CIDEJA e ICPJ apresentam resultados do projeto de instalação de Cisternas na região da Campanha

25 de agosto de 2020

283 famílias nos municípios de Candiota, Hulha Negra, Aceguá, Pedras Altas e Pinheiro Machado receberam cisternas com capacidade de armazenamento de aproximadamente 4,5 milhões de litros de água

Live realizada pelo Cideja demarcou finalização do projeto (Foto: Tribuna do Pampa)

No final do mês de julho de 2020 o Consórcio Público Intermunicipal de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental dos Municípios da Bacia do Rio Jaguarão (CIDEJA) e o Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) anunciaram a conclusão do projeto de construção de cisternas desenvolvido nos últimos dois anos. Utilizando recurso de R$ 1 milhão obtido via projeto junto ao Ministério do Desenvolvimento Social (hoje Ministério da Cidadania), finalizou sua execução deixando como resultado 283 famílias beneficiadas com a instalação de uma cisterna de placas com capacidade de armazenamento de 16 mil litros de água ao lado de cada casa, bem como acompanhada da infraestrutura de captação junto ao telhado, filtragem e tratamento para consumo humano, preparo de alimentos, higiene pessoal e demais necessidades de utilização pelo núcleo familiar. Somadas, as estruturas implantadas representam uma capacidade integrada superior a 4.500.000 litros de água.

Na impossibilidade de realizar um grande ato de conclusão, por conta das limitações impostas pela pandemia de covid-19, representantes do CIDEJA, do ICPJ e dos municípios participaram de duas transmissões ao vivo pela internet, relembrando dificuldades enfrentadas, registrando os resultados positivos obtidos, enaltecendo o trabalho coletivo realizado e projetando novas ações futuras para ampliar o que se pôde alcançar até o momento. “Além de registrar o final de mais essa etapa, essa reunião virtual também serve para dar publicidade com o máximo de transparência possível dos nossos atos e prestar contas à população das ações realizadas”, explicou o prefeito de Candiota, Adriano dos Santos, que também preside o CIDEJA.

– O projeto de cisternas – que no passado em alguns momentos foi desacreditado – hoje está chegando a sua fase final de execução e se consolida como solução para a falta de água em locais onde ainda não é possível a instalação de grandes reservatórios e redes de água -, acrescenta Santos. “Esse projeto beneficiou muitas famílias, pudemos sentir seu impacto, é uma luta de todos e todas”, acrescentou, citando a situação extrema que muitas famílias na região ficam expostas a cada período de estiagem que a região sofre, o que se dá de forma cíclica.

 

Prestação de contas

Cisternas instaladas ao lado das casas armazenam água da chuva (Foto: Arquivo ICPJ)

Os números do projeto, apresentados na prestação de contas pública e inseridos no sistema de fiscalização do Governo Federal não deixam dúvidas sobre as virtudes do projeto e a seriedade com que cada centavo foi investido: Foram construídas 283 cisternas, em 4 municípios, beneficiando 24 comunidades. Em Candiota foram beneficiadas 180 famílias nas comunidades de 20 de Agosto, Cerros, Che Guevara, João Antonio, Paraíso, Madrugada, Passo do Salso, Pátria Livre e Pitangueiras. Em Hulha Negra foram 51 famílias beneficiadas nas comunidades de Santa Elmira, Tapete Verde, Conquista da Fronteira, Capivara A, Capivara B, Banhado Grande, Jaguarão, Nova Querência e Palmeiras. Em Aceguá foram beneficiadas 27 famílias nas comunidades de Quilombo Vila da Lata, Quilombo Tamanduá, Conquista do Jaguarão e Santa Vitória. Em Pedras Altas foram 25 famílias beneficiadas nas comunidades de Nascente, Cerro do Baú, Quilombo da Solidão, Areial e Coxilha do Fogo. Além das obras, um legado imaterial também foi construído pelo projeto, que oportunizou a mais de 380 pessoas a participação em cursos de capacitação destinados às famílias, assim como capacitação de 23 pedreiros em dois cursos técnicos voltados à formação de mão de obra qualificada.

Para Frei Sérgio Görgen, coordenador do ICPJ, o projeto foi desafiador e os resultados positivos alcançados são igualmente motivo de celebração pelo que foi possível executar e de desafio pelas possibilidades futuras de ampliação que provou serem possíveis na região. “Boa parte das famílias beneficiadas pelas cisternas já enfrentou o último período de seca contando com alguma quantidade de água armazenada e isso já fez considerável diferença tanto para a qualidade de vida dessas pessoas quanto para os municípios que puderam sentir diferença no volume de água necessária de ser transportada por caminhões pipas”, explicou o dirigente, prospectando que a reprodução do projeto no futuro, abrangendo um aporte maior de recursos e um número maior de beneficiados, pode ser considerado como ação estratégica para o enfrentamento das estiagens que são cíclicas na região.

