Mil camponeses estão se deslocando de mais de 20 estados para o encontro marcado na Universidade Federal de Brasília de 11 a 14 de maio
Marcos Antonio Corbari | Brasília (DF)

Entre os dias 11 e 14 de maio, Brasília será palco de um dos maiores momentos organizativos da história recente do Movimento dos Pequenos Agricultores. Cerca de mil camponeses e camponesas vindos de mais de 20 estados brasileiros participarão do IV Encontro Nacional do MPA – Frei Sérgio Görgen, atividade que marca os 30 anos de construção do movimento e projeta novos desafios para a luta camponesa no Brasil. O Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) estará presente com uma delegação reforçada, participando de todas as atividades.
“Será um espaço de formação política da militância e de reafirmação da nossa estratégia. Além disso, será um espaço de homenagem à trajetória de Frei Sérgio, referência histórica na construção da luta camponesa popular no Brasil”, afirma Denilva Araújo, da Direção Nacional do MPA.
Mais do que um espaço interno de debates e definições políticas, o encontro será também uma grande celebração da cultura popular camponesa. Em paralelo à programação política e formativa, acontecerão o Festival Cultural e a Feira Camponesa, reunindo mais de 100 expositores das cinco regiões do país, além de dezenas de apresentações artísticas, shows, poesias, manifestações culturais e partilhas de saberes e sabores produzidos pelo campesinato brasileiro.

Araújo explica que o encontro celebrará a resistência e as conquistas acumuladas pelo movimento, além de festejar a força da agricultura camponesa por meio da feira camponesa, expressão da diversidade produtiva, cultural e da soberania alimentar. “O encontro ainda buscará aprofundar o debate sobre os desafios do atual momento apontando caminhos de organização, unidade e luta para os próximos anos”, completa.
O encontro acontece em um momento de aprofundamento das disputas em torno da soberania alimentar, da reforma agrária popular, da agroecologia e da defesa dos territórios camponeses. Para o MPA, os quatro dias em Brasília representam a reafirmação de um projeto popular para o campo brasileiro, sustentado na produção de alimentos saudáveis, na preservação das sementes crioulas e na organização coletiva das famílias camponesas.

Feira Camponesa: a alma viva do campesinato
O Festival Cultural e a Feira Camponesa prometem transformar Brasília em um grande território de expressão da diversidade cultural do povo do campo. Produtos da sociobiodiversidade, culinária regional, sementes, artesanato, bioinsumos, ervas medicinais, doces, cafés, cachaças artesanais e alimentos agroecológicos estarão entre os itens apresentados pelas delegações vindas de todas as regiões do país.
“A feira camponesa é a cara do Brasil que produz comida de verdade, respeitando a terra e os territórios. Cada barraca conta uma história de resistência e esperança. E o apoio da Petrobras, via Lei Rouanet, é fundamental para dar visibilidade a essa cultura que alimenta o país”, Claudio Souza, integrante do Coletivo de Soberania Alimentar do MPA e responsável pela organização da feira.
A previsão é de que sejam montadas 50 barracas e participem 100 expositores feirantes vindos de todas as cinco regiões do Brasil: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Por outro lado, os organizadores frisam a presença de itens produzidos nos cinco biomas, demonstrando a força e a diversidade do campesinato brasileiro.

A mística da luta encontra a resistência da cultura popular
As noites culturais reunirão mais de 20 atrações artísticas, fortalecendo a dimensão simbólica e cultural da luta camponesa. Música popular, poesia, mística, apresentações regionais e manifestações tradicionais irão compor a programação do festival, que busca afirmar a cultura como parte inseparável da resistência e da construção de um novo projeto de sociedade.
“Para nós, construir um festival como esse vai muito além de organizar apresentações culturais. É afirmar que a cultura camponesa existe, resiste e continua produzindo sentido, identidade e organização popular. A música, o teatro, a poesia, a dança e todas as expressões do nosso povo não surgem como entretenimento vazio, mas como fruto da luta, da memória e da vida coletiva no campo.” Aponta Jean Marx, integrante do Coletivo de Cultura do MPA e responsável pelo festival.
A proposta do festival é fazer do encontro nacional também um espaço de convivência popular, intercâmbio de experiências e afirmação da identidade camponesa. Em meio às atividades políticas, a feira e o festival funcionarão como expressão concreta do projeto defendido pelo movimento: alimento saudável, cultura popular e solidariedade como bases de uma sociedade mais justa.

Os 30 anos do MPA e a memória de Frei Sérgio Görgen serão destacados
A edição deste ano carrega um significado profundamente especial. O IV Encontro Nacional leva o nome de Frei Sérgio Antônio Görgen, um dos principais construtores do movimento camponês brasileiro e referência histórica da luta popular no campo.
Frei Sérgio, falecido em fevereiro deste ano, será reverenciado ao longo de toda a programação do encontro. Uma noite especial de tributo está prevista dentro do Festival Cultural, reunindo músicas, depoimentos, místicas e homenagens à trajetória do franciscano que dedicou sua vida à organização dos pequenos agricultores, à soberania alimentar e à defesa dos pobres do campo. Familiares, companheiros históricos de luta e autoridades federais confirmaram presença.
Além disso, sua memória também estará presente na Sessão Solene da Câmara dos Deputados, marcada para a quinta-feira, dia 14 de maio, no Plenário Ulysses Guimarães, em Brasília. O ato parlamentar prestará homenagem aos 30 anos do MPA e fará referência à contribuição histórica de Frei Sérgio para as lutas populares, para a organização camponesa e para a construção de alternativas ao modelo do agronegócio.
Fundador do MPA e uma das vozes mais contundentes na denúncia da violência no campo e da concentração fundiária, Frei Sérgio se tornou símbolo de resistência, espiritualidade libertadora e compromisso radical com os pobres da terra. Sua trajetória segue inspirando gerações de militantes camponeses em todo o Brasil.

Um encontro para projetar o futuro da luta camponesa
O IV Encontro Nacional do MPA acontece em um contexto de crise climática, avanço do agronegócio sobre os territórios e crescimento da fome no país. Para o movimento, o encontro será espaço para aprofundar o debate sobre os desafios da produção de alimentos saudáveis, da soberania alimentar, da agroecologia e da permanência da juventude no campo.
A expectativa é que o encontro reafirme a necessidade de ampliar a unidade entre os movimentos populares e fortalecer as formas coletivas de organização diante das ameaças impostas ao campesinato brasileiro.
Entre plenárias, debates, apresentações culturais, feira camponesa e homenagens, Brasília deverá se transformar, durante quatro dias, em uma grande expressão da resistência popular construída pelos povos do campo, das águas e das florestas.
Mais informações podem ser acompanhadas nos canais oficiais do MPA Brasil.