A família é sagrada!

23 de dezembro de 2019
Autor
Frei Vanildo Luiz Zugno OFMCap

Frei Vanildo Luiz Zugno OFMCap

As festas de Natal e Fim de Ano são festas familiares. É o momento em que as famílias, às vezes espalhadas em diferentes cidades, estados e até países, fazem o esforço para se encontrarem e festejarem a esperança trazida pelo Messias e também pelo Novo Ano que começa.

De onde vem este costume? Talvez do fato de que, no primeiro domingo depois do Natal, a Igreja celebra a festa da Sagrada Família. Mas também pode ser pela prosaica razão de que os feriados de Natal e Fim de Ano – que geralmente combinam um feriadão prolongado – se tornam ocasião para uma viagem e estadia mais longa, propiciando o encontro familiar.

Seja qual for o motivo, o fato é que muitas famílias se reúnem nesta época do ano. Reuniões que, como todos o sabemos, têm um potencial de ambiguidade. Elas podem ser um momento alegre de reencontro de pessoas queridas há muito tempo distantes. Mas às vezes se tornam ocasião para que aflorem as tensões há muito tempo latentes entre os membros da família. Há que ser realista! As festas familiares de Natal e Fim de Ano podem ser um momento de reencontro e união, mas também podem tornar-se uma ocasião de desencontro e separação.

Isso tudo é normal. Afinal, as famílias são compostas por pessoas e se constroem nas relações. Como lembra o Papa Francisco na Exortação Apostólica sobre o Amor na Família, as relações familiares não são apenas ternura e amor. Elas também podem deixar atrás de si “um rastro de sofrimento e sangue”. E não apenas por causa de desentendimentos entre pais e filhos, irmãos e irmãs, tios e sobrinhos, netos e avós, sogras e noras, cunhados e agregados… A família também sofre as pressões do ambiente esterno que muitas vezes lhe é adverso. Na mesma “Amoris Laetitia” o Papa chama atenção para os fatores desagregadores das famílias. Ele cita a cultura do individualismo, a situação de miséria e pobreza na qual são abandonadas muitas famílias, o desemprego, a falta de moradia, a dificuldade no acesso à educação e saúde, a migração forçada de milhões de pessoas de um lado para o outro do mundo, a ausência de políticas governamentais de suporte às famílias em dificuldade e outros tantos males.

Dificuldades estas que não são novas. Elas estavam presentes na Sagrada Família de Nazaré e nas famílias com as quais Jesus conviveu. Basta olhar os evangelhos e veremos o realismo do discurso e da prática de Jesus no que se refere à família. Ele nasceu numa família pobre, que foi obrigada a fugir para uma terra estrangeira. Entrou na casa de Pedro, onde a sua sogra estava doente. Deixou-se tocar pela dor da morte da filha de Jairo e de seu amigo Lázaro. Ouviu o pranto da viúva de Naim pelo filho morto. Atendeu o grito do pai do menino epiléptico que não sabia mais o que fazer diante da doença do filho. Foi jantar na casa dos publicanos Mateus e Zaqueu e na casa de pecadores e doentes. Falou do pai que deixou seu filho partir e depois o acolheu de volta. E dos filhos que nem sempre obedecem às ordens do pai. Teve compaixão do jovem casa de Caná que ficou sem vinho para celebrar o casamento. Contou a história do pai que casou o filho e ninguém veio para a festa. E da mulher que só tinha uma moeda para sustentar a casa e a perdeu.

Histórias reais de famílias reais. Jesus não proclamou um dogma e nem se ateve a doutrinas. Ele falou de famílias reais, concretas que viviam situações muito similares às que hoje nossas famílias vivem.

Ele é uma luz para que, neste período de festas familiares, nós também possamos, a partir das luzes e sombras de cada uma de nossas famílias, derrubar os muros e construir pontes para o encontro de pais, filhos, irmãos, avós, tios, sobrinhos, sogros, cunhados e agregados, para que as famílias sejam, cada vez mais, amplas e acolhedoras numa sociedade aberta e inclusiva.