Quanto vale uma vida?

27 de agosto de 2020
Autor
Frei Vanildo Luiz Zugno OFMCap

Frei Vanildo Luiz Zugno OFMCap

 

A pergunta parece, à primeira vista, não fazer sentido. Preço, tem as coisas. A vida humana é absoluta. É impossível estabelecer o preço de uma vida. Impossível, mas nem tanto…

Se olharmos para trás, para nossa história, há pouco mais de cem anos, vidas humanas eram cotadas no mercado como qualquer outra mercadoria. Em 1846, um  homem escravizado comum valia, no mercado brasileiro, em média, 350 mil-réis. Era o equivalente a 30 sacas de café. Um escravizado capaz de um trabalho qualificado valia o dobro, ou seja, 60 sacas de café. Trinta anos depois, em 1875, as restrições ao tráfico de seres humanos impostas pela Inglaterra, fez com que o valor de um humano escravizado subisse 235%, alcançando a cotação, no mercado carioca, de 1 conto e 256 mil-réis para os machos e 1,106 contos de réis para as fêmeas. Na época, 1 quilograma de ouro era vendido por 1 conto de réis. Ou seja, uma vida humana valia um quilo de ouro.

Tais constatações nos espantam e, para alguns, até podem causar horror. Mas são nosso passado e, por que não, também o nosso presente. Quanto vale uma vida? Concretamente, quanto vale a vida do trabalhar do hipermercado que, acometido por um mal súbito, cai morto e seu corpo, tombado no chão, foi tapado por guarda-sóis para que o negócio não parasse? A vida daquele trabalhador não vale um dia de comércio fechado. Mais vale o faturamento diário que a vida toda daquele homem. Afinal, na fila, há milhares esperando para ocupar a vaga do tombado ao chão. Nem há necessidade de traficá-los da África. Eles já estão aqui.

Mas não nos espantemos! Como diz a propaganda, tudo tem seu preço e pode ser pago com cartão de crédito. Ou, para não ter problemas com a receita, em dinheiro vivo transportado em malas ou depositado parceladamente num caixa eletrônico de um shopping center. Hoje, como no séc. XIX, mesmo que seja cruel dizê-lo e admiti-lo, as vidas humanas têm preço. E, como no tempo da escravidão, há quem está disposto a pagar por elas. Outros sentem-se feliz e realizados em comercializá-las. E outros, estes a grande maioria, são obrigados a vendê-las num mercado em que este “produto” é subvalorizado.

É preciso resgatar o valor absoluto da vida humana. De cada vida e de todas as vidas. Não há nada que possa ser trocado por uma vida. Uma vida só pode ser entregue se for para resgatar outras vidas das modernas escravidões. É o que fez Jesus. E, no seu seguimento, bem perto de nós, Chico Mendes, Margarida Alves, Santo Dias da Silva, Pe. Ezequiel Ramin, Irmã Dorothy, Irmã Dulce, Dom Pedro Casaldáliga e tantos santos e mártires do povo brasileiro.

São vidas que não tiveram preço, mas tem o apreço daqueles e daquelas pelas quais foram dadas. Por isso, são vidas eternas.