Teu Nome é Santificado Naqueles que Morrem Defendendo a Vida: 14 anos do martírio de Dorothy Stang!

12 de fevereiro de 2019
Autor
Michele Corrêa

“Não vou fugir, nem abandonar a luta desses agricultores, que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor, numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar”.

(Irmã Dorothy)

 

“Eis a minha arma”, respondeu, serena, a missionária Dorothy Stang, mostrando a Bíblia, ao ser questionada pelo pistoleiro Rayfran das Neves Sales se estava armada. De olho na recompensa de R$ 50 mil, Rayfran sacou da pistola e efetuou seis disparos. Eram 7h30 da manhã do dia 12 de fevereiro de 2005. Norte-americana naturalizada brasileira, a religiosa despertou a ira de fazendeiros ao defender o uso sustentável da terra no município de Anapu, a 374 quilômetros de Belém, no Pará.

Irmã Dorothy saiu para uma reunião, o lugar situava-se a 40 quilômetros da Rodovia Transamazônica, em um travessão quase que intransitável. A viagem demorava o dia inteiro. Sabia-se do perigo que ela corria. No início da manhã, minutos antes da viagem, ela disse ao procurador Felício Pontes Jr, do Ministério Público Federal, para não se preocupar, pois seria acompanhada pelo delegado da Polícia Civil e alguns integrantes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu (PA). Os sindicalistas foram, mas o delegado não cumpriu a promessa. E ela foi assim mesmo.

Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, é apontado como mandante do crime, junto a Regivaldo Pereira Galvão. Ele cumpre pena em regime domiciliar desde 2015, por determinação do juiz Luiz Trindade Júnior, da 5ª Vara Penal de Altamira. Dias antes, o fazendeiro mandante do crime havia colocado fogo na plantação dos agricultores. Dorothy disse que o “nosso povo” (como ela chamava os trabalhadores rurais sem-terra) estava assustado e precisava de apoio. O que mais intrigou o procurador Felício Pontes Jr, naquela conversa foi que ela afirmou várias vezes para ele não desistir da luta. Disse que seria difícil, mas que venceriam. Ela estava se despedindo, acredita o procurador.

Passados 14 anos, três dos cinco envolvidos estão fora da prisão. “A lei do mais forte impera em lugares onde o Estado não está presente. E, quando a luta é de trabalhadores rurais versus fazendeiros, é fácil saber quem é o mais forte”, afirma o procurador. Em 2010, houve um julgamento que foi adiado por uma estratégia da defesa do fazendeiro. Por fim, em 2013, houve o último julgamento de Bida, que foi condenado novamente há 30 anos, mas como já estava preso desde 2005, acabou pegando o semi-aberto, apenas 8 anos depois de ter assassinado a irmã Dorothy Stang.

Os demais envolvidos também conseguiram obter uma pena mais branda. O pistoleiro que disparou contra a religiosa Rayfran das Neves Sales foi condenado a 27 anos de prisão, mas acabou passando para prisão domiciliar.  O segundo pistoleiro, Clodoaldo Batista, pegou uma pena de 17 anos e já estava cumprindo o semi-aberto quando fugiu em 2011. Já o capataz que contratou os pistoleiros a mando dos fazendeiros, Amair Feijoli Cunha, chegou a ser condenado a 27 anos de prisão, mas já cumpre prisão domiciliar.

Há ainda outro fazendeiro acusado de envolvimento no assassinato da freira, o Regivaldo Pereira Galvão. Ele foi condenado a 30 anos de prisão, mas foi preso somente em 2017, pois seu direito de aguardar o recurso de 2010 em liberdade foi suspenso, recebeu em 24 de maio de 2018, o benefício de um habeas corpus concedido pelo ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF). A Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade na qual a freira atuava, divulgou nota à imprensa sobre a decisão do STF: “A Diretoria e Coordenação Executiva Nacional da CPT, comprometidas com o povo da terra, das águas e das florestas, reiteradamente têm se expressado sobre como a impunidade alimenta cotidianamente a violência contra os trabalhadores e trabalhadoras do campo brasileiro e seus aliados. O caso da missionária era uma exceção à regra, possivelmente por ser estrangeira de nacionalidade estadunidense, pois os acusados de sua morte foram julgados e condenados”, aponta o texto.

