Artigo | A Banalidade do Mal

7 de abril de 2020
Autor
Michele Corrêa

São tempos sombrios, como diria Hannah Arendt, filósofa alemã de origem judia autora de livros com Homens em Tempos Sombrios, Origens do Totalitarismo e Eichmann em Jerusalém. Nesta última obra ela apresenta a expressão “banalidade do mal”, após acompanhar o julgamento de um nazista pelo Estado de Israel, na cidade de Jerusalém, em 1961. Porque depois de alguns meses sem escrever, retorno justamente citando Hannah Arendt?

Aos amigos e amigas que acompanham a Rede Soberania e o Brasil de Fato-RS, e que em algum momento leram algum texto por mim escrito, sabem que escrevo sobre temas espinhosos, temas que passam meu corpo, mente e espírito. A escrita é em minha vida uma forma de partilhar meus anseios e angustias com aqueles que como eu vivem, trabalham e lutam por uma sociedade mais igualitária e justa onde a equidade seja a medida e o peso de todas as ações.

Nos últimos meses são muitas as situações extremas que me angustiaram, levando-me a uma tristeza profunda e um quadro de constantes crises de ansiedade, a partir das quais não mais consegui finalizar um texto sequer para publicação. Mas sem dúvida a pandemia do Coronavírus me provocou uma dor profunda e um medo da finitude nunca antes sentido. Assim, entre o medo provocado pela possibilidade de contrair e ver os que amo contraírem a Covid-19 e assombrada por milhares de vidas ceifadas pelo mundo por tal enfermidade, acompanho atônita o desdém de pessoas em relação a essa chaga que abala o mundo.

No momento em que escrevo já são contabilizadas mais de 72 mil pessoas mortas pela covid-19 ao redor do mundo. Pessoas que possuíam familiares, amigos e amigas, colegas de trabalho, homens e mulheres que tinham sonhos, projetos. Na sua maioria idosos, mas não só idosos, jovens e adultos também estão tendo suas vidas ceifadas pela Covid-19. A dor da perda de um ente querido não tem idade… Meu avô faleceu há 11 anos, já idoso, vítima de câncer, e não há um só dia que não recorde seus ensinamentos e não sinta a falta de sua presença física.

A morte é um fim natural da vida humana. Finitude natural, mas não por isso pode ser banalizada ou ridicularizada. A morte deve ser consequência de uma vida vivida em plenitude, direito de todas e todos independente de origem, raça, gênero, idade, situação econômica, política e/ou social.

Os familiares, amigos e amigas, e pessoas acometidas pelo coronavírus merecem respeito, sejam elas próximas a nós ou estejam em qualquer parte do mundo. Brincadeiras como a do vereador e pré-candidato à Prefeitura de Porto Alegre, Valter Nagelstein, onde ironiza o funeral de uma vítima de coronavírus, são inaceitáveis, e não podem ser passíveis de um mísero pedido de desculpas. Nagelstein e os familiares gravaram em vídeo uma encenação na qual ele tira uma máscara do rosto e espirra sobre uma mulher que “morre”, na sequência, reproduzem uma cena de velório típico de Gana, ao som de música e passos de dança.

A atitude de Nagelstein é representação do que em um primeiro momento Hannah Arendt chamou de “banalidade do mal”, onde segundo a filósofa judia o mal não tem raízes, não tem profundidade. O mal é como um fungo, não tem raiz, nem semente, mas espalha-se sobre uma superfície específica: a massa de cidadãos inaptos para a capacidade de pensar e incapazes de dar significado aos acontecimentos e aos próprios atos. Nagelstein age sem medir consequências, sem pensar, sem refletir, simplesmente age,. Quando percebe o erro, embora não reconheça erro em sua atitude, pede desculpas, e continua sem pensar ou refletir sobre sua conduta.

Assim, vemos perplexos pessoas que admirávamos apoiarem atitudes e decisões que condenam a miséria e a morte milhões de brasileiros e brasileiras, como a PEC 95, conhecida como PEC da morte a qual congelou por 20 anos os gastos públicos, incluindo os investimentos no SUS e na produção de Ciência nas Universidades e Institutos Federais. Congelamento que nos custará sem dúvida ainda mais vidas em virtude da Pandemia do Coronavírus.

A banalidade do mal ampara e estrutura a necroplítica institucionalizada e apoiada por nossa sociedade, de pensamentos e atitudes ainda escravocratas, e executada pelo governo Bolsonaro, que vê a pandemia com descaso, incitando de maneira leviana e criminosa as pessoas a desrespeitarem as medidas de isolamento social e irem para as ruas, com hipócrita desculpa que a economia do país não pode parar, lembrando o velho clamor escravocrata que afirmava “a abolição da escravatura irá quebrar o país”. Os séculos passam, porém, a exploração de uns poucos sobre a grande massa não cessa.

 

*Graduanda em Filosofia na UFPel,  Militante da Pastoral da Juventude (PJ) e Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

 


Referências:

https://www.sul21.com.br/ta-na-rede/2020/04/apos-repercussao-nagelstein-se-desculpa-por-video-com-encenacao-de-morte-por-coronavirus/

ANDRADE, Marcelo. A banalidade do mal e as possibilidades da educação moral: contribuições arendtianas. Revista Brasileira de Educação. vol.15 no.43 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2010.

Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782010000100008