situação de rua, reconhecível apenas pelas chagas nos pés. A linguagem realista e urbana busca provocar empatia e desconforto, convidando à reflexão sobre a presença de Cristo entre os pobres.
Em um país onde cresce o número de pessoas vivendo nas ruas, a presença do “Jesus Sem-Teto” no maior centro de peregrinação mariana do Brasil assume também caráter de denúncia. A imagem dialoga diretamente com o lema da Campanha da Fraternidade — “Ele veio morar entre nós” — e recoloca a moradia como direito fundamental e expressão concreta de dignidade.
Mais do que ornamento sacro, o monumento interpela consciências. Recorda que o Cristo adorado no altar é o mesmo que “passa fome” e “está sem casa”, como cantado durante a celebração. É um chamado à conversão social, à superação da indiferença e à prática efetiva da fraternidade.
O Cristo Sem-Teto permanece deitado, silencioso, no banco do Santuário. Mas seu silêncio é incômodo — um silêncio que grita. Grita contra a naturalização da miséria e da exclusão. Um silêncio que se faz voz de tantos e tantas que seguem nas calçadas das cidades brasileiras, sem voz e sem vez, esperando que alguém reconheça, neles, o rosto do próprio Cristo.
Assista à transmissão feita pela TV Aparecida: