*Júlio Lázaro Torma
Um dos grandes debates de nossos tempos tem sido as transformações do mundo do trabalho.
Assim como ocorreu no início da Revolução Industrial, com o processo de mecanização, e na industrialização do Brasil no final do século XIX e início do século XX, formou-se um grande contingente de trabalhadores nas nascentes fábricas, constituindo um verdadeiro exército nos pisos fabris.
Muitos desses trabalhadores atuavam de domingo a domingo, chegando, muitas vezes, de forma precária e exaustiva, a jornadas de 12 horas diárias, sem qualquer direito garantido. O lema era claro: “trabalho para enriquecer os patrões”.
As conquistas dos direitos trabalhistas e previdenciários são fruto da organização dos próprios trabalhadores — não benesses do “velho Estado burguês” ou dos empresários. Resultaram de luta, confronto, enfrentamento, lágrimas, suor e sangue derramado.
Entre essas conquistas estão a redução da jornada para oito horas diárias, o salário mínimo, o direito às férias e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), todas duramente combatidas pela burguesia e pela classe patronal — assim como ocorreu, em 1888, com a abolição da escravidão africana pelos escravocratas.
Hoje, com o avanço da Inteligência Artificial e da era digital, impulsionada pela informática, projeta-se um futuro em que a maioria da população brasileira — assim como a mundial — não terá acesso ao trabalho. A venda da mercadoria força de trabalho será, no século XXI, tão promissora quanto a venda de diligências no século XX. Nessa sociedade, quem não consegue vender sua força de trabalho é considerado “supérfluo” e descartado no aterro sanitário social.
A precarização, a uberização e a pejotização do trabalho, somadas ao aumento do desemprego em massa — atrelados às novas tecnologias e ao avanço da superexploração após a pandemia da Covid — recolocam uma questão central: o que pode absorver essa multidão do exército de reserva, submetida ao desemprego, subemprego e à informalidade?
Uma das respostas está no fim da escala 6×1 e na redução da jornada de trabalho, sem redução do salário mínimo — reivindicação histórica da classe operária. Reduzir a jornada para que outros possam trabalhar.
Para que mais pessoas sejam absorvidas pelo mercado de trabalho, especialmente a chamada geração “nem, nem”.
Os empresários e seus aliados políticos no Congresso Nacional afirmam:
“Se for reduzida a jornada de trabalho e houver o fim da escala 6×1, o país afundará e a vida econômica irá acabar”.
“As pequenas, micro e médias empresas quebrarão, e as grandes fecharão suas plantas ou migrarão para outros países, caso a ‘exigência absurda’ seja atendida”.
Isso é apenas parte do grande teatro a que assistimos, no qual poucos têm coragem de expor as verdades fundamentais sobre o funcionamento do mercado econômico.
Os próprios empresários sabem que, com o fim da escala 6×1 e a chamada Hora Brevis, tendem a lucrar mais: haverá aumento da demanda, expansão da produção e, consequentemente, dos lucros. O crescimento da produção exigirá a abertura de novos postos de trabalho para suprir essa demanda.
Enquanto isso, a vida do trabalhador e da trabalhadora segue sobrecarregada. A maior parte do tempo é consumida dentro da empresa ou no caótico trânsito e transporte coletivo.
São oito horas de trabalho, somadas, muitas vezes, a duas ou três horas de deslocamento, especialmente nas metrópoles e megalópoles. Grande parte da população encontra-se adoecida, em decorrência da jornada excessiva e das condições de mobilidade urbana.
Faltam horas de sono e convivência familiar — entre pais e filhos, entre cônjuges. Não há tempo para o lazer, para o convívio social, para a vida. Isso impacta diretamente a produtividade e a satisfação no trabalho. Trabalha-se muito, ganha-se pouco — muitas vezes, o suficiente apenas para sustentar uma família de quatro pessoas, em que parte está desempregada ou na informalidade.
Diante disso, parece que o avanço tecnológico não tem se revertido em benefício real para a humanidade. Um pai de família se desgasta em jornadas de 44 horas semanais, frequentemente ampliadas por horas extras, enquanto convive com o desemprego dentro do próprio lar. É um cenário que beira a ficção. O horizonte deveria ser outro: prosperidade e bem-estar com menos trabalho.
Essa possibilidade já havia sido apontada, em 1930, por John Maynard Keynes (1883–1946), ao afirmar: “Os nossos netos farão turnos de três horas e trabalharão 15 horas por semana. Assim, o pouco trabalho que resta será distribuído entre o maior número de pessoas”. (Economic Possibilities for our Grandchildren, 1930)
Com o atual avanço tecnológico, já seria possível trabalhar menos, viver melhor e distribuir o trabalho de forma mais equilibrada, elevando a qualidade de vida de homens e mulheres, graças às contínuas conquistas científicas e tecnológicas. A redução da jornada permite mais tempo para a família, para o lazer e para o bem-estar, além de restaurar laços afetivos fragilizados — especialmente em um contexto em que crianças e adolescentes são cada vez mais criados pelas redes digitais. Vivem sob o mesmo teto, mas tornam-se estranhos entre si.
Quem não conhece alguém que perde momentos importantes com a família ou abandona os estudos por conta da jornada excessiva?
“O problema real não é mais a produção, mas a distribuição equitativa da riqueza e do trabalho que a sustenta. No entanto, insiste-se em tratar como central o aumento da produção de bens. O resultado evidente dessa escolha é o crescimento do desemprego — não como liberdade, mas como mecanismo de disciplina e controle sobre os trabalhadores.” (Domenico De Masi, 1938–2023)
Como advertia André Gorz (1923–2007): “É melhor que ninguém saiba dessas coisas, para que a ordem vigente não seja abalada em suas bases. Dirão às pessoas que o trabalho pode faltar, em vez de dizer que já não faz sentido trabalhar tanto. Dirão que o desemprego avança, em vez de explicar por que teremos cada vez mais tempo livre. Evitarão que os trabalhadores lutem juntos por uma nova racionalidade econômica.
O desemprego não é apenas consequência de crises: é também instrumento de disciplina e obediência no interior das empresas.”
Defendemos o fim da escala 6×1, sem redução de salários ou retirada de direitos, e a ampliação da redução da jornada de trabalho — já conquistada por algumas categorias por meio da negociação coletiva.