Homilia de Dom Adelar Baruffi na 43ª Romaria da Terra

27 de fevereiro de 2020
Autor
Marcos Antônio Corbari

Confira a íntegra da Homilia proferida por Dom Adelar Baruffi, Bispo da Diocese de Cruz Alta, na 43ª Romaria da Terra, em Mormaço/RS

Saúdo e acolho a todos os romeiros e romeiras, vindos de todo nosso Estado, das 18 Dioceses e Arquidioceses, especialmente os bispos, os presbíteros, os religiosos e religiosas, os membros da CPT e de todas as organizações que visam o “bem viver” de nosso povo. Aqui é nosso “santuário”. Somos muito bem acolhidos pelo Município de Mormaço, desde a primeira conversa. Aqui nos sentimos em casa, podemos repartir com irmãos e irmãs a mesma fé em Jesus Cristo e seu projeto do Reino e a mesma esperança, baseada na Doutrina Social da Igreja. O que nos motiva hoje, em meio a tantas dificuldades? Nosso sonho é o desejo de Deus: “O bem viver no campo e na cidade”. Tudo é obra de Deus, para nós e para toda a humanidade. Os cenários que vivenciamos no caminho até aqui foram uma bela inspiração. Nos mostram que Deus não quer a destruição e a morte. A leitura bíblica de Ezequiel nos fala da água, a mesma que Jesus pede à Samaritana, que jorra no interior de quem a bebe, produz vida sempre: “Nas margens junto ao rio, de um lado e do outro, crescerá toda espécie de árvores frutíferas, e suas folhas não cairão, e seus frutos jamais terminarão” (Ez 47,12). De fato, do templo a água parte para todas as direções, assim como daqui a água parte para produzir vida. Claro, em primeiro lugar, viemos celebrar o caminho humilde, feito pelos pequenos da terra e da cidade, na vivência do “bem viver”. Não há outro caminho de Deus para a humanidade: que sejamos felizes, que tenhamos saúde, que vivamos na harmonia e na simplicidade, com os pés no chão e o coração em Deus. Jesus é a água que produz vida e vida eterna.

O olhar dos romeiros e romeiras traz a dor da realidade que não corresponde ao sonho de Deus. Mas não viemos para nos queixarmos. A boa nova do Evangelho traz a alegria e a esperança. No estudo que fizemos em todas as 31 paróquias da Diocese nos perguntamos: “o que é mesmo importante para uma vida saudável e feliz?” Vemos que o ser humano nem sempre é guardião e cultivador de tudo o que Deus criou. Coloca-se no lugar dele e, não poucas vezes, quer ter a pretensão de viver sem Ele. Sentimos a dor dos nossos irmãos que ainda não têm teto, não têm terra e não têm trabalho. A humilhante exclusão social, os que “sobram” não param de crescer: fome, violência, racismos, aborto, maltrato de crianças e idosos, exploração do trabalho, feminicídio, uso indiscriminado de agrotóxicos e morte das abelhas e água imprópria para consumo humano. Foram 474 novos agrotóxicos para uso na agricultura no último ano! A lista seria longa! Afirmou nosso Papa, no último dia 05 de fevereiro, que “calcula-se que cerca de cinco milhões de crianças abaixo dos 5 anos morrerão este ano devido à pobreza. Outras 260 milhões não receberão uma educação por falta de recursos, por causa das guerras e das migrações”.

De fato, quando a idolatria do dinheiro, a avidez e a especulação se tornam o fim último, as finanças é que determinam, não a pessoa humana. Dizia nosso Papa, que “não existe um determinismo que nos condene à iniquidade universal. Permitam-me repetir: não somos condenados à iniquidade universal. Isso torna possível um novo modo de enfrentar os eventos, que permita encontrar e gerar respostas criativas diante do evitável sofrimento de tantos inocentes” (Francisco, 05/02/2020). Diante disso, diz nosso Papa, “devemos ter consciência de que todos somos responsáveis. Isso não quer dizer que todos somos culpados. Todos somos responsáveis a fazer algo.”

Não somos vencidos, mas, dizemos com a Samaritana, a Jesus: “dá-me desta água para que eu não tenha mais sede e nem tenha que vir aqui para tirá-la” (Jo 4,15). Aproveitemos a Romaria para beber desta água que tem a marca do evangelho. Somos portadores de esperança. Caminhamos com Cristo Vivo, que sempre nos dá esperança. Queremos, com a CPT, nesta Romaria apresentar alguns dos caminhos de esperança, nas oficinas que serão realizadas à tarde. O que vou levar para minha casa, meu grupo desta Romaria? Temos belas novidades! Observemos que numa grande Romaria como essa não se consome álcool e nem refrigerante. Isto já seria o suficiente. Quem sabe aprendemos para levar para nossas comunidades. Isto é vida! O “bem viver” é bem amplo e fala de toda nossa vida, pessoal, na relação com Deus, com os irmãos e com a natureza. Tudo está interligado e somos uma grande família, sem fronteiras, sem muros, sem cor e sem ideologias.

Neste dia de Romaria, queremos reafirmar nossa esperança, a água viva, que produz vida aonde chega, que “jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). Há poucos dias, nosso Papa escreveu a “Querida Amazônia”. Nela nos recordou os sonhos.  “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida. Sonho com uma Amazônia que preserve a riqueza cultural que a caracteriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana. Sonho com uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas. Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazônicos” (QA, 7). Nós todas e todos sonhamos e cremos!

– Sonhamos e cremos numa vida em harmonia e respeito com a natureza, convivendo com os meios naturais e o ser humano.

– Sonhamos e cremos nas relações fraternas construídas a partir da compaixão e da misericórdia, numa metodologia colaborativa e de comunhão.

– Sonhamos e cremos na família e nas juventudes que se educam para uma vida sóbria e feliz.

– Sonhamos e cremos numa vida simples, com menos consumo, mas mais plena e feliz em ter a capacidade de se alegrar e conviver.

– Sonhamos e cremos na alegria de viver, com simplicidade, com pequenas coisas: “uma humildade sadia e uma sobriedade feliz” (LS n.224).  

– Sonhamos e cremos no bem viver que nos faz reconhecer que somos parte única de tudo o que Deus criou, à sua imagem e semelhança.

– Sonhamos e cremos no fortalecimento dos espaços comunitários, espaços das feiras de produtos artesanais e ecológicos, nos jardins e hortas urbanas.

– Sonhamos e cremos numa “sobriedade feliz”, numa vida com bagagem leve e não escravizado pela constante renovação consumista.

– Sonhamos e cremos numa vida sem pobreza e exclusão.

– Sonhamos e cremos na reforma agrária, na agroecologia, no cuidado e uso das sementes crioulas.

– Sonhamos e cremos no cuidado preferencial pelos mais pobres e sobrantes, como expressão concreta de nossa fé em Jesus de Nazaré.

– Sonhamos e cremos e reafirmamos o caminho de uma agricultura familiar, que produz vida saudável.

– Sonhamos e cremos, enfim, no “bem viver” como afirmação da contemplação de Deus como princípio e fundamento de tudo o que existe.

Concluo com um pensamento, que é, ao meu ver, a síntese, e nos convida a um “outro estilo de vida”, e pede de nós um processo de educação continuada. O Papa nos diz: “Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático” (LS, n. 111).