A Elite do Atraso e o Racismo Nosso de Cada Dia

11 de fevereiro de 2019
Autor
Marcos Antônio Corbari

Ainda guardo o direito

De algum antepassado da cor

Brigar sutilmente por respeito

Brigar bravamente por respeito

Brigar por justiça e por respeito

De algum antepassado da cor

Brigar, brigar, brigar

A carne mais barata do mercado é a carne negra

(Elza Soares, em A Carne)

 

No último dia 08 de fevereiro (Sexta-feira) a socialite Donata Meirelles, diretora da Revista Vogue Brasil, comemorou seu aniversário de 50 anos, em Salvador, na Bahia, com uma festa onde a linda decoração fazia memória ao Período Colonial “Escravocrata” Brasileiro, nas fotos postadas na internet com a hashtag “#DoShow50”, Donata aparece sentada em uma cadeira e ladeada por duas mulheres negras em trajes típicos de baianas.

Quando a socialite foi acusada de fazer alusão ao período da escravidão, como uma sinhá acompanhada de mucamas, respondeu: “Não era uma festa temática. Como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição. Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”.

Donata sentiu-se plenamente a vontade na escolha da decoração de sua festa, simplesmente por que ignora que origem da Cultura e Tradições da Bahia, ignora que mais de 5 milhões de negras e negros foram arrancados do continente africano, traficados, para trabalharem até a morte nas terras brasileiras, ignora que Salvador é a cidade com maior população negra fora do continente africano, nega que as relações no Brasil foram estabelecidas de forma ao branco ter o poder, o direito e a razão e aos negros restar a servidão, obediência e ignorância.

Pessoas como a socialite diretora da Vogue, romantizam o período colonial, pois lembram do conforto no qual os brancos vivam na Casa Grande, conforto garantido pela exploração de mão de obra negra escravizada. Negam que fortunas foram construídas por anônimos, escravizados, chicoteados, destituídos de humanidade e dignidade, que trabalharam até a morte para construí-las e quando mortos, enterrados em valas comuns. A vida dos negros nunca valeu nada no Brasil Colonia, eram peças, e peças relativamente barata, em virtude da abundância de negros a venda nos mercados brasileiros.

Ainda hoje a vida das negras e negros valem muito pouco, um jovem negro é assassinada a cada 23 minutos no Brasil, a taxa de assassinato (feminicídio) de mulheres brancas está em queda, mais as violências e assassinatos de mulheres negras não param de aumentar. Tragédias como de CT do Flamengo, ocorrida também no dia 08 de fevereiro, revelam que “acidentes” no Brasil, tem classe social e cor bem definidos, os jovens eram quase todos negros, de famílias empobrecidas.

Jessé Souza, sociólogo brasileiro, afirma que: há no Brasil a naturalização da miséria e do sofrimento alheio. Todas as sociedades já foram um dia escravocratas, apenas a Europa, no Ocidente, quebrou com a herança escravista do mundo antigo. Isso significa que embora a pessoa seja socialmente inferior a você, ela não será tratada como uma coisa, mas como um ser humano. E com as lutas sociais por igualdade, são produzidos processos coletivos de aprendizado na qual a dor e o sofrimento do outro podem ser revividos em cada um. Nós, por outro lado, mantivemos essa sub-humanidade. Nós não nos importamos com a dor e com o sofrimento dos pobres, as evidências empíricas são claríssimas como a luz do sol, inegáveis para qualquer pessoa de boa vontade. A polícia mata pobres indiscriminadamente – e faz isso porque a classe média e a elite aplaudem. Houve recentemente essa coisa completamente absurda e bárbara das matanças nos presídios, e a classe média aplaudiu. São provas de que temos, como sociedade, ódio aos pobres. Isso veio da escravidão, em que havia uma distinção muito clara entre quem é gente e quem não é. Por isso, não nos importamos com o tipo de escola e de hospital que essa classe vai ter. A Alemanha fez um esforço extraordinário para incorporar os 17 milhões que viviam na Alemanha Oriental, tornando seu mercado mais forte, mas aqui a gente simplesmente joga no lixo esse tipo de coisa porque nunca criticamos a nossa herança escravocrata.

