A Virada Profética do Papa Francisco

31 de maio de 2018
Autor
Frei Cirineu Bonini da Luz

A Virada Profética do Papa Francisco
Aconteceu entre os dias 21 e 24 de maio o Simpósio Internacional “A Virada Profética de Francisco: possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo”. Promovido pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos -Unisinos, o evento reuniu centenas de pessoas e teve presença de palestrantes de diversos lugares, inclusive de outros países como Itália, Argentina, Inglaterra e Estados Unidos.
Aquele que disse vir do fim do mundo, trouxe para a Igreja “a dinâmica da Alegria”, afirmou Paulo Suess. Basta ver seus escritos. Todos referem-se à alegria: “A Alegria do Evangelho”, “Louvado Sejas”, “A Alegria do Amor” e “Alegrai-vos e Exultai”. Antes da alegria, destaca-se a perspectiva da misericórdia, amplamente abordada, sendo até motivo para um Jubileu Extraordinário. Diz que “Deus nunca se cansa de perdoar” (Alegria do Evangelho 3). Convida a Igreja à partir da misericórdia, anunciar ao mundo que Deus nos ama infinitamente e que reconciliados com ele, podemos ter uma vida mais sóbria e sair de “nossa consciência isolada e da autorreferencialidade” (Alegria do Evangelho 8).
Com Francisco, há um redirecionar na ação da Igreja. Alinha-se a Paulo VI, o papa que assimilou as decisões do Concílio Vaticano II, e que colocou de uma vez por todas a Igreja em diálogo com o mundo moderno. Décadas depois, Francisco acrescenta a Igreja universal o Documento de Aparecida, redigido em 2007. A conversão pastoral, discutida em Aparecida, foi em vista “de uma pastoral decididamente missionária, que tem a coragem de recomeçar o discipulado”, afirmou Austen Evereigh. A Igreja, por esta forma, deve ser facilitadora do encontro com Jesus pessoal e comunitariamente, abrindo inúmeras possibilidades para a acolhida da graça na vida das pessoas.
Frente ao paradigma tecnocrático atual, Francisco tem se manifestado. “Este sistema que mata” (Alegria do Evangelho 53), valoriza mais a mercadoria e o dinheiro que a pessoa. Por isso, alerta para que a Igreja, ao anunciar a mensagem de libertação, auxilie na busca de um novo modelo de economia. Encontrando-se com os movimentos populares afirma que estes “são semeadores criativos de mudança”, esperança de um amanhã mais justo e digno para a humanidade.
As novas relações, para Francisco, necessariamente passam por uma nova cultura. Por isso, propõe a “cultura do encontro” (Alegria do Evangelho 220). É preciso repensar as relações humanas, em vista de humanizar uma sociedade marcada pela “globalização da indiferença” (Alegria do Evangelho 54). Encontrar-se com Jesus é a base para os demais encontros. A Igreja deve, pois, auxiliar a humanidade no encontro entre os diferentes. Nesse sentido, Paulo Suess diz que a nova evangelização “deve ser descolonizada teológico e pastoralmente”, favorecendo o encontro do Evangelho com as diferentes culturas, inculturando a Igreja, e dando ao Evangelho e aos povos a experiência do encontro com o diferente que conduz sempre mais ao mistério da salvação.
O mundo não é um lugar estranho ou mau. O mundo é o lugar onde acontece a vida. Muitas vezes ela é desrespeitada. Mas há na humanidade sementes de bondade e de tendência ao bem. As virtudes humanas são visíveis, o que mostra que a consciência deve ser o local primeiro de decisão pessoal. “Formar as consciências, não pretender substituí-las” (Alegria do amor 37) é o convite de Francisco frente a um possível legalismo eclesial. Novos métodos pastorais devem ser buscados e implantados. A Igreja precisa olhar com mais amor para a sociedade na qual está inserida. Mas antes, para a pessoa humana em sua individualidade e historicidade.
As vozes do Simpósio, em uníssono, acolhem com alegria e esperança a renovação eclesial trazida pelo papa. Mas é preciso refletir e aprofundar seu convite para a igreja, entendendo o que significa “a Igreja ser semelhante a um hospital de campanha” (Alegria do Amor 291), uma “Igreja em saída” (Alegria do Evangelho 20), e “o que os pobres têm a nos ensinar” (Alegria do Evangelho 198). Somente assim poderemos ser uma Igreja guiada pelo Espirito Santo que não se preocupa tanto com suas seguranças, mas sim na missão de levar a boa notícia a uma humanidade sedenta de justiça e respeito.
Os dois próximos Sínodos, sobre os Jovens, a fé e o Discernimento Vocacional, e o Pan-Amazônico, serão mais uma amostra da novidade de Francisco no comando do catolicismo. A sinodalidade, já aplicada na reflexão sobre as famílias, amplia o olhar da Igreja para anunciar a novidade de Jesus ao mundo. A novidade de Francisco surtirá efeito igualmente com nossa contribuição pessoal. Esforcemo-nos e façamos nossa parte para que a Igreja, que também somos nós, revele cada vez mais o amor do Deus Trindade à humanidade. Anunciemos um Deus amigo, fiel, companheiro de estrada; não um Deus policial ou juiz, que a tudo fiscaliza e submete a um rígido cumprimento de leis.

Frei Cirineu Bonini da Luz, OFM