Santidade e marginalidade (artigo de Luiz Carlos Susin)

14 de fevereiro de 2019
Autor
ICPJ

Santidade e marginalidade[1]

Luiz Carlos Susin

 

Depois de contar a parábola dos dois filhos – o que disse que faria a vontade do Pai mas na verdade não fez, e o que disse que não faria e afinal acabou fazendo – Jesus conclui com uma afirmação escandalosa para a religião formalista de todos os tempos: “Em verdade vos digo que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Pois João veio a vós no caminho de justiça, e não crestes nele. Os publicanos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, vendo isto, nem sequer reconsiderastes para crer nele, afinal” (Mt 21,31b-32). Atendo-nos aos critérios evangélicos de Jesus, O Reino de Deus e a entrada nele determinam a santidade cristã. E aqui está o escândalo: Jesus constata mais santidade em prostitutas do que em chefes da religião dos quais se poderia esperar o melhor exemplo. É disso que trata este artigo: começando fenomenologicamente por alguns casos de “santas prostitutas” do catolicismo popular, constata esta santidade em meio à promiscuidade e à violência em nossos dias, e amplia para uma reflexão sobre a conexão entre santidade e marginalidade, o que integra o escândalo e a loucura que está no coração da fé e da experiência cristã de santidade (cf 1Cor 1….).

 

  1. As “santas prostitutas” do sul do Brasil.

 

Um estudo de antropologia social dedicado especialmente ao fenômeno de “evhemerização”[2], ou seja, de canonização mítica de pessoas de carne e osso, é nosso ponto de partida para uma reflexão sobre a conexão entre santidade e marginalidade. Trata-se de três casos de devoção popular no Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, Estado que tem fronteiras com Uruguai e Argentina. O autor intitula seu estudo de antropologia com uma expressão incomum: “As santas prostitutas”.[3] Na base da devoção, pesquisa três mulheres que não são exatamente nem santas e nem prostitutas, mas uma mistura de ambas as realidades, vidas fora das normas institucionais para serem consideradas vidas corretas segundo a sociedade; e, no entanto, vidas de certa santidade reconhecida pela solidariedade, bondade, socorro aos pobres e aflitos ainda em vida e por milagres e graças alcançadas após a morte.  

Um pouco de informação: na fronteira do Estado brasileiro do Rio Grande do Sul com Argentina, na cidade de São Borja, de origem missioneira e jesuítica, encontramos a expressiva devoção a Maria do Carmo. Na cidade de São Gabriel, no centro do Estado, a devoção acontece em torno da memória de Maria Isabel, também chamada simplesmente “a guapa”, por ser ela muito provavelmente de origem uruguaia e ter seu apelido espanhol pelo fato de ser “bela”. A terceira pode ser encontrada na capital do Estado, em Porto Alegre, numa vila (favela) que leva seu nome, Maria da Conceição (também chamada por muito tempo Maria Degolada, indicando a forma violenta de sua morte). Esta vila se localiza, ironicamente, no bairro denominado Partenon.[4]

O que elas tem em comum historicamente? As três viveram no final do século XIX e inícios do século XX, numa mesma região que se estabelecia com grande presença e força militar. Além de serem todas “Marias” numa cultura cristã que remete à mãe de Jesus, as três se não foram exatamente prostitutas, foram promíscuas e amantes de militares. Duas foram líderes de bordéis, tendo se caracterizado pelo cuidado quase maternal com as “meninas” de seus bordéis, e tendo utilizado sua influência e recursos em favor de crianças e de pessoas pobres e em necessidades. As três foram consideradas, além de boas pessoas, muito belas, o que provocou ciúmes fatais, e acabaram morrendo jovens e de forma violenta, assassinadas com requintes de crueldade, por faca ou arma de fogo, por parte de seus amantes ou a esposa de um deles em ataque de ciúmes. Suas mortes foram consideradas uma injustiça que clama aos céus por parte da população mais pobre.

E o que as três têm em comum na “evhemerização” ou “canonização” de suas histórias trágicas? Salta aos olhos o aspecto de “Curador ferido” na compreensão e na procura popular em relação a estas três Marias.[5] Provavelmente a beleza, aliada à juventude, tenha se acentuado na fantasia religiosa – “não há santa feia”, diz de passagem nosso antropólogo – mas a bondade e a injustiça de suas mortes é que permitiram uma identificação e um recurso à compaixão delas diante das violências sofridas por seus devotos. Por isso, todas tem lugar fixo de culto – uma capelinha – com data de homenagem, velas e flores, placas de agradecimentos anônimos por graças alcançadas. Todas coincidentemente são homenageadas com pinturas brancas e azuis, cores que lembram a Imaculada, sendo Maria da Conceição, a degolada, homenageada em sua capelinha justamente no dia da Imaculada, 08 de dezembro. Embora todas tenham sido mulheres “brancas”, no imaginário popular elas são representadas também como morenas ou, no caso da degolada, inclusive “negra” em uma vila de Porto Alegre que é reduto histórico de descendentes de negros escravos. Além disso, trata-se de três mulheres que sofreram nas mãos de homens e militares: são, sobretudo, mulheres em aflição que recorrem a elas. O nosso autor, que as estudou de um ponto de vista antropológico, além de constatar nesses casos o “poder dos humildes” e a mater misericordiae pronta a socorrer nas aflições parecidas com as que elas mesmas conheceram em suas vidas e mortes, acrescenta:

A prostituição e até a simples promiscuidade violam a norma social do grupo. Os devotos das santas-prostitutas em nenhum momento esquecem a condição de desviantes de Maria do Carmo, de Maria Isabel, a “Guapa” ou de Maria Degolada. Antes pelo contrário: salientam este fato como se dissessem: ‘Sim, ela era prostituta, mas…’ para enfatizar o fato que graças à sua santidade aos olhos de seus devotos, essas trágicas mulheres superaram o desvio. E essa superação dá uma esperança a todos, obviamente, ao ‘provar’ que, pelo exercício daquelas qualidades e valores erigidos pelo grupo como positivos, isto é, idealizados, qualquer um dos membros do grupo também pode alcançar o perdão divino, por muito que tenha infringido a norma (…). Parece que nas camadas mais desfavorecidas da população, as pessoas, desde que disponham de opção, querem santos e santas que se identifiquem com elas, pobres e pecadores, viciados e vítimas, mas de coração puro (…) e que tenham enfrentado o poder e padecido sob ele, morrendo de forma socialmente traumatizante. E que, desde o paraíso que se asseguraram por terem sido bons em vida, amigos das crianças e dos pobres, e pelo martirológio, não tenham se esquecido do bairro ou da comunidade onde outros pobres continuam vivendo e enfrentando os mesmos problemas. É mais fácil falar com uma santa assim: não há cobrança nem ameaças (…). A santa não se escandalizará com os pecados do crente, porque em vida ela também cometeu esses pecados, ao contrário da Virgem Nossa Senhora e de outras santas oficiais das Igrejas. (…) E mais: as santas-prostitutas compreendem o povo, porque fizeram parte dele. Sabem de seus problemas, de suas angústias – e tem força para atender os seus pedidos. Os quais, de resto, são simples questões de amor, de saúde, de emprego ou de família, invariavelmente. Essa é a etiologia das santas-prostituas.[6]

Flores em meio ao pântano, inocência em meio à violência, pureza junto à promiscuidade e à prostituição: relatos parecidos encontram-se em muitas latitudes. Para ficar ainda na região, encontra-se no norte da Argentina, na província de Corrientes, perto da cidade de Mercedes, a devoção ao “Gauchito Gil”, cujo núcleo histórico remonta a uma importante guerra que envolveu os países da região na metade do século XIX. Acabada a guerra, continuava a proliferar a violência em partidos políticos. Gil desistiu então, como um objetor de consciência: não queria violência fratricida. Por isso foi sumariamente processado como desertor e enforcado. E então começou sua “canonização”: fez um gesto de misericórdia para com seu algoz curando-lhe o filho, e a partir deste sinal de santidade, ele é o vingador, o go’el, dos que são violentados, protetor dos que são ameaçados de violências de toda sorte.

Voltando ao lado de cá da fronteira, e ampliando as formas de santidade reconhecidas por uma população devota à margem oficial da Igreja: as figuras mais enigmáticas da complicada identidade “gaúcha” são tanto indígena como negra, ambas com fama de santidade e objetos de difusa devoção popular. O índio Sepé Tiaraju, líder guarani da missão jesuítica que foi objeto do filme “The Mission”[7], morto em combate sob os exércitos coloniais de Espanha e Portugal, interpretado como um predestinado, portador de um sinal na cabeça que resplandece como uma estrela que, em sua morte violenta e injusta, sobe ao céu e se fixa no firmamento austral. Daí seu nome, “Tiarajú”, que significa “raio de luz”. Ele dá nome a vilarejos, ruas, monumentos, estabelecimentos comerciais, postos de gasolina, lancherias, rádios, centros de cultivo das tradições gaúchas, e inclusive a uma cidade da região, sempre com o título de santo. Se São Sepé Tiaraju passa da história à hagiografia mítica e prodigiosa, a outra figura é inteiramente mítica, a mais bela narrativa do sul do Brasil e talvez da literatura portuguesa: o Negrinho do Pastoreio um menino escravo morto sob os golpes de seu amo.  É a mais pura imagem do servo inocente e sofredor que resgata seus algozes e se torna figura de redenção. Seus devotos e qualquer pessoa que precisa reencontrar o que perdeu lhe acende uma vela, seguindo no rito o que é narrado no mito. Mas o mais importante é que no chã duro da história este Negrinho é figura representativa de todo um povo negro de fato escravizado, sofredor inocente, disperso e moribundo desde a infância nesta terra de senhores cruéis. A narrativa é um hino de reconhecimento de dignidade e santidade de milhares de negros que perderam suas vidas no trabalho terrível de transformar a carne de gado em carne de sal e sol para serem transportadas para as metrópoles europeias, as “charqueadas”.

Evidentemente nenhuma destas santas – e santos – é de interesse da Igreja, nem cabe nos cânones oficiais de santidade. São santos marginais para gente marginal, próprios do catolicismo popular sem clero e tecido de elementos sincréticos. A literatura bíblica e cristã, desde Raquel, a mulher idólatra e cheia de barganhas que Jacó amava mais que todas, enterrada fora do túmulo de família e, no entanto, mãe compassiva de todo o povo de Israel, mesmo da descendência das outras mulheres, passando por Tamar, que se fez de prostitua para ser fiel ao marido morto e dar-lhe descendência, uma descendência da qual provém o próprio Jesus, até modernamente Os miseráveis de Victor Hugo, O advogado do diabo de Morris West, ou Fim de caso de Graham Greene, ou mesmo a autobiografia de Jean-Yves Leloup, O absurdo e a graça, a verdade que a melhor literatura narra emerge desta dialética de pântano e flor, de pecado e graça, de errância e misericórdia, enfim de solidariedade na miséria e na fragilidade, de compaixão como forma mais humana e divina da santidade. Agostinho, com suas confissões talvez seja o caso mais clássico assimilado pela história cristã.

 

  1. A mística feminina de “mulheres todas santas”.

 

As últimas décadas do século XX se caracterizaram por uma movimentação de mulheres através das periferias das grandes e pequenas cidades brasileiras incentivadas pelo clima participativo das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs), pela Teologia da Libertação, pelas pastorais sociais da Igreja Católica e de algumas outras Igrejas históricas. Acrescente-se a isso uma popularização da leitura bíblica com interpretação engajada, e o que ocorreu foi a emergência de mulheres com crescente força de liderança popular motivadas por uma mística bíblica e cristã surpreendente. Mesmo quando a Teologia da Libertação começou a ser sistematicamente desautorizada e as Cebs baixaram seu entusiasmo, a liderança de mulheres do povo permanece firme em conexão especial com clubes de mães e com a Pastoral da Criança. Esta Pastoral surgiu na década de 1980, por inspiração do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns à sua irmã pediatra que acabou morrendo no terremoto de Port-au-Prince, Haiti, em 2010.  Embora a Pastoral da Criança, levada adiante basicamente por um exército de mulheres muito humildes e inclusive muitas pobres, tenha se burocratizado perigosamente a partir de seu centro, e tenha sofrido tensões por conta de manipulações políticas, nas periferias dos centros urbanos permanece viva e com grande criatividade e capacidade de adaptação e ampliação graças à atuação capilar de mulheres em suas comunidades ou bairros.[8]  

Para fortalecer os engajamentos pastorais das mulheres nas Cebs, nos clubes de mães e nas pastorais sociais, algumas lideranças na região de Porto Alegre promovem encontros periódicos que primeiramente foram chamados de Pastoral da Mulher Pobre e depois, advertido o aspecto negativo do título, chamaram-se encontros de Mística Feminina. Hoje tais encontros estão abertos à participação masculina e de jovens, mas continuam se caracterizando pelos relatos de solidariedade, de criatividade e de mútuo estímulo entre mulheres com liderança em meios populares de bairros de periferia. As narrativas partem de experiências em ambientes de grande pobreza, sofrimentos e até de degradação, com intervenções sem grandes recursos mas extremamente criativas. Isso repercute na mística, na autoimagem, no aumento de entusiasmo em torno de missão. Em outras palavras, as mulheres expressam um crescimento na fé e na esperança, uma visão afirmativa de si mesmas com aumento da autoestima, um incentivo a que mais mulheres sigam este caminho.

Especificamente, observo de perto as mulheres líderes da Pastoral da Criança da Vila Maria da Conceição, referida acima entre as santas-prostitutas. Algumas têm filhos cooptados pelo tráfico de drogas, algumas têm filhos ou parentes jovens assassinados, outras precisam visitar seus filhos em presídios. Algumas estão criando as crianças de parentes ou vizinhos presos ou que morreram ceifados pela Aids. Por razões de sobrevivência afetiva algumas têm filhos de diferentes pais, mas estão quase todas separadas. Em sua grande maioria são pobres, vivem em casinhas mal construídas, onde falta qualquer conforto, vestem como podem, num ambiente feito esteticamente de arranjos e remendos. Trabalham como diaristas, faxineiras, cozinheiras, atendentes de bar, de posto de gasolina. São quase todas negras, provindas da dilaceração tricentenária provocada pela escravidão de seus ancestrais e sofrendo formas sutis de discriminação por causa da cor de sua pele. Por ser um centro de narcotráfico, elas sofrem com toda a vizinhança a truculência da polícia que as acorda aos gritos, rompe suas portas com os pés e invade arbitrariamente seus pequenos domicílios. No entanto: estão prontas para o trabalho com as crianças, para reunir as mães e tratar de assuntos de resgate de suas vidas material e moralmente. Tem uma enorme facilidade para o humor e para a ação solidária. Adaptaram dois “lemas” para sua mística local: “carregar os fardos uns dos outros – é cumprir toda a lei de Cristo”(Cf. Gal 6,2); “A gente faz o que pode” – faz-se tudo o que está ao alcance, mas uma vez que se faz o que se pode, se tem razões para ficar feliz sem sentimentos de culpa, sem cobranças. É uma questão de sobrevivência interior.

Estas mulheres descobriram que tudo o que se dá aos demais também se recebe em dobro, em humanidade e entusiasmo – na linha do cêntuplo evangélico. E, sobretudo, descobriram que há um dom no qual não são inferiores a quem tem muitos recursos para dar: o dom do tempo. Elas sabem por experiência diária que, para “carregar os fardos uns dos outros” seria muito bom ter dinheiro, conhecimentos, recursos. E que só conseguem estar juntas para carregar a tristeza da impotência diante da dor, do crime, da perda, da falta de recursos. Mas o dom do próprio tempo, de forma gratuita, depois do trabalho ou no final da semana, é, na experiência delas, o dom mais rico que pessoas ricas não têm a mais que elas. Dar de seu tempo nos domingos, nas horas extras, tornou-se a prova maior de seu amor.  

Enfim, em meio à agressividade do ambiente físico e psicológico, utilizando frequentemente de palavras duras e puxões de orelhas para manter um mínimo de ordem, estas mulheres, em suas ações solidárias, tem certeza de que amam as crianças e a comunidade, e sabem que são respeitadas e queridas. Ocorre-me perguntar, olhando para elas em reuniões, ou na liturgia em que tomam a palavra, em todo momento de bom humor, se elas não são a continuidade viva das santas-prostitutas que precedem no Reino de Deus, filhas de Maria, não mais da associação de fita azul e terço na mão, mas das Marias da vida, das santas-prostitutas e das Marias do evangelho que providenciavam recursos para o grupo de Jesus (Cf. Lc 8,1-3)

Em 2005, por ocasião da quinta edição do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, estas mulheres foram participar alegremente das oficinas oferecidas numa tenda especialmente organizada por feministas lideradas pela Marcha Mundial das Mulheres, um espaço que foi chamado “Planeta Fêmea”. Diante dos discursos sobre construção de gênero, sobre o próprio corpo, sobre aborto, etc. elas foram se retirando, repetindo umas para as outras: nós criamos até os filhos dos outros! Nossa autoestima está em nosso trabalho com a comunidade, com as crianças! E riam por não entenderem tais discursos feministas.  

 

  1. Santidade e marginalidade: a misteriosa conexão.

Esta realidade nos remete à santidade jesuânica, um “judeu marginal” (John Meier), que proveio de um povoado desanimador, que se deixou tocar por impuros e sentou-se com pecadores, que teve entre seus seguidores mulheres e discípulos de má fama, e que afinal morreu crucificado entre malfeitores. Se ele é o cânone por excelência da santidade cristã florescida em Israel, é também verdade que Israel foi um caminho tortuoso que desabrochou nesta santidade tipicamente jesuânica. De fato, pode-se fazer aproximações etimológicas estimulantes: Israel – o que luta com Deus ou simplesmente Deus luta – como Abraão e Isaac, são hebreus, os que andam atravessando fronteiras, separados e à margem. Essa mesma conexão etimológica pode ser encontrada na santidade das coisas do culto: santificado – de kadosh – é o que, por causa da santidade transcendental de Deus, está separado, posto à margem. É verdade que, neste caso, a santidade tem o sentido de separação para manter a pureza e a integridade em respeito ao transcendente. Mas esta santidade com sentido de pureza e integridade pode ser unida ao sentido de hebreu, o errante e desgarrado às margens das cidades e povoados da Canaã? Claro: Em Jesus, em seus discípulos, nas santas-prostitutas, nas líderes de pastoral da Vila Maria da Conceição, esta conexão é legítima. Este é o cânone cristão, mais jesuânico do que eclesiológico.

