Irmã Lourdes Dill cobra respeito à Agricultura Familiar na Câmara de Vereadores em Santa Maria (RS)

11 de maio de 2018


Religiosa recebeu carta de apoio firmada por todos os vereadores presentes, inclusive daqueles que poucos dias antes a criticaram e ofenderam

 

A coordenadora do Projeto Esperança/Cooesperança, irmã Lourdes Dill, utilizou a Tribuna Livre da Câmara de Vereadores, nessa terça-feira (8), para cobrar respeito à agricultura familiar. O objetivo era protestar contra a apreensão de produtos de feirantes pela Vigilância Sanitária, em 14 de abril, e também contra os parlamentares que a criticaram na tribuna nas últimas semanas. 

“Lamentamos por aqueles que nos perseguem e nos chamam de irresponsáveis. Estudamos e conhecemos muito as leis e somos a favor do cumprimento das mesmas, desde que sejam justas e a favor da vida, da luta e também dos pequenos e excluídos, entre eles, os agricultores familiares”, disse a religiosa.

Mesmo sem citar nomes, a religiosa fazia referência ao comentário do líder do governo, João Chaves (PSDB), que a chamou de irresponsável frente à gestão do Feirão Colonial, na sessão de 17 de abril. Também não escapou do crivo da religiosa a fala da vereadora Cida Brizola (PP), em 24 de abril, que remeteu o surto de toxoplasmose a alimentos vendidos em feiras.

“Os agricultores estão sendo caçados de forma injusta e ilegal, sendo acusados pela mídia e autoridades como promíscuos e também como possíveis responsáveis pelo surto de toxoplasmose, o que é uma grande injustiça e inverdade, e muito nos ofendeu”, disse a irmã. Ao final do discurso, ela pediu respeito e o direito de trabalhar aos pequenos produtores rurais, sendo aplaudida de pé por todo o Plenário.


Surpresa e foto

Após sair da tribuna, uma surpresa. A coordenadora do Projeto Esperança/Cooesperança recebeu em mãos uma carta de apoio assinada por todos os vereadores presentes na sessão. Os parlamentares inclusive posaram para uma foto com a irmã, incluindo João Chaves e Cida Brizola. 

 

Texto: Maiquel Rosauro | Fotos: Márcia Marinho


 

 

 

 

Leia o pronunciamento de irmã Lourdes Dill aos vereadores e vereadoras de Santa Maria e ao público presente que lotava o auditório d Câmara para lhe prestar solidariedade:

 

“Uma saudação muito especial ao senhor Presidente, Vereador Alexandre Vargas, senhores Vereadores, senhoras Vereadoras, Universidades, Movimentos Sociais, Pastorais, Agricultores Familiares, Empreendimentos da Economia Solidária, Imprensa, assessoria Jurídica, Consumidores/as e apoiadores da Agricultura Familiar e Economia Solidária e hoje em especial os parceiros e apoiadores do Projeto Esperança/Cooesperança e do Feirão Colonial da Arquidiocese de Santa Maria. É com muita alegria e ao mesmo tempo com um grande desafio que ocupamos estes 15 minutos da “Tribuna Livre” da Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria, nos 160 anos de Emancipação Política de Santa Maria e também nos 160 anos desta Casa Legislativa.

Aqui estamos todos nós, nesta Casa do Povo, Casa da Democracia e na Casa das grandes decisões Legislativas, para o bem do povo Santamariense e que tem o papel de unir as forças vivas da cidade em vista do Bem Comum. Estamos vivendo em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no Brasil e no mundo inteiro, momentos difíceis e desafiadores, pela conjuntura atual que nos desafia e nos inquieta, nas questões Políticas, Econômicas, Sociais, Ambientais, Educacionais, de desemprego, violência, ódio, assaltos, drogas, conflitos com outros absurdos e atentados contra a Vida. Não nos é dado o direito de perder a esperança, a luta e a resistência, em vista da Democracia Participativa, que nos é amparada pela Constituição Federal de 1988, como cidadãos e cidadãs deste País.

O Projeto Esperança/Cooesperança, setor vinculado ao Banco da Esperança da Arquidiocese de Santa Maria é um projeto de resistência e foi idealizado pelo saudoso e inesquecível Dom Ivo Lorscheiter, Profeta e Gigante da Esperança e Cidadão do Mundo. Um homem de visão larga e horizontes abertos para ajudar o trabalhador Rural e Urbano e especialmente os mais pobres, sem vez, sem voz, sem terra, sem casa, sem comida e sem direitos. Dom Ivo foi o mentor deste trabalho, na sua idéia desde que ele veio para a Diocese de Santa Maria, desde 1974 e na prática desde 1980, com o início dos PACs (Projetos Alternativos Comunitários) junto com a Caritas Brasileira e Caritas Regional RS, com uma sintonia das pequenas experiências que foram “projetos pilotos” e que mais tarde com o amadurecimento foi este legado, que deu lastro e origem na construção processual do Projeto Esperança/Cooesperança a partir de 15 de agosto de 1987. O assunto principal de hoje é pela Democracia Participativa, pelo Fortalecimento do Projeto Esperança/Cooesperança e o Feirão Colonial, que são Projetos Sociais ousados e proféticos de resistência da Arquidiocese de Santa Maria.