Quem é Dorothy Stang?

Sua biografia a retrata como sendo uma freira norte-americana naturalizada brasileira. Nasceu em Dayton, no estado de Ohio, em 1931. A religiosa adotou o Brasil para viver em 1966. Irmã Dorothy, como era conhecida, foi o pivô de uma disputa antiga no Brasil. Ela era defensora da reforma agrária, sustentabilidade e defesa do meio ambiente. Lutava bravamente em defesa dos mais empobrecidos e foi esse o motivo que a fez ser vítima brutal dos interesses dos grileiros e fazendeiros do Norte do Brasil.

A história de violência contra Dorothy Stang percorreu o mundo e chocou as pessoas pela forma covarde com que tentaram calar a idosa de 73 anos. Mas o efeito foi ao contrário: o assassinato ecoou ainda mais a luta entre os desiguais desse país.

Seu nome completo era Dorothy Mae Stang. Sua congregação era a das Irmãs de Nossa Senhora de Namur. Essa ordem existe em todo o mundo e possui cerca de 2 mil freiras, cuja principal missão é desenvolver trabalho pastoral junto às comunidades. A palavra pastoral vem de pastor. E o grande pastor para os católicos é Jesus Cristo. Portanto, fazer um trabalho pastoral, significa imitar o que Cristo fez no mundo atual.

E era esse o desejo de Dorothy Stang ao escolher seguir a vida religiosa em 1948, com apenas 17 anos. Depois de 8 anos de estudo, aos 24 anos, Dorothy encerrava um ciclo de estudos e dedicação para finalmente fazer seus votos perpétuos. Na congregação das Irmãs de Nossa Senhora de Namur, os votos perpétuos são: pobreza, obediência e castidade. O primeiro significa que o religioso abre mão dos bens materiais em prol da missão de evangelizar; o segundo é saber abrir mão das suas vontades e se tornar um instrumento do Espírito Santo; já o terceiro é oferecer-se a Deus em sacrifício aos desejos do corpo para ter mais liberdade de afeto.

E foi durante seu exercício religioso que ela descobriu uma de suas paixões: ensinar. Entre os anos de 1951 e 1966, a irmã Dorothy Stang foi professora nas escolas da própria congregação das Irmãs de Nossa Senhora de Namur em diferentes lugares dos Estados Unidos. A irmã lecionou os valores cristãos em St. Victor School, que fica em Calumet City, no estado de Illinois; em St. Alexander School, na Villa Park, também no estado americano de Illinois e Most Holy Trinity School, na cidade de Phoenix, no estado do Arizona. Ela ocupou essa função até o ano de 1966 quando decidiu que sua missão seria no Brasil.

O ano era 1966 e a irmã Dorothy Stang escolheu o Brasil para realizar a sua missão. O destino escolhido foi à cidade maranhense de Coroatá. A proximidade da região com o Norte brasileiro fez com que a religiosa acabasse voltando o seu trabalho para a Amazônia. Irmã Dorothy estava presente na Amazônia desde a década de setenta junto aos trabalhadores rurais da Região do Xingu.

Sua atividade pastoral e missionária buscava a geração de emprego e renda com projetos de reflorestamento em áreas degradadas, junto aos trabalhadores rurais da Transamazônica. Esses trabalhadores foram os responsáveis por construir a BR-230, conhecida como Rodovia Transamazônica, iniciada em 1969 por ordem do presidente Médici. Com 4.223 quilômetros, ela sai do estado da Paraíba até a cidade de Lábrea, no estado do Amazonas. Sua extensão corta 7 estados brasileiros: Amazonas, Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará e Paraíba. O papel da irmã Dorothy junto a esses trabalhadores era de extrema importância, pois ela atuava em defesa dos conflitos sociais.

