MARIA MADALENA

10 de março de 2018
Autor
Frei Luís Mendes ofm

 

*Frei Luís Mendes ofm

 

No dia 8 de março celebramos o dia internacional da Mulher. Além de dizer que cada dia é dia dela, é um momento importante para fazer memória de todas aquelas mulheres corajosas que enfrentaram nos Estados Unidos um sistema perverso, machista, excludente que usava as mulheres para se auto-afirmar e enriquecer àss custas delas. Mas há outros muitos fatos de mulheres que na História da Humanidade contestaram todo sistema machista, excludente, homofóbico e desumano.

O poder sempre esteve nas mãos dos homens, e não somente o poder econômico, também o poder religioso e as leituras filosóficas e teológicas. Deus é homem, temos dificuldade de pensar um Deus que seja mãe, que seja fecunda, que tenha sentimentos, que sinta amor. Temos a imagem de um Deus todo-poderoso, insensível e racional. Dentro deste pensamento totalizante, unívoco, não há possibilidade de que possa nascer algo diferente.

Porém, sempre foram as mulheres que encontraram o modo, a maneira, a fissura para poder se manifestar e romper a ordem estabelecida. Ordem não é sinônimo de verdade, nem de justiça. Na ordem pode estar escondida a submissão, a padronização, a legalidade, a violência contra a diversidade. Na reciprocidade se esconde a violência contra o outro que pensa diferente, que vive diferente, que é diferente. Desde Eva, passando por Agar, Ester, Judite, Rute, Maria de Nazaré, Maria Madalena, Santa Clara, Madre Tereza de Calcutá, Irmã Doroti, Lúcia Topolanski, e outras tantas mulheres anônimas que se destacaram e se destacam nos dias atuais, por contestar este sistema perverso, que exclui, que faz vítimas, principalmente mulheres negras e pobres. A maioria das mulheres que conseguiram chegar ao poder foram depostas quando tentavam romper com a lógica machista, piramidal e excludente. Não necessariamente foram depostas e traídas pelos homens, muitas mulheres submissas intelectualmente, machistas e que são vítimas de seus maridos, pais, professores e referenciais machistas, continuam reproduzindo os modelos arcaicos. Elas são contra as mulheres que tentam mudar esse sistema que lhes da “segurança” para poder sobreviver, que é viver mal.

Maria Madalena foi uma mulher forte que não enfrentou o poder diretamente. Não tenho noção de alguma passagem bíblica ou registro de estudiosos que mostrem que ela enfrentou o poder diretamente. Mas ela foi desestruturando as bases desse poder. Foi uma mulher silenciosa, astuta, inteligente, que sonhava com um mundo diferente. A sua força era o Senhor libertador, que a encorajava a seguir na luta por um mundo diferente, Não um mundo onde as mulheres e os pobres tomam conta do poder. Mas um mundo onde eles façam parte como pessoas humanas.

Fazer parte de um mundo que foi criado para todos e que todos tem o direito de viver com dignidade. Um mundo marcado pela diferença, pela assimetria, pela não igualdade que padroniza e fecha num único sistema. Maria Madalena era uma mulher que denunciava, que esclarecia as camadas mais pobres, que fez a Revolução na rua. O cristianismo que Maria Madalena deu continuidade surge na rua, nas esquinas, nos caminhos. A transformação não se dá no Templo, na sinagoga. As mulheres não tinham acesso a estes lugares. Elas são profetizas subversivas, silenciosas, que vão conscientizando as outras mulheres, aos pobres, homens excluídos, sem oportunidades, leprosos, doentes. Madalena vai empoderando e organizando aqueles que não fazem parte do sistema porque não existem para ele. Ela, juntamente com outras mulheres, tem

uma proposta de vida e vida em abundância, porque é vida com dignidade. Jesus simplesmente acolhe o que essas mulheres têm como proposta. Jesus não faz proposta, ele encoraja e aprende com elas. Na Betânia Maria se abaixa lava e unge seus pés e uma semana depois ele faz esse mesmo gesto com seus discípulos. Ele aprende com uma mulher. É um poder serviço. Abaixa-se e cresce junto com elas.

Por isso neste dia 8 de Março devemos celebrar e agradecer a todas as mulheres que ao longo de toda a história da humanidade deram sua vida para que outras tenham vida com dignidade. Que a Divina Ruã (na mitologia é uma Deusa que protegia os mais fracos. Deusa da força, da coragem), Ruah (palavra Hebraica que significa vento, sopro, alento coragem) e Maria Madalena, Apóstola dos Apóstolos, continuem fortalecendo e encorajando a todas as mulheres de nossas comunidades cristãs e não cristãs. Que movidas pela necessidade de um mundo para todos, na diversidade e na inclusão continuem na luta e dando o seu exemplo para todos nós.

 

*Frei Franciscano, Pároco de Agudo/RS e autor do livro “Maria Madalena, Apóstola dos Apóstolos”