Uma das sábias frases, entre tantas outras, que Dom Ivo pronunciou, um ano antes de sua morte, numa entrevista para a UNISINOS: “Eu desejaria, olhando o futuro, que a nossa região de Santa Maria, que é relativamente pobre, fosse mais intensamente ajudada com atitudes de Esperança. Nós não queremos ver pessoas desanimadas, não queremos iludir ninguém, não queremos criar falsas expectativas, mas a Esperança verdadeira”. Em todo o nosso trabalho dos 31 anos do Projeto Esperança/Cooesperança, nos 26 anos do Feirão Colonial Semanal, sempre esteve fortemente presente a Mística, a Resistência, a Democracia, a Autogestão, a Solidariedade, a visão de futuro e a construção do Desenvolvimento Sustentável e Territorial, o comércio justo e o consumo ético e solidário, na Gestão Coletiva e nos resultados compartilhados, com colegialidade, cooperação e solidariedade.

A proposta do Projeto Esperança/Cooesperança entre muitos outros desafios é também contribuir significativamente na construção de uma Sociedade: Socialmente Justa; Economicamente Viável; Ambientalmente Sustentável e Sadia; Organizadamente Cooperativada; Politicamente Democrática e Autogestionária; Animando e Fortalecendo a Cultura da Solidariedade e o Bem Viver, e a valorização do Trabalho acima do capital, formando Novos Sujeitos, para o Pleno Exercício da Cidadania e na certeza de que “Um Outro Mundo é Possível” e “Uma Outra Economia Que Já Acontece”.

Participamos, também de muitos Conselhos, locais, estaduais e nacionais, Fóruns, Redes de Cooperação e Organizações que constroem alternativas de trabalho com Políticas Públicas no campo e na cidade e as Alternativas à Cultura do Fumo. Somos parte da Rede COMSOL – Rede Brasileira de Comercialização Solidária, que articula e congrega em torno de 200 Pontos Fixos de Comercialização Solidária nos 27 Estados Brasileiros. Uma das grandes metas da Rede COMSOL é Conectar Pontos e Tecer uma nova Economia, organizar o povo, produzir alimentos saudáveis e comercializar diretamente ao consumidor. Há uma clareza e consciência madura de que, o que não pode ser consumido em casa, com sua família e amigos, jamais poderá ser comercializado em Feiras, mercados e outros Pontos de Comercialização.

O Projeto Esperança/Cooesperança é um Projeto Regional articulado com o Território da Cidadania. Ele é um Patrimônio Regional e se fortalece assim.

Os dados são animadores e hoje congrega: Agricultores Familiares; Agroindústrias Familiares; Hortigranjeiros e produção orgânica; Artesãos e confecção; Grupos de Lanches, Panificação e Confeitaria; Catadores, Quilombolas, apoio aos Povos Indígenas, Feiras Municipais, Regionais, Feira Internacional da ECOSOL, Alternativas à Cultura do Fumo, entre outros e a parceria com uma grande Rede de consumidores/as.

Um quadro de Resumo: São em torno de 300 grupos organizados na região central/RS; mais de 5 mil famílias beneficiadas; mais de 25 mil pessoas beneficiadas no campo e na cidade, a nível regional; tem articulação nos 34 Municípios do Território da Cidadania, com muitos parceiros e apoiadores; é motivo de muitas pesquisas, trabalhos acadêmicos de final de cursos, TCCs, Mestrado, Doutorado, Palestras, Seminários, Oficinas, intercâmbios, entre outros; conta hoje com representantes de 06 Países de pessoas que moram em Santa Maria e participam no Feirão Colonial aos sábados: Hungria, China, Colômbia, Portugal, Equador e uma multidão de Brasileiros da região central RS.

Organizamos com muitas parcerias e voluntários para a organização da FEICOOP – Feira Internacional do Coope-rativismo e da Economia Solidária, que este ano completará o seu primeiro Jubileu de Prata, 25 anos de 12 a 15 de julho de 2018. É um grande Projeto de Resistência e que trás vigorosos benefícios para Santa Maria, em todas as áreas, além de levar o nome de Santa Maria para muitos Países e Continentes. Este Evento trás para Santa Maria muitas caravanas de todo o Brasil e outros Países da América Latina. É uma Experiência Aprendente e Ensinante.

Toda esta história nos encoraja, anima e fortalece na certeza total e absoluta de que estamos no caminho certo e por mais que a crise, os problemas, as perseguições políticas nos ameaçam, resistimos e resistimos muito. Somos muito gratos à todos os apoiadores especialmente aqueles que acreditam e apóiam esta causa e nos ajudam a resistir. Lamentamos por aqueles que nos perseguem e nos chamar de irresponsáveis. Conhecemos e estudamos as Leis e somos a favor do cumprimento das mesmas, desde que sejam justas e em favor da vida, da luta e também em favor dos pequenos e excluídos, entre eles os Agricultores Familiares. 

