Artigo | Nada a celebrar

9 de agosto de 2020
Autor
Frei Sérgio Görgen

Frei Sérgio Antônio Görgen ofm

Frei Franciscano, militante do MPA, autor de “Em Prece com os Evangelhos”

Cem mil perdas humanas.

Cem mil famílias enlutadas.

Mesmo com a pandemia, com outra estratégia de enfrentamento da crise sanitária, talvez mais de 70% destas mortes seriam evitáveis.

Três milhões de pessoas infectadas, de acordo com estatísticas oficiais. Provavelmente, muitas mais.

Não números, vidas, gente, pessoas, emoções, histórias, relações.

8 de agosto. Um dia de luto, de revolta e de luta.

Luto e dor por tantas mortes.

Revolta e indignação, porque a principal causa destas mortes não é a pandemia, mas a forma como um governo federal genocida agiu em relação a ela. Indignação com a desinformação e a mentira que confunde e divide. Indignação é o primeiro passo da mudança. É o início da vontade de transformação.

Somos chamados à luta. E para a luta ter resultados, necessários organizar-se, reconstruir-se como movimentos sociais e políticos, como classes oprimidas, debater alternativas, contraditar o fascismo e sua visão de mundo, compreender e dialogar, às vezes convencer, com dimensão ética e com projeto de futuro.

É preciso reagir e, com coragem, desafiar a banalidade do mal e a banalidade da morte. E fazer futuro com dignidade, direitos e respeito.

Entre tantas mortes diante das quais perguntamos – qual o sentido? – uma, porém, que nos enche de esperança e sentido.

A Páscoa de Pedro Casaldáliga, que lutou pela vida de tantos, pela vida digna dos pobres, dos índios, dos machucados pelo latifúndio e pelo capitalismo, nos deixa o exemplo de lutar pela vida até o último fio. E, finalmente, passar à outra forma de viver, com o tempo realmente vencido, sem antecipação por desgraça evitável.

Pedro, de onde estiveres, console nosso luto, alimente nossa indignação e alimente nossa luta com este raio de sentido e amor que tua vida nos inspira.