“A genialidade artística do filme de Kleber capta o esquecimento da ditadura de 1964, sem punição alguma. Esse esquecimento foi o ninho da serpente de outros dois golpes.”
Cristóvão Feil | Sociólogo

Gostei muito do longa do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto”. E recomendo.
Tem muito de “Bacurau”. Como ponto a ser elogiado em “Bacurau”, ressalta-se o mesmo clima de permanente tensão controlada e prolongada, que logrou êxito em “O Som ao Redor”.
Agora, Kleber consegue citar mais e mais influências e referências literárias e cinematográficas, ao ponto que o filme se transforme quase em um catálogo de paráfrases, metáfrases e citações/homenagens, muito na linha de Tarantino. Mas também de Fellini. E igualmente da literatura de Mário de Andrade, em Macunaíma, e dos labirintos de Franz Kafka.
O grande cineasta pernambucano – com esse filme se afirma como tal, com justiça e consideração – logra êxito já na abertura do filme.
A cena do cadáver no posto de gasolina, a figura do frentista gordo, felliniano, a chegada da polícia e a atmosfera abafada cortada pelo zumbido azucrinante das moscas é notável.
O ponto alto: o gordo míope ralha com a matilha de cães famintos que assediam o cadáver. Sem esquecer a pachorra vigarista dos policiais que achacam Marcelo (o excelente Wagner Moura), e revistam seu fusca amarelo em busca de algo para se apropriar corruptivamente, ignorando um corpo fétido logo ali ao lado.
Essa abertura de filme, em poucos minutos, encerra toda uma crítica aguda e pontual à ditadura civil-militar de então, ano de 1977. Um cadáver, cães famintos, e uma força pública corrupta que ignora o entorno trágico do real.
Vendo a cena e já embevecido, pensei: bem que o personagem Marcelo (Wagner Moura) poderia perguntar ao policial que o abordou no posto: – Você não vai verificar e retirar o cadáver daqui? Ao que o policial responderia: – Não sou coveiro!
Kleber, assim, forja a gramatura descritiva e artística que traduz o clima tenso, criminal, fétido e abafado de uma ditadura civil-militar que oprimiu por 21 anos. E que alguns milicos recentemente quiseram replicar no País.
O filme é pontuado de cacos os mais disparatados, conjugando aberrações, nonsense e o grotesco. Aí – digo eu – mora um pouco da influência de Tarantino em Kleber: ele resgata e eleva gêneros considerados “inferiores”, pulp ou filmes B, de baixo orçamento. Nesta hora, também lembramos de “Matar ou Correr” (1954), de Carlos Manga.
A introdução – talvez meio forçada – da lenda da “perna cabeluda” é um caco bem explorado. Distensiona o clima e acrescenta um hilário escrachado e crítico.
A cena noturna de um jardim das delícias da broderagem recifense e a “perna cabeluda” em atitude moralista e punitiva me pareceu adequada. É preciso mão muito firme para estas aventuras estéticas rombudas e kitsch. Aquilo que Susan Sontag chama de “cultura camp”. São toques de mau gosto como veículo de crítica social e sobretudo crítica política.
Kleber joga o tempo inteiro com o grotesco e a brutalidade de gosto duvidoso. Queriam o quê? Vivíamos sob uma ditadura escrota e muitíssimo perigosa. A cena e os diálogos tão cifrados quanto estúpidos, dos ratos (policiais e matadores de aluguel) na viatura policial, com presos no porta-malas, é um momento alto para definir o ano de 1977. O clima é de cinismo e broderagem ufanista.
Aliás, todos os policiais do filme são militantes da broderagem ilimitada, seja lá o que isso signifique. O delegado-mor apresenta seus subordinados como “filhos”, sendo que um deles é preto e o outro é ruivo. O matador de aluguel contratado pelo empresário fascista para eliminar Marcelo/Armando (Wagner Moura) tem uma relação com o seu tétrico auxiliar um tanto quanto curiosa.
Não se sabe o que Kleber quer expor com essa relação estreita entre os agentes repressores da ditadura e o universo hetero em conflito existencial consigo próprio. O hetero fascista, no fundo e no raso, não é hetero, apenas fascista? Seria isso, Kleber?
