Notícia

De Dom Orlando a Dom Mário Antônio: Aparecida mantém linha profética e social

Marcos Antonio Corbari | ICPJ

Publicação original do BdF-RS

 

Nomeação reforça projeto de Igreja em saída, comprometida com os pobres e com a justiça socioambiental



A nomeação do novo arcebispo de Aparecida ─ Dom Mário Antônio da Silva ─ reforça a presença, no coração do catolicismo brasileiro, de uma Igreja afinada com o pontificado do saudoso Papa Francisco e com as grandes pautas sociais deste tempo. Com trajetória marcada pela proximidade com as periferias, pelo diálogo com movimentos populares e pela defesa da justiça socioambiental, o novo pastor da Casa da Mãe Aparecida vem da Diocese de Cuiabá (MT) e chega com um perfil claramente sintonizado com a proposta de uma “Igreja em saída”.

Ao longo de seu ministério, Silva tem insistido que a missão da Igreja não se esgota nos templos, mas se realiza no encontro com os que sofrem. Perspectiva que dialoga diretamente com a insistência dos seguidores de Francisco e tem encontrado eco nas primeiras manifestações do atual pontífice, Leão XIV, por “pastores com cheiro de ovelha” e por uma Igreja que vá ao encontro das dores concretas do povo. Em diversas ocasiões, destacou que a fé cristã exige compromisso com a dignidade humana, especialmente dos mais pobres, reafirmando a centralidade da opção preferencial pelos pobres na tradição latino-americana.

A atuação também demonstra sintonia com a ecologia integral proposta na encíclica Laudato Si. Ao abordar os impactos das crises ambiental e climática sobre as populações vulneráveis, o novo arcebispo tem sublinhado que não há separação entre justiça social e justiça ambiental. Essa visão amplia o horizonte pastoral para além da assistência imediata, apontando para transformações estruturais e para o cuidado com a Casa Comum.

Outro eixo destacado pelos primeiros analistas sobre o novo arcebispo de Aparecida é a defesa da sinodalidade. Ele tem valorizado processos participativos, escuta das comunidades e corresponsabilidade eclesial, elementos que marcam o atual caminho sinodal proposto pelo Vaticano. Em um contexto de polarização política e religiosa, sua postura tem sido a do diálogo e da cultura do encontro, conceitos fortemente promovidos especialmente na encíclica Fratelli Tutti.

A própria escolha para Aparecida pode ser lida como sinal da confiança do Papa em lideranças comprometidas com esse horizonte pastoral. Sede do maior Santuário Mariano do mundo e maior igreja católica do país, Aparecida é referência simbólica para a Igreja no Brasil. A arquidiocese tem peso nacional e latino-americano. Foi ali que, em 2007, os bispos do continente reunidos na 5ª Conferência do Episcopado Latino-Americano e Caribenho — então presidida pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio — consolidaram diretrizes que seguem orientando a caminhada pastoral no continente.

 

Dom Mário e o Papa Francisco: novo arcebispo de Aparecida é conhecido pela adesão às ideias do papa que precedeu Leão XIV / Instagram Diocese de Cuiabá

 

Outro aspecto a ser destacado é a experiência de Dom Mário como presidente da Cáritas Brasileira, um dos braços mais ativos da Igreja junto às causas do povo. Imprimiu uma gestão marcada pelo fortalecimento da atuação territorial e pelo compromisso com as populações mais vulnerabilizadas. Durante seu período na presidência, a entidade ampliou ações de solidariedade em contextos de emergência — como crises humanitárias, insegurança alimentar e desastres socioambientais — sem abrir mão da perspectiva estruturante de promoção de direitos e economia solidária. Reforçou a compreensão de que a caridade cristã não se limita à assistência imediata, mas deve enfrentar as causas das desigualdades, articulando rede, incidência pública e defesa da dignidade humana.

Nesse cenário, ganha relevo o legado de Dom Orlando Brandes, que esteve à frente da Arquidiocese até o presente momento e imprimiu à sua gestão uma forte marca profética. Dom Orlando não hesitou em denunciar, a partir do altar do Santuário Nacional, as injustiças sociais, a cultura da violência e as ameaças à democracia. Em uma homilia que repercutiu nacionalmente, alertou para que “o dragão do ódio, da mentira e da injustiça” não prevalecesse sobre o projeto de Deus — palavras que sintetizam seu posicionamento público firme diante dos desafios do país.

Sob liderança de Brandes, Aparecida manteve viva a dimensão missionária e social da Igreja, fortalecendo iniciativas pastorais voltadas aos pobres, à ecologia integral e ao diálogo com a sociedade. Seu governo foi marcado por homilias que articulavam fé e realidade, espiritualidade mariana e compromisso concreto com os que mais sofrem.

De modo geral, a chegada de Dom Mário Antônio à Aparecida tem sido saudada como indicação de continuidade nessa linha pastoral. Em tempos de aprofundamento das desigualdades e de tensões no campo religioso e político, Aparecida deve permanecer como espaço simbólico e concreto de articulação de uma Igreja comprometida com a justiça, com a democracia e com a dignidade humana: uma Igreja samaritana, sinodal e comprometida com os pobres e com a transformação da realidade.

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