– Projetos como esse precisam se tornar políticas de estado, buscando recursos em todas as esferas públicas, porque traz resultados concretos em curto prazo para enfrentar um problema histórico que castiga a população mais necessitada do interior da região da Campanha -, afirmou Görgen. “Quero agradecer a confiança empenhada no trabalho do Instituto e para quem eventualmente duvidou que daríamos conta, está aí: 283 cisternas entregues no prazo, realizamos e entregamos”, afirmou, destacando ainda que o CIDEJA e o ICPJ além de estarem prontos para abraçar novos projetos semelhantes, estão buscando recursos junto à outra organização parceira para aperfeiçoar ainda mais as cisternas já implantas, com ações de embelezamento, com plantio de jardins de flores e hortos de ervas medicinais no entorno das estruturas construídas.

 

Reconhecimento institucional

Qualidade de vida dos beneficiários deu um salto positivo (Foto: Tribuna do Pampa)

O prefeito de Pedras Altas, Luiz Alberto Soares Perdomo, o Bebeto, afirmou que para o seu município o projeto de construção de cisternas “foi muito importante e estratégico, haja visto que nas comunidades escolhidas para a sua construção os moradores sempre tiveram o problema de falta de água no verão e nesse ano com a estiagem prolongada as cisternas foram importantíssimas para a vida dessas famílias”. Outros dois aspectos destacados pelo gestor foram a qualidade das obras realizadas e a seriedade com que o trabalho foi realizado pelas equipes do ICPJ.

Liziane Jardim, vereadora do município de Aceguá e representante do Fórum Regional de Desenvolvimento, Manejo das Águas e Combate aos Efeitos das Estiagens também manifestou-se enaltecendo a importância do projeto. “Só quem já viveu a falta de água em períodos prolongados consegue compreender a importância de um projeto como esse. A Questão cíclica das estiagens em nossa região já é um fato comprovado, não pode ser tratada como uma eventualidade, precisa ser tratada como um problema regional e enfrentada com políticas continuadas”. Para a vereadora, o trabalho realizado pelo CIDEJA e pelo ICPJ é de excelência

O deputado federal Dionilso Marcon também expressou seu contentamento com a conclusão do projeto e os resultados positivos obtidos e relembrou que a região Sul como um todo requer mais atenção dos governos estadual e federal para o seu desenvolvimento. “Essa região precisa muito apoio para ser desenvolvida. Os governos não podem permanecer de costas para as necessidades dos municípios da região Sul e da região da Campanha. “O resultado está aí pra quem quiser ver, recurso bem aplicado, projeto bem executado, com seriedade e mostrando seus resultados. Quando se investe em benefício do desenvolvimento de uma região e no atendimento das necessidades de quem realmente precisa, as coisas acontecem da melhor maneira”, acrescentou. Marcon, que atuou como parceiro no projeto, auxiliando na correta destinação dos recursos, comprometeu-se a seguir buscando novos projetos para a região, tendo atenção especial às iniciativas de construção de cisternas, infraestrutura para represamento de água, abertura de poços artesianos e redes de água.

Emerson Capelesso, dirigente do Movimento dos Trabalhadores rurais Sem-Terra (MST) e gestor da cooperativa camponesa Coptil assinalou que além da garantia de qualidade de vida para as famílias beneficiadas, a garantia de recursos hídricos contribui de forma decisiva na melhoria da produção. “Nós sentimos isso de maneira direta na melhoria da qualidade do leite produzido, por exemplo, e por isso reforçamos nosso apoio ao projeto e enaltecemos que o aprendizado e a experiência pode ser aplicada agora também a estruturas maiores, voltadas a garantir água de qualidade para a produção”. O pleito apresentado por Capelesso já está em planejamento pelo CIDEJA e pelo ICPJ, que buscam recursos para a construção de cisternas de 52 mi litros de armazenamento, cuja água será destinada para as necessidades produtivas. “Estamos felizes com o resultados e nos desafiamos a ir além, a fazer ainda muito mais”, arrematou.

Também participaram da transmissão os prefeitos de Piratini, Vitor Ivan Goncalves Rodrigues, o Vitão, e de Herval, Rubem Dari Wilhelnsen, ambos integrantes do CIDEJA. Para os gestores é preciso levar em conta as adversidades climáticas a que a região está sujeita, apontado como o segundo clima mais adverso do planeta. Para ambos, a união dos municípios através do consórcio tem sido uma ferramenta muito importante para o enfrentamento de problemas que são de abrangência regional.

 

Qualidade de vida

Beneficiaria do projeto já não tinha mais esperança de ter água de qualidade na sua unidade produtiva (Foto: Tribuna do Pampa)

A reportagem do jornal Tribuna do Pampa registrou o depoimento da produtora Marlene Pens, beneficiada com uma cisterna na comunidade Paraíso, interior de Candiota. Residindo há 20 anos na localidade, a família dependia de ajuda para ter acesso a água para consumo e preparo de alimentos: “Tinha só uma caixa pequena e quando terminava tinha que pedir água para os vizinhos até para beber. Tomar banho e lavar roupas era com água do açude, assim como para dar aos animais”, relatou.