Exatamente por viver no mesmo espaço de traficantes, pequenos e alguns grandes criminosos, em meio à violência sempre iminente, gente de página policial, muitos moradores da Vila Maria da Conceição me explicaram reiteradas vezes que eles são “marginalizados” mas não são “marginais”, que entre eles há marginais – os que se decidem por uma vida de crimes – mas nem todos. A verdade é que, justamente  na condição de marginalizadas, as lideranças da Pastoral da Criança, no entanto, resgatam outros marginalizados, especialmente as crianças, como precenção de se tornarem marginais. Elas são redentoras inclusive “por preservação”, tal como a Imaculada na teologia de Duns Scotus! São verdadeiras seguidoras do Messias. Participam de sua santidade sem beleza e sem poder, sem enfeites e sem consciência de uma vida de perfeição. Quando se fala da santidade das que já morreram, elas se comovem em sua convicção, mas se ouvem falar que elas portam também uma verdadeira santidade, elas riem. Sabem que não cabem nos cânones que se tem a respeito dos santos e sobretudo das santas, que estas devem ser belas, puras, recatadas, com tempo para cultivo da vida de oração, tudo o que elas sabem que não são nem nunca vão conseguir ser. Em sua experiência pragmática, sincrética, simplesmente amam a Deus – às vezes brigam com Deus a partir de sua fé – e amam as crianças, amam o que fazem. E quando, em meio à liturgia, lembram seus vivos e mortos, rezam por criminosos que ajudaram as crianças, que morreram mal, ou rezam não só lembrando suas santas preferidas, como Santa Bakhita, mas também Maria Degolada, já fazendo oração de pedidos a ela.

A quem muito ama, muito se perdoa e vice-versa (Cf Lc 7, 47), e quem muito ama tem o essencial da santidade cristã. A marginalidade é o lugar da prova do amor desnudado, kenótico, sem normas nem enfeites nem consolos, em que a santidade resplandece sem ideologia e sem interesse, em estado puro. Esta é paradoxalmente, a pureza realista da santidade cristã: na marginalidade própria de Cristo, “o mesmo, ontem e hoje; ele o será para a eternidade! (…) para santificar o povo por seu próprio sangue, sofreu do lado de fora da porta. Saiamos, portanto, ao seu encontro fora do acampamento, carregando a sua humilhação” (Hb 13, 8;12-13) – na marginalidade social, onde as prostituas nos precedem no Reino.

[1] Este artigo foi bublicado na Revista Concilium, sobre “Santos e santidade hoje”, n.351 (2013/3).

[2] Esta palavra provém do nome do escritor grego, Evhêmeros, contemporâneo de Alexandre (316 AC), cujo ensinamento era de que os deuses tinham sido antes humanos, e que se tornaram deuses por suas qualidades especiais enquanto humanos. 

[3] FAGUNDES Antônio Augusto, As santas prostitutas. Um estudo de devoção popular no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1987. O autor é um conhecido folclorista, poeta, pesquisador. Para este livro, que corresponde à sua dissertação de mestrado, ele dedicou anos de pesquisa em torno do sentido social da religião e pesquisas de campo.

[4] Nesta vila de Porto Alegre, eu mesmo, já com vinte e cinco anos de acompanhamento pastoral, tenho conhecimento direto do assunto com certa profundidade. 

[5] O “Curador ferido” diz respeito, sobretudo, ao personagem mítico Quíron, metade animal e metade humano e sábio, o centauro educador de Hércules, ferido pelo discípulo em sua parte animal, que toma recurso de sua própria ferida para curar a outros. Ultimamente tem chamado a atenção da psicanálise, da psicoterapia, da psiquiatria e também da psicologia social. Lembra também o “Servo Sofredor de Javé”, que carregou nossas enfermidades e por cujas chagas somos curados. Na tradição africana Yourubá, a narrativa em torno do orixá Xapanã ou Obaluaiê, senhor das doenças, nos aponta para a mesma estrutura do Curador ferido.

[6] Ibidem p97-98.

[7] O filme britânico de 1986, dirigido por Roland Joffé e sonorizado por Ennio Morricone, foi premidado nos mais importantes festivais de cinema.

[8] Cf. o estudo de campo e teórico detalhado em DOS ANJOS Gabriele, Mulheres todas santas: participação de mulheres em organizações religiosas e definições de condição feminina em Igrejas cristãs no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: fundação de economia e estatística Siegfried  Emanuel Heuser, 2009.