Lanceiros Negros: uma história mal contada, quando contada.

19 de setembro de 2018
Autor
Michele Corrêa

Ilustração: Tiago Krening /Trendr

O mês de Setembro chegou e com ele mais uma Semana Farroupilha é celebrada pelos gaúchos. Acampamentos, música, dança, poesia, fandangos e rodeios unem prendas e peões nos festejos. Assim surgem também as memórias desta longa guerra protagonizada pelos estanceiros gaúchos insatisfeitos com a política econômica imperial, guerra que se estendeu por uma década de combates sangrentos entre farrapos e imperiais.

 

A Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul ocorreu no Período Imperial (1835-1845) enquanto estava vigente no país o Sistema de Escravidão, tendo como protagonistas os proprietários das imensas estâncias e charqueadas da Campanha e da Fronteira, apoiadas na exploração do trabalhador escravizado. Os poderosos estancieiros escravistas mobilizaram-se em prol da autonomia e, logo, da secessão da província sulina, sonhando unificar, em uma só nação, suas propriedades pastoris escravistas do sul da província e do norte do Uruguai.

 

O que não ganha visibilidade – seja nos festejos ou nas aulas de história, salvo algumas exceções – é o papel desempenhado pelos trabalhadores negros escravizados em meio aos combates em terras gaúchas. A presença negra no Rio Grande do Sul antes da Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1883, é silenciada. É difícil determinar o número de escravizados no Estado, no início do século 19. Ao lado do comércio oficial, era realizado intenso contrabando, distribuindo-se trabalhadores negros para diversos mercados compradores do Chile, Bolívia, Argentina e Uruguai. Um levantamento populacional datado de 1780 revela a presença de negros escravizados nas regiões de cultura de trigo, nas charqueadas e nas primeiras estâncias gaúchas de criação. Observa-se assim que a importância da escravidão se acentua no Estado à medida que se desenvolve a agricultura extensiva e o comércio de carne salgada (charque), este último gerador do descontentamento por parte dos Senhores Charqueadores com a política econômica imperial em relação à importação do produto, principalmente da Argentina.

 

Foi de suma importância para os exércitos em guerra os escravizados enviados por abastados fazendeiros, homens livres, para servirem em seus lugares nos campos de batalha. Sempre que um Senhor, homem livre, era chamado a servir, seja junto ao exército imperial ou ao exército farroupilha, podia enviar em seu lugar, ou no lugar de seu filho, um dos seus trabalhadores escravizados. Assim, constitui-se forte presença de homens negros escravizados em sua maioria junto aos exércitos de ambos os lados. Alguns eram alforriados ao ingressarem no exército, outros ingressavam com a promessa de liberdade ao fim da guerra, promessa usada também para atrair cativos da tropa inimiga, trazendo-os para o seu lado.

 

O exército farroupilha formou uma unidade reunindo os negros, uma infantaria para ser enviada à frente no campo de batalha, morrendo assim na frente em seu lugar, os chamados: Lanceiros Negros. Aos Lanceiros Negros era proibido o uso de espadas e armas de fogo de grande porte. Não lutavam a cavalo, mas sim a pé, para evitar o risco de se rebelarem ou fugirem. Sua arma principal era a grande lança de madeira que lhes deu nome e fama, algumas facas, facões, pequenas garruchas. Acreditando na tão sonhada liberdade, lutaram com os pés descalços, grande bravura e o anseio pela prometida alforria. Não havia igualdade nas tropas farroupilhas, muito menos democracia racial, negros e brancos marchavam, comiam, dormiam, lutavam e morriam separadamente. Os oficiais dos lanceiros negros eram brancos, e jamais um negro chegou a um posto significante.

 

A luta pela Abolição da escravidão era bem conhecida. A Inglaterra, que havia findado a escravidão pouco antes da Revolta dos Farrapos, pressionava o Brasil pelo fim do tráfico negreiro desde 1808. Entretanto, os principais chefes farroupilhas, Bento Gonçalves, Davi Canabarro, Gomes Jardim e até Antônio de Souza Netto, dentre outros, eram todos escravistas. Bento Gonçalves, por exemplo, ao morrer, entre outros bens, deixou muitos trabalhadores escravizados de herança aos seus familiares. A defesa da escravidão era tão clara entre os chefes farrapos a ponto deles jamais sequer terem mencionado o fim do tráfico negreiro.

 

Ao findar a guerra foi incluída pelos farroupilhas entre suas exigências ao Império o cumprimento da promessa de liberdade que haviam feito aos Lanceiros, pois temiam que eles se vingassem já que a quebra da promessa os faria se rebelar ou fugir para o Uruguai, destino comum de diversos cativos fugitivos na época. Os chefes dos farrapos queriam após a guerra voltar à normalidade, mas precisavam resolver a questão dos Lanceiros e a promessa que lhes haviam feito, porém o Império escravista não aceitava essa condição como parte do acordo.

 

Qual solução foi encontrada? A questão resolveu-se na madrugada de 14 de novembro de 1844, quando o general farrapo David Canabarro ordenou o desarmamento dos Lanceiros e os entregou ao inimigo. O massacre ocorreu no Cerro de Porongos, hoje região do município de Pinheiro Machado (interior do Rio Grande do Sul). Foi dizimada quase toda a infantaria negra, acabando com o ultimo entrave à paz, desejo de farroupilhas e imperiais. A instrução de Caxias, comandante das tropas imperiais, a um de seus comandados foi clara e objetiva: a batalha teria que ser conduzida de forma tal que poupar apenas e dentro do possível o sangue de brasileiros, pois o negro era então tratado como africano, mesmo que nascido no Brasil.

 

Após o combate, Caxias foi avisado por meio de um relatório oficial que a grande maioria dos corpos caídos no campo de Porongos era de homens negros. Calcula-se que, nos últimos anos daquele conflito, os farrapos ao todo somavam cinco mil homens, sendo que em torno de mil eram Lanceiros Negros. Após o Massacre de Porongos restaram apenas cerca de 120 deles, feridos, alguns mutilados, e que foram primeiramente enviados para uma prisão no centro do país e depois dispersados para outras províncias, ainda mantidos como cativos. Assim deu-se a chamada Paz do Ponche Verde, onde senhores escravistas, farroupilhas e imperiais, trocaram abraços e promessas de lealdade e, logo depois, marcharam juntos e sob a mesma bandeira imperial contra o Uruguai, Argentina e Paraguai.

 

Referências:

BAKOS, Margaret Marchiori. A Escravidão Negra e os Farroupilhas. Disponível em: http://www.rosettadosventos.com.br/artigos/escravidao-negra-farroupilhas.pdf

Lanceiros Negros. Disponível em: https://www.facebook.com/NegrasMelodias/photos/a.851353211576826/627411500637666/?type=3&theater

MAESTRI, Mário. Paixão Cortez e a Invenção Tradição. Disponível em: https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2018/08/paixao-cortes-e-a-invencao-da-tradicao-por-mario-maestri/

VOGT, Olgário Paulo. O Liberalismo Farroupilha e Escravidão na república Rio-Grandense. Disponível em: https://online.unisc.br/seer/index.php/redes/article/viewFile/5159/3566

 

Michele Corrêa

Graduanda em Filosofia na UFPel,

Militante da Pastoral da Juventude (PJ) e

Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)