Jesus e As Pedras do Preconceito

23 de fevereiro de 2018
Autor
Frei Sérgio Görgen

 

Frei Sérgio Antônio Görgen ofm*

 

Alguns zelosos da Lei de Moisés deram um flagrante em uma mulher praticando adultério, isto é, em ato sexual com homem que não era seu marido.

Chama a atenção que ela não estava sozinha neste adultério, mas o flagrante não alcançou o homem.

A mulher é arrastada, empurrada, xingada e jogada ao chão em frente de Jesus.

– “Esta mulher foi pega praticando adultério – dizem os guardiães das sagradas leis. Moisés disse que elas devem ser condenadas e apedrejadas até à morte. ”

– “E tu, o que dizes? ”

Neste momento o olhar de Jesus se depara com o olhar apavorado da mulher a sua frente, pressentido a aproximação da morte cruel por apedrejamento.

Aquele olhar expressava uma prece silenciosa:

“Senhor, salva-me da morte”.

E Jesus sentiu o peso do ambiente e da sinuca em que estava colocado.

Dissesse “não apedrejem”, violava a lei sagrada de Moisés.

Dissesse “apedrejem”, negaria toda a sua pregação de amor e perdão.

Virasse a costas e abandonasse o local, seria um covarde.

Enquanto um silêncio apavorante reinava naquele ambiente, Jesus escrevia no chão e, do fundo de seu coração, rezava ao Pai.

“Me ajude a sair desta enrascada e salvar a vida desta mulher”.

Então, atendido em seu pedido, levantou-se, seguro e firme, olhou de frente todos aqueles homens furiosos com pedras na mão e disse-lhes:

“Aquele que estiver sem pecado, dê a primeira pedrada”.

Jesus colocou cada um diante de si mesmo, diante de suas próprias consciências, de seus falsos moralismos e de suas próprias hipocrisias.

O inesperado do desafio de Jesus fez com que aquela horda furiosa também se colocasse em oração, oração de autocrítica, prece de penitência, revisão de vida, uma prece de “vergonha na cara”.

Cada um pôs-se a olhar para dentro de si mesmo. Na caverna da própria consciência é onde pode haver a melhor oração, especialmente, de autocrítica e penitência.  

Um a um os braços foram baixando e as pedras largadas ao chão.

O olhar de Jesus volta de novo ao olhar da mulher, agora em prece de gratidão, em lágrimas, coração palpitante, mas já serena e agradecida.

“Ninguém te condenou, mulher? ”

“Ninguém, Senhor! ”

“Nem eu. Vá e encontres o Caminho do Bem”.

Fonte e Inspiração – Evangelho de João 8, 1-12

 

*Frade franciscano, militante do MPA e autor do livro “Em Prece com os Evangelhos”.