A história da irmã Dorothy se confunde com a de muitos trabalhadores nordestinos. Em uma época difícil para os mais pobres, eles acabaram migrando para o Pará de olho na oferta de trabalho da Transamazônica. Foi então que a irmã Dorothy também decidiu ir para o Pará em 1982 e se fixou na Vila de Sucupira, no município de Anapu. De acordo com uma amiga e missionária da religiosa Rebeca Spires, em entrevista à Agência Brasil, Stang disse: “nosso povo está migrando para o Pará. Vamos  também. A gente não pode deixar o povo ir embora e ficar aqui”, “Foi por esse motivo que viemos”. Ainda à agência, a religiosa Rebeca Spires lembrou o pedido que escutou da irmã Dorothy: “você tem que aprender a Bíblia em português, mas tem que aprender o Estatuto da Terra, porque nós trabalhamos com lavradores e eles têm que saber como defender seus direitos. Os direitos que a lei reconhece, a gente tem que conhecer e ensinar o povo para eles saberem como batalhar por si. A gente não vai ficar a vida inteira batalhando por eles, eles que têm que fazer”.

E esse era o lema da irmã Dorothy: atuar nos movimentos sociais no Pará e intermediar os conflitos fundiários. Ela fez parte da Comissão Pastoral da Terra ainda na sua fundação e liderava os diálogos entre as lideranças locais, políticas e religiosas. Durante esse tempo, a religiosa fundou a primeira escola de formação de professores em Anapu, a Escola Brasil Grande.

Irmã Dorothy levou sementes de cacau (nativo da região) e promoveu o consórcio com outras espécies: açaí, castanha, banana… Ela trabalhava a favor da implantação do Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança em comunidades extrativistas da região. O assentamento batizado com o sugestivo nome de Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança se desenvolveu a passos largos. Para resumir, ajudou a região a se tornar uma das maiores produtoras de cacau do Brasil. A floresta ocupou o lugar do pasto. A melhoria econômica foi tão rápida, que até hoje não foi vista em nenhum outro assentamento na Amazônia.

Isso ia de encontro com os poderosos da região que por diversas vezes a ameaçaram. Segundo uma testemunha que viu o crime acontecer, ao ser abordada pela dupla de assassinos, a irmã mostrou a bíblia e disse: “eis a minha arma” e ainda leu alguns trechos do livro sagrado, em seguida seu algoz, Rayfran das Neves Sales, lhe matou com seis tiros, sendo um na cabeça e outros no restante do corpo. Tudo isso assistido pelo seu comparsa, também pistoleiro, Clodoaldo Batista.

O corpo da missionária está enterrado no município que ela escolheu para defender “os pobres mais pobres”, como ela mesma se referiu ao pedir autorização do bispo para trabalhar em Anapu, no Pará. Por conta do seu trabalho, Dorothy foi ameaçada várias vezes e uma das suas frases mais famosas foi a que falou em relação a essa perseguição: “não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”.

Quando o procurador Felício Pontes Jr, do Ministério Público Federal, falava que solicitaria segurança, ela recusava: “A segurança deveria ser para todo o nosso povo”, dizia. E completava que não tinha filhos nem netos. Se tivesse que acontecer uma morte, que fosse ela a vítima. Ai ela se enganou. No dia de seu enterro, havia homens e mulheres com a mesma idade dela (73 anos), jovens e crianças, que choravam como se tivessem perdido a mãe.

Irmã Dorothy… Presente na Caminhada!

 

 

Michele Corrêa*

*Graduanda em Filosofia na UFPel, Feminista Negra,

Assessora da Pastoral da Juventude (PJ) e

Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

 


Referências:

https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2018/08/dorothy-galileu.html

https://www.estudopratico.com.br/quem-foi-dorothy-stang/

https://www.brasildefato.com.br/2018/05/25/justica-manda-soltar-assassino-de-dorothy-stang/