O empresário que contrata matadores para eliminar Marcelo, certamente, está inspirado no diretor do extinto grupo privado Ultra, dono da distribuidora Ultragaz, Henning Albert Boilesen. Esse sujeito não só financiava operações de repressão aos combatentes da ditadura, como, ele próprio, participava de sessões de tortura nas funéreas salas da Operação Bandeirantes (Oban).
É de se enfatizar, pois, o caráter também civil da ditadura hegemonizada pelos militares. Dezenas de grandes empresas, nacionais e multinacionais, apoiaram e contribuíram com recursos para a repressiva ditadura de 1964-1985. Fica provado que o empresariado, a chamada burguesia nacional (pero no mucho) quando se vê apertada, apela por saídas ditatoriais prolongadas e imprevisíveis. Karl Marx, em “O 18 Brumário de Luis Bonaparte” (1852), trata de forma genial precisamente sobre esse tema: quando as forças populares, genericamente, estão fortes e ameaçam o poder da burguesia, esta não hesita em se aliar com o diabo e/ou milicos. Instaura-se uma ditadura sem limites para a violência estatal.
A burguesia, em seu pânico de classe, é levada a suprimir suas próprias conquistas liberais (parlamento, eleições, liberdades individuais, imprensa livre) em nome da proteção da propriedade. No entanto, quando a poeira baixa, ela quer recuperar aquelas conquistas como se nada tivesse acontecido.
No conto de Borges, “Funes, o Memorioso“, a memória permanente e vigilante conspira contra a inteligência e a capacidade de fazer juízo perfeito de fatos da vida pessoal e social.
No filme de Kleber Mendonça, o filho de Marcelo/Armando, vivido pelo ator Wagner Moura, quando adulto, parece que evita a memória do pai. Um enigma no final do filme, pois o pai (Marcelo ou Armando) buscava a memória da própria mãe, e o filho Fernando rechaça as informações trazidas pela pesquisadora (uma homenagem à mãe pesquisadora de Kleber) acerca do pai morto por agentes da ditadura militar.
“O Agente Secreto”, assim, não é um filme sobre agente secreto algum (outro enigma do filme), mas sobre memória e esquecimento. Justamente no Brasil onde os militares golpistas de 1964 até 1985, jamais foram objeto de punição oficial do Estado. Talvez, por isso mesmo, o Brasil tenha sido vítima de um governo de um ex-militar, Jair Bolsonaro, que tenta um novo golpe de Estado, mas, desta vez, há reação punitiva e justa contra os neogolpistas.
É o jogo de memória/esquecimento que parece ser o pano de fundo do filme de Kleber Mendonça Filho. E nada de “agente secreto” – talvez um truque-isca para parecer uma obra “noir”.
A genialidade artística do filme de Kleber capta o esquecimento da ditadura de 1964, sem punição alguma. Esse esquecimento foi o ninho da serpente de outros dois golpes, um contra Dilma, outro, o fracasso de Bolsonaro e seus milicos, agora, com punição exemplar.
O filme é um thriller político, um drama sobre as consequências psíquicas de uma justiça não feita.
A tentativa de golpe em 2022/2023 resulta desse esquecimento institucionalizado. Enquanto a memória é combatida, os fatos são distorcidos e os heróis são invertidos, o terreno fica fértil para a repetição golpista.
“O Agente Secreto” é, portanto, um filme profundamente brasileiro. Um filme bastante politizado, repito. Credencial que a direita brasuca sempre condena em obra de arte.
O filme captura a neurose nacional de um país que tenta correr para o futuro sem olhar para o abismo de seu passado recente. Através da história íntima do médico Fernando, Kleber Mendonça Filho espelha o mal-estar coletivo: a dificuldade de luto, a raiva contida, o medo da verdade e o alto custo do silêncio. O filme é um alerta sobre os perigos de um passado que, não sendo devidamente enterrado, insiste em assombrar os vivos e ditar o rumo do presente.
A memória, como ensina Borges, pode ser um fardo, mas o esquecimento, como mostra Kleber, é sempre uma sentença irrecorrível.
*Cristóvão Feil é sociólogo..
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do ICPJ.