Viva São Sepé (por João Pedro Stedile)

7 de fevereiro de 2019
Autor
Marcos Antônio Corbari

Dia 7 de fevereiro de 1756, caiu em combate o líder guarani Sepé Tiarajú, que nos inspira e protege até hoje. Ele enfrentou apenas com arco, flecha e seu direito os exércitos da Espanha e Portugal juntos, com seus canhões e a benção do Vaticano.  Perderam seu território, milhares de guaranis mortos e a maioria da população teve então que fugir para o outro lado do Rio Uruguai, o que é agora a província de Missiones na Argentina e o Paraguai, cuja população até  hoje é majoritariamente guarani e seu idioma,  nacional.   

 

Poderiam ter construído uma bela República dos  Guaranis, se não fosse a sanha perversa do capital mercantil europeu, naquele imenso território sob seu domínio em que controlavam as três principais bacias hidrográficas do Cone Sur: Rio Paraguai, Rio Paraná e Rio Uruguai, as tres denominações dadas por eles.  E que ia, de Montevideo até o que é hoje a cidade de Valle Grande, no nordeste da Bolivia, aonde por sinal caiu o Che.  E ainda habitada por descendentes de guaranis.

 

Eles já praticavam voto secreto,   direto,  de todas  mulheres e homens acima de 16 anos.  Sepé Tiarajú foi eleito cacique e líder,  assim.  As mulheres brasileiras só foram conquistar o direito ao voto na constituinte imposta por Getúlio de 1934.

 

Com a derrota guarani nasce o latifúndio gaúcho, distribuído primeiramente entre os oficias invasores vencedores, que demarcaram para sí imensas fazendas de gado. Contra o qual estamos lutando até hoje.

 

Os guaranis nos deixaram um legado cultural imenso.  Do seu idioma recolhemos palavras.  Da sua culinária, apreendemos fazer churrasco, eles eram muito carnívoros, em função do  habitat pampeano, com poucas frutas e verduras.

 

Foram eles que trouxeram a batata e o milho dos povos andinos e fizeram ampla distribuição por aqui, utilizando inclusive na forma de um mingau cozido, que os nossos avós italianos chamam de polenta e acham que foram eles que inventaram. Nosso mate amargo, que era frio, como até hoje se sorve o tererê, no Paraguai.

 

Nosso lendário Sepé Tiarajú falava tres idiomas, guarani, espanhol e portugues.  Cristão, se imortalizou como São Sepé. Agora, nome de um município e uma lenda popular. Com o Papado de Francisco iniciou-se o processo de sua canonização através da Diocese de Bagé, a quem pertence a paróquia de São Gabriel, local de sua morte.

 

Aprendi sua história ainda no ensino fundamental, quando o Governo Brizola (1958-62)  universalizou a escola primária, com a construção das  “brizoletas” em todas as comunidades rurais, como eram apelidadas pelo povo, pois tinham a mesma arquitetura de material.  E ele colocou a historia de Sepé e sua figura, em todos os cadernos distribuídos para a piazada. 

 

No MST ele é nosso protetor, e nos empresta o nome para muitos assentamentos e locais públicos.  Mas temos ainda uma grande divida histórica do povo gaucho, seus herdeiros, com os remanescentes Guaranis, que vagueiam por nossas estradas, sem terra e sem destino. Haverá algum dia um governo popular, que lhes garanta de novo uma vida com terra e dignidade !!

 

Viva São Sepé!

 


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