O malabarista diante do presépio

21 de dezembro de 2018
Autor
Marcos Antônio Corbari
O que faria um simples aprendiz de malabares diante do Menino Jesus? Um conto de Natal, escrito pelo jornalista Marcos Corbari, para a Rede Soberania e  Instituto Cultural Padre Josimo. Ilustração de Alexandre Beck.
 

Guiados pela luz da Estrela Guia, três reis de nações ao oriente viajaram até Belém, para prestar suas homenagens ao Menino Jesus. Eram acompanhados por uma comitiva de pagens, levaram consigo provisões para a longa viagem e presentes nobres para oferecer ao recém-nascido. Em seu caminho, anunciaram a boa nova a muitos viajantes com que cruzaram na estrada.

A certa altura, passaram por uma caravana de artistas mambembes que se deslocavam de uma cidade à outra para entreter as pessoas com seus números de malabares. Um jovem aprendiz que acompanhava a caravana ficou encantado com a notícia, deixou seus pares de lado, e seguiu os passos dos três reis, levando consigo apenas as bolas que utilizava em seu treinamento.

Chegando em Belém, uma vez diante da manjedoura onde repousava o Menino Jesus sob o olhar carinhoso da Virgem Maria e de São José, cada rei apresentou-se, citando a nação de onde veio e colocando aos pés do Menino os nobres presentes que traziam em seus baús: ouro, incenso e mirra.

O jovem malabarista ficou a distância observando. Sentia em seu coração uma vontade muito grande de também homenagear ao pequenino em seu berço de palha. Mas estava maltrapilho, sujo da jornada, tinha os pés machucados e não possuía sequer roupas limpas para se trocar. O mais grave, porém, em seu alforje não tinha mais nada a não ser as três bolotas de pano.

Triste, já ia retornando para a estrada, quando ouviu de longe o chamado de Maria. “E você, jovem? Não vai vir ver o nosso Menino?”. Cabisbaixo, respondeu que não: “Estou sujo senhora e não trago nenhum presente a oferecer”. Nesse instante o recém-nascido chorou, sendo acolhido ao colo pela mãe.

Atendendo ao aceno de Maria, o aprendiz aproximou-se e, num reflexo quase instintivo, sacou as bolotas e começou a jogá-las para cima com alguma habilidade, para entreter a criança. Até que tropeçou, caiu sentado e as bolotas bateram uma a uma em sua cabeça, ricocheteando para longe. Cheio de vergonha, encolheu-se, sendo ajudado por José a juntar seus instrumentos de trabalho e levantar-se. Uma vez em pé, Maria estava ao seu lado e o Menino, no colo, sorria alegremente estendendo os bracinhos em sua direção.

No dia em que três Reis visitaram Jesus recém-nascido, foi o humilde aprendiz de malabares o único que por alguns instantes, teve a honra de segurar em seus braços o Menino que, conforme anunciava a profecia, seria o Rei dos Reis. E todos, naquele instante, foram contagiados por um forte sentimento de alegria.

 
 
(livre-adaptação do conto “O Jogral de Nossa Senhora”, originalmente publicado pelo escritor Paulo Coelho)
 
Marcos Corbari
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