A miscigenação que construiu esta nação aconteceu, em grande parte, por meio da violência do colonizador sobre o corpo feminino
Bia de Santa Maria | Campo Grande (MS)

Quando falamos de ancestralidade feminina, não estamos falando apenas de memórias bonitas, raízes poéticas ou fotos antigas. Estamos falando de um território vivo, que pulsa dentro do nosso corpo, mesmo quando não sabemos nomear.
O Brasil é um país de grande mistura, e isso costuma ser romantizado como se tivesse sido um encontro entre povos que se amaram, que trocaram saberes de forma leve e voluntária. Mas nós sabemos: não foi assim.
A miscigenação que construiu esta nação aconteceu, em grande parte, por meio da violência do colonizador sobre o corpo feminino — corpos indígenas, corpos africanos, corpos de mulheres que não puderam escolher.
Nós não herdamos apenas traços físicos. Nós herdamos histórias, traumas, defesas, medos, formas de amar, de nos relacionar e até a maneira como protegemos ou desconfiamos de outras mulheres.
Quando reconhecemos que nossas ancestrais carregaram dores que não foram elaboradas, começamos a dar nome ao que vibra dentro da gente: o medo de ocupar espaço, a culpa por desejar liberdade, o incômodo em confiar em outra mulher, a sensação de que precisamos sempre nos defender.
Trazer essa verdade à tona é um gesto de cura. É um caminho para libertar o nosso corpo e o nosso sistema familiar da repetição da violência que foi plantada no começo da história do Brasil.
E isso não é sobre dividir ou criar conflitos. É sobre clareza. É sobre não romantizar as raízes para que possamos, finalmente, transformá-las. É sobre olhar para nossas ancestrais e dizer: “eu vejo o que você viveu, e em mim essa história pode tomar um outro rumo.”
Quando uma mulher se conscientiza da sua origem, ela não só se cura — ela interrompe séculos de dor. Ela impede que as violências se repitam nos próprios relacionamentos, no modo como cria seus filhos, no modo como trata outras mulheres.
Porque uma mulher consciente da sua linhagem deixa de competir, de atacar, de desconfiar. Ela começa a honrar. E honrar é, acima de tudo, não repetir. Que esse tema abra espaço para conversarmos com delicadeza, mas também com verdade.
Só quando iluminamos o que foi ocultado é que conseguimos caminhar mais leves — por nós e por todas que vieram antes.
*Bia de Santa Maria é mentora, analista comportamental e facilitadora de saberes da alma.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do ICPJ.