
O portão não era de ouro, como tantos imaginaram em vida. Era simples. Antigo. Marcado pelo tempo — como se tivesse sido atravessado por gerações de gente que viveu mais para os outros do que para si.
Do outro lado, Frei Sérgio chegou sem alarde. Sem trombetas. Sem anúncio. Como sempre fez na terra: chegando aonde o povo estava.
Trazia no corpo o cansaço bom de quem gastou a vida inteira. Nos olhos, ainda acesa, a chama teimosa dos que nunca aceitaram a injustiça como destino.
Mais adiante, entre o povo, estavam os mártires da terra: Padre Josimo, Irmã Doroth, Chico Mendes. Ana Primavesi também estava ali, mãos ainda sujas de terra boa, como quem nunca deixou de semear.
A própria Nossa Senhora, encarnada na visão de Aparecida, preta cor de povo, sem coroa nem manto bordado, tal qual o frade sempre amou e venerou. Ao seu lado o próprio santinho Francisco de Assis, que foi mais que padroeiro, foi pai de vocação e compadre de causa.
E havia mais. Muito mais.
Gente sem nome em livro algum. Gente de roça, de beira de estrada, de periferia, de ocupação. Pequenos e pequenas, aqueles com quem ele caminhou — e por quem viveu. Todos com os braços abertos. Todos com um sorriso que não cabia no rosto.
Mas, curiosamente, ninguém se movia. Como se aguardassem. Como se soubessem que aquele primeiro gesto não lhes pertencia.
Então, aos poucos, a multidão começou a se abrir. Um caminho se fez. Silencioso. Respeitoso.
E foi por ele que veio caminhando um homem de manto simples. Os pés descalços traziam marcas antigas. As mãos também. No olhar, uma mistura impossível de doçura e firmeza — a mesma que Frei Sérgio buscou a vida inteira reconhecer nos rostos do povo.
Não havia dúvida. Era Ele.
Jesus se aproximou devagar. Frei Sérgio, ao reconhecê-lo, baixou os olhos. Não por medo — mas por humildade. Aquela humildade de quem sempre soube que a luta não era sua, mas maior que ele. Jesus então levantou a mão e, com um gesto leve, tocou seu rosto.
— Bem-vindo, Sérgio.
A voz não era forte, mas atravessava tudo. E quando parecia que o abraço finalmente viria, Jesus sorriu — aquele sorriso que desarma o mundo — e disse, quase em segredo:
— Antes… olha.
Frei Sérgio ergueu o olhar. E viu.
Conduzida de mãos dadas pelo Senhor havia alguém que caminhava com uma pressa que não era ansiedade, mas amor antigo. Pela mão de Jesus.
Dona Jurema. Sua mãe. Inteira. Viva. Radiante. Como se o tempo nunca tivesse ousado tocá-la.
Por um segundo, o céu inteiro pareceu prender a respiração. E então não houve mais contenção possível. E no encontro dos dois, o mundo — todo ele — pareceu fazer sentido.
Dizem que, naquele dia, o céu viu algo raro. Um abraço tão verdadeiro que não cabia no corpo, nem mesmo nesse corpo celestial que agora ambos habitavam. Um reencontro tão profundo que apagava toda distância. E dois sorrisos que, ao se encontrarem, deixaram de ser dois. Viraram um só.
Atrás deles, Jesus observava. E sorria. Como quem reconhece, finalmente, que a vida vivida em amor — quando é inteira — nunca termina. Apenas chega em casa.
(*) Marcos Antônio Corbari é jornalista e comunicador popular. Trabalhou nos últimos 8 anos ao lado de Frei Sérgio em diversos projetos através do Movimento dos Pequenos Agricultores MPA) e Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ).
(*) Este texto é uma crônica literária opinativa, de responsabilidade de seu autor, não necessariamente representando a opinião do ICPJ.