O Brasil que eu quero para o Futuro

4 de julho de 2018
Autor
Frei Cirineu Bonini da Luz

 

Esta famosa frase veiculada com frequência nas inúmeras plataformas de comunicação de um grupo de comunicação, está “movimentando” o Brasil, sobretudo quanto ao que muitos dizem (não) querer ao país. “15 segundos” de múltiplas expressões, muitos desejos, e um destaque nas entrelinhas: acabar com a corrupção. Mas será isso possível? Para sair do mundo publicitário-midiático, onde muitos candidatos têm conseguido êxito, e fixar os pés na realidade mais que brasileira, proponho breve reflexão a respeito do que a médio prazo podemos vislumbrar no horizonte político brasileiro.

De pronto, sabemos que a “solução” para o Brasil não passa por uma campanha publicitária, disfarçada, e com objetivo puramente eleitoral. Mesmo fora do período concedido pela lei, a Rede Globo mais uma vez usa suas plataformas de mídia para enganar, mentir ao Brasil. Sua estratégia atual: primeiro colhe dados de todos os lados do país, e depois coloca no “plano de governo” de seu escolhido. Manipulando a opinião pública, continua defendendo seus interesses e os de seus correligionários. A questão é que falta o candidato. Ou até agora explicitamente não apareceu. Podemos esperar mais surpresas vindas por aí?

Não precisamos ir a fundo na análise de nossa breve história de nação, para sabermos que nossos problemas estruturais são muitos. Somos ainda “jovens” no quesito sociedade. Estamos aprendendo a nos relacionar e definir nossas causas mais urgentes. Precisamos ainda caminhar. Alguns dizem que o nosso problema é a educação. Outros, a desigualdade. Outros, ainda, a corrupção. Talvez, a necessidade de um maior reconhecimento da cultura nata do país, que não é apenas de origem europeia, e sim originária de várias matizes. Fato é que em todas as sociedades democráticas, a política automaticamente reflete o que está entranhado nas buscas comuns do todo social.

Liberdade individual, autonomia de pensamento, direitos e deveres, direito de propriedade, liberdade religiosa e de empreender, entre outros, são pressupostos que possibilitaram uma maior sinergia entre o individual e o coletivo social, formando um estado social. Até aqui tudo bem. As dificuldades começam, quando considerável parcela da sociedade fica à margem do poder de opinião e de decisão. Aqui é que a política adquire um papel essencial. Ela “zelando pelas coisas públicas”, dará o tom das demais decisões.

Já é sabido que para a virada ou a grande mudança política brasileira apenas virá com uma renovação do Congresso Nacional. Apenas recapitulando, há políticos que andam por Brasília já faz mais de 30 anos. Nos estados e nos municípios, algo não muito diferente. Ora, será que já não deram sua contribuição ao país? Além de apego afetivo ao cargo, os atuais deputados e senadores, salvo raras exceções, têm seus compromissos. Compromissos com quem “lhes fez favores”. Uma reprodução em escala menor dos lobbies de Waschington. No Brasil, em modo mais simplificado, temos as bancadas. Um exemplo crasso é a BBB: Bala-Boi-Bíblia. Tríplice turma influente nas decisões atuais. Soma mais de 300 entre os 594 Deputados Federais e Senadores. O seu nome já denuncia. Há interesse a ser defendido. Para o Brasil. Não. Apenas para setores específicos.

O Brasil é mais que agricultura e pecuária, fábrica de armamentos e cristãos evangélicos. Mas o que se vê é que decisões importantes no Congresso acabam beneficiando o interesse de poucos. Comprovam isso o projeto de lei 6299/02 na Câmara, autorizando a mudança do termo agrotóxico para “produto fitossanitário”, indo na contramão das grandes economias globais; e a compra (sem licitação) no montante de 1 bilhão de reais em equipamentos para suprir a intervenção militar no Rio de Janeiro. Isso não é corrupção? Ou um modo político “alternativo”? São os descalabros, mas interesseiros, que perpetuam um sistema de benefícios, histórico no Brasil.  

Corrupção, portanto, não é problema do século XXI. Nem do Brasil. Novos apaniguados surgem a cada dia, continuidade o grupo de amigos de Dom João VI, que com ele chegaram ao Brasil. É preciso dar um basta. A primeira e melhor forma é através do voto. O voto consciente poderá desencadear uma agenda reformista justa, não aos moldes como vem ocorrendo nos últimos dois anos. 2018, como ano de Copa do Mundo, seria o momento para amenizar a reação popular. Apenas como exemplo vejamos a Reforma Trabalhista: o que era para gerar mais emprego e “modernizar as relações de trabalho”, se está provando o contrário. A Reforma como foi feita aumentou o desemprego e a informalidade. O voto deposita a confiança num país melhor, mais justo e digno para todos, não para classes. É preciso despertar o gigante pela própria natureza. Acreditar que o país pode mais. O Brasil é referência mundial no sistema eletrônico eleitoral, no desenvolvimento e produção do etanol. Há sim esperança. Por isso o voto também é estratégia para quebrar expectativas. 2018, contrariamente ao Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), não potencializará o “fenômeno conservador, aumentando as bancadas ruralista, religiosa, empresarial e da bala”. Basta o eleitor se dar conta de seu poder, mas depois insistir numa ética ação dos políticos eleitos.

O Brasil precisa voltar a ter um projeto nacionalista de desenvolvimento. A onda neoliberal, aflorada recentemente pelo MBL e afins, insiste em seduzir e convencer de que privatizar, e não discutir o porquê privatizar; e o que vem de fora, sobretudo nos países desenvolvidos, é melhor. Mas, vimos anteriormente que o Brasil tem condições de se fazer por si mesmo. Tem recursos naturais e minerais, tem agricultura e pecuária forte, grande parque industrial, e grande mercado consumidor, tanto interno quanto externo. Não possui mais imposição de ajustes vindos do FMI e do Banco Mundial. Por que não?! Há homens na história que desafiaram as perspectivas e fizeram muito. Getúlio-Jango-Lula, como humanos erraram, mas deixaram muitos sinais positivos ao Brasil. Nas palavras da Carta-Testamento de Getúlio, “a campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho”, vemos uma realidade nada distante da atual. A Eletrobrás, a Petrobrás, não são alvo de cobiça atual. Já são a muitas décadas. Por isso é preciso resistir, mas ao mesmo tempo, avançar num projeto de nação soberana.

Por fim é necessário lembrar que o Brasil para o futuro começa agora. O voto deve ser um balizador de quem deve ter oportunidade de assumir a causa pública. Pessoas de condutas duvidosas devem ser vetadas pelo voto. Astros midiáticos, porém sem experiência pública, também. O caso de Donald Trumph é exemplar para que não venha a se repetir. O futuro do Brasil não passa por astros midiáticos, nem por reeleição de veteranos no cargos públicos. Passa pela tomada de consciência de que o povo pode e deve se interessar mais pelo Brasil. Aqui os movimentos de base têm muito a contribuir. Mais educação, mais saúde, mais oportunidades, mais justiça, mais igualdade social, surgirão de uma nação que tem reais possibilidades de ser protagonista nas relações internacionais. Não apenas um quintal, como muitos querem fazer dela fazer.

Este é o Brasil de todos e todas, que começa agora. Não do futuro!

 

Frei Cirineu Bonini da Luz é membro da Ordem dos Frades Menores do Brasil.