A produtora passou o verão de 2020 – meses de janeiro e fevereiro – já com a cisterna. Questionada a relatar de que forma sua vida mudou após a construção do reservatório, diz não precisar mais andar pela comunidade atrás de água para consumo. “Achei que nunca ia ter água boa, de qualidade. Nesse verão nunca fiquei sem água. A Prefeitura sempre auxiliou também e estamos muito felizes. Esse é um projeto que deve continuar, ainda tem muita gente que precisa ter acesso a uma boa água”, finalizou.

– A gente chegava a beber água do açude -, contou em março, ao jornal Brasil de Fato, a assentada Flávia da Luz, residente na comunidade de Companheiros de João Antônio, também no município de Candiota. “Não precisava ser muito grande a estiagem, a água raleava e a gente tinha que bombear do açude para tomar e fazer comida”, relembra.  “Hoje é diferente, a água que fica na cisterna é boa, nós usamos dela para todas as necessidades da família. Esse projeto nem tem muito o que dizer de tão bom que é, mudou a vida da gente!”, arremata.

Não muito longe dali, outra assentada beneficiada, relembra de como era antes e contrasta do momento atual, onde o reservatório novo já está em uso pela família. Cleusa Peres da Silva, de Conquista do Cerro, diz que “água é tudo, principalmente para a gente que já sabe como é passar necessidade”. A lembrança recente dela remete a última estiagem, quando a família não teve água para si nem para o trato dos animais, prejudicando também a produção de leite que empreendem no lote. “A gente até custou a acreditar que o projeto fosse acontecer e fosse tão rápido, hoje nós usamos a água da cisterna para todas as nossas necessidades dentro da casa, fazemos o tratamento direitinho como o pessoal do Instituto ensinou e temos essa água boa que vocês estão vendo aqui”, descreve com alegria ao alcançar um copo de água limpa, pura, para a equipe do BdF que a visitou.

 

Trabalho coletivo

Esforços somados garantiram água de uqalidade para 283 famílias na região da Campanha (Foto: Arquivo ICPJ)

As equipes técnicas ligadas ao CIDEJA e ao ICPJ destacam o trabalho coletivo, conjunto, realizado entre todos os envolvidos, como diferencial para o sucesso do projeto.  “Trabalhamos em sintonia. É uma satisfação concluir um projeto como esse, que acompanhamos desde a busca dos recursos, passando pela execução e chegando agora na prestação de contas”, expressou Débora Cappua, secretária executiva do CIDEJA. Rosane Barcé, agente administrativa do ICPJ também relata a satisfação pela missão cumprida, e a expectativa para que não demorem a surgir novos projetos: “Só temos a agradecer e dizer que isso é uma satisfação imensa. Que outros projetos venham para a gente fazer ainda muito mais famílias felizes”.

Responsáveis pelas equipes de pedreiros, Sérgio Ferrarez, Valmir Amaral e Ademir Machado destacaram o tamanho do projeto e as dificuldades que foram enfrentadas para realizar no período de tempo previsto. “Foi uma experiência muito boa, gratificante, é uma alegria ver como as famílias que receberam as cisternas ficaram satisfeitas, renovou a esperança em muita gente”, contou Ferrarez. “A gente fica até emocionado de ver famílias que no meio a seca ficavam sem recurso de água, que tinham muitas vezes que caminhar quilômetros para buscar água para uso da família e agora tem um reservatório de segurança há poucos metros de casa”, acrescenta. O aprendizado também foi assinalado pelos coordenadores das equipes de execução, que foram capacitados juntamente com suas equipes para entregar uma obra de qualidade aos beneficiários.

Lara Rodrigues e Marciane Fisher, que assumiram a coordenação dos trabalhos voltados à educação e ação social junto às famílias beneficiadas relataram o quanto a ação impacta a vida das famílias e abre novas perspectivas. “A gente costuma sempre dizer que água é vida, mas precisamos nos perguntar a respeito da qualidade da água que as pessoas consomem e a qualidade de vida que isso representa, nesse sentido temos certeza de que a chegada das cisternas oferece um novo patamar de qualidade de vida para essas famílias, é gratificante sentir-se parte desse projeto”, apontou Lara. “Tem também uma questão da auto-estima, do que representa ter água de qualidade em casa para preparar adequadamente seu alimento, para lavar uma muda de roupa, para fazer uma boa higiene pessoal, é imensurável a diferença que um projeto como este estabelece para quem é beneficiado por ele”, acrescentou Marciane, dando especial destaque para as mulheres, que exercem um papel fundamental na organização da vida familiar e na gestão das casas e da água que a a família tem acesso.

 

Marcos Corbari – Jornalista BdF/ICPJ

Com informações do CIDEJA e jornal Tribuna do Pampa