A Lei da Indústria que foi criada em 1952 é uma Lei que defende a grande indústria do Brasil. Para os Agricultores as leis estão sendo criadas em “forma de remendos” e na maioria das vezes não são viabilizadas pelos Municípios, devido aos altos custos dos técnicos e de sua implantação, por exemplo, o SIM, o SUASA, o SUSAF, CISPOA, entre outras. Quem se torna vítima neste processo é o Agricultor Familiar que não tem apoio, não tem recursos, carece de assistência técnica e não tem condições favoráveis e necessárias para implementar o que lhe é exigido como se fosse um grande negócio. Os Agricultores estão sendo caçados de forma injusta e ilegal, sendo acusados pelas mídias e autoridades como promíscuos e também possíveis responsáveis pelo surto de toxoplasmose, o que é uma grande injustiça e inverdade. O momento é de muita tensão para a agricultura familiar e as organizações.

Os fiscais são formados para cumprir a Lei do grande negócio, tratam os Agricultores Familiares como ladrões, quando tratam tudo como Abigeato, pois nem tudo é abigeato e ilegal, por não ter registro. Nem tudo é impróprio para consumo. No nosso entendimento ilegal é o tráfico e o uso de drogas e similares. Impróprio para o consumo é o agrotóxico, o veneno, a droga, o cigarro, os produtos químicos e tudo o que agride, mata a Vida e gera doenças e mortes prematuras. Os fiscais deveriam preocupar-se com os aviões que passam veneno nas lavouras e estragam as hortas e poluem as águas, as fontes e afetam a saúde da população. O fumo que mata milhões de pessoas por ano, o leite contaminado das caixinhas com soda, uréia, cal e tantos outros produtos nocivos e impróprios para o consumo.   Na madrugada do dia 14 de abril de 2018 os Agricultores Familiares foram mais uma das vítimas desta Ação de Vigilância Sanitária e de forma tão arbitrária, recolheram centenas de quilos de alimentos de boa qualidade, jogados e espalhados no chão. Por quê tantos Policiais? Por quê tantos fiscais? Por quê agir de forma tão arbitrária e raivosa? Tirar produtos de qualidade produ-zidos com sacrifício e luta dos agricultores e até mandioca descascada? Em Santa Maria são mais de 20 mil pessoas famintas que passam verdadeiramente fome. Em cada esquina tem gente pedindo comida. A fome voltou. Os containers são visitados ao longo do dia e parte da noite, onde os moradores de rua apalpam e catam comida para se manterem em pé. E esta comida sim é contaminada. Eu nunca vi fiscais se preocuparem com este assunto. O Restaurante Popular Dom Ivo, aguarda ansiosamente há quase três anos para ser reaberto. É o espaço dos pobres. Tudo isso clama ao céu e é urgente reabrí-lo para que os pobres possam voltar a ter comida, ao menos uma refeição quente por dia que lhes é garantido pelos Direitos Humanos.

Teve gente na cidade que chamou o Projeto Esperança/Cooesperança e a mim de irresponsáveis e até teve gente com capacidade irresponsável de dizer que a Toxoplasmose e os problemas da saúde em Santa Maria, são provenientes dos Produtos Coloniais, das Feiras e dos Agricultores Familiares. Que lástima!  Quem será que está por trás deste tipo de opinião? É mais uma forma de denegrir a imagem do Projeto Esperança/Cooesperança, dos Feirões Coloniais e de modo especial os Agricultores Familiares organizados de nossa região, assim como já fizeram várias vezes.

Enquanto uma milésima minoria falava isso sem refletir nas redes sociais, mesmo sendo muito grave este tipo de acusação, recebemos milhares de mensagens nas redes sociais e de apoio de todo Brasil dos parceiros e apoiadores que conhecem este trabalho histórico e esta luta e resistência. E, por fim, pedir que Dom Ivo, o Professor Paul Singer e demais apoiadores do Além, cuidem de nossas organizações e que Deus ilumine os que precisam cuidar da Saúde Pública, para que os responsáveis pela Saúde Pública possam agir de outra forma, educando e apoiando a todos.

Inspiramos-nos e encorajamo-nos no exemplo do Papa Francisco e sua bela mensagem que em 2014, no primeiro Encontro Mundial dos Movimentos Sociais, com mais de 100 Países assim concluiu o seu discurso:

Nenhuma Família sem Casa. Nenhum Camponês sem Terra. Nenhum Trabalhador sem Direitos. Nenhum direito a menos e Nenhuma pessoa sem dignidade e cidadania”.

 

Santa Maria, RS, 08 de maio de 2018

Irmã Lourdes Dill, FDC

Coord. do Projeto Esperança/Cooesperança

Vice-Presidente da Caritas Brasileira