Raymundo Faoro, sociólogo e escritor brasileiro, tratava a existência de senhores de escravos como algo banal, quando na verdade o senhor de escravo deve estar no centro [da análise], já que todas as outras instituições vão se montar a partir daí. É uma continuidade absurda de 500 anos e nós somos cegos a isso. A família dos muito pobres repete há 500 anos a família dos escravizados e eles ainda fazem o mesmo tipo de serviço que faziam antes, são escravizados domésticos. Fazem parte de famílias desestruturadas, uma vez que na escravidão não se estimulava que o escravizado tivesse família porque era preciso humilhá-lo, abatê-lo. Exatamente como acontece hoje. A escravidão só prospera com o ódio ao escravizado e o Brasil de hoje é marcado por uma coisa central que só um cego não vê, o ódio ao pobre. A humilhação do pobre. O único país que se assemelha a nós no planeta é a África do Sul. Vivemos um apartheid aqui. Governos de esquerda caem, acontecem golpes de Estado toda vez que tentam diminuir essa distância entre as classes, afirma Jessé Souza.

Elza Soares fez um post no seu Instagram oficial sobre a festa de Donata Meirelles:

Gentem, sou negra e celebro com orgulho a minha raça desde quando não era “elegante” ser negro nesse país. Quando preto não usava o elevador dos “patrões”. Quando pretos motorneiros dos bondes eram substituídos por brancos em festividades com a presença de autoridades de pele branca. Da época em que jogadores de um clube carioca passavam pô de arroz no rosto para entrarem em campo, já que não “pegava bem” ter a pele escura. Desde que os garçons de um famoso hotel carioca não atendiam pretos no restaurante. Éramos invisíveis. Celebro minha raça desde o tempo em que gravadoras não davam coquetel de lançamento para os “discos dos pretos”. Celebro minha origem ancestral desde que “música de preto” era definição de estilo musical. Grito pelo meu povo desde a época em que se um homem famoso se separasse de sua mulher para ficar com uma negra, essa ganhava o “título” de vagabunda, mas não acontecia se próxima tivesse a pele “clara”. Sou bisneta de escrava, neta de escrava forra e minha mãe conhecia na fonte as histórias sobre o flagelo do povo negro. Protesto pelos direitos da minha raça desde que preta não entrava na sala das sinhás. Gentem, essas feridas todas eu carreguei na alma e trago as cicatrizes. A maioria do povo negro brasileiro. Feridas que não se curaram e são cutucadas para mantê-las abertas demonstrando que “lugar de preto é nessa Senzala moderna”, disfarçada, à espreita, como se vigiasse nosso povo. Povo que descende em sua maioria dos negros que colonizaram e construíram o nosso país. Hoje li sobre mais uma “cutucada” na ferida aberta do Brasil Colônia. Não faço juízo de valor sobre quem errou ou se teve intenção de errar. Faço um alerta! Quer ser elegante? Pense no quanto pode machucar o próximo, sua memória, os flagelos do seu povo, ao escolher um tema para “enfeitar” um momento feliz da vida. Felicidade às custas do constrangimento do próximo, seja ele de qual raça for, não é felicidade, é dor. O limite é tênue. Elegância é ponderar, por mais inocente que sua ação pareça. A carne mais barata do mercado FOI a carne negra e agora NÃO é mais. Gritaremos isso pra quem não compreendeu ainda. Escravizar, nem de brincadeira. Seguimos em luta.”

Djamila Ribeiro, filosofa e feminista negra, também se pronunciou sobre o caso: “Essa festa tratou pessoas negras de maneira desrespeitosa, remetendo a uma herança colonial. O que me incomoda em tudo isso é a conivência. As pessoas que lá estavam agem como se nada tivesse acontecido. Se a gente chega num lugar desse, onde meus antepassados foram torturados, e as pessoas insistem em romantizar isso como se fosse algo banal e agente não fala nada, a gente está compactuando, não tem desculpas. Eu prezo pela honestidade intelectual. Eu sou ativista e tenho uma história e jamais vou compactuar com uma coisa dessas”.

A filósofa não isentou os convidados da responsabilidade do carácter ofensivo da festa. “Além da dona da festa, eu acho que as pessoas que estavam lá também devem ser responsabilizadas, sobretudo as que se dizem antirracista. Passou da hora da branquitude pensar e se repensar. Não dá para compor com o pacto narcísico da branquitude. É muito violento. O que aconteceu não foi meramente uma festa. É o reforço de uma estrutura colonial. Então pessoas que se dizem aliadas, não podem de forma alguma, compactuar com uma violência como essa. É inadmissível. Eu já saí de lugares onde vi essas coisas acontecerem. Já fui boicotada porque eu não negocio a minha humanidade e dos meus. As vezes não conseguimos financiamentos para nossos projetos porque não compactuamos com uma série de coisas. Não podemos vender nossa militância em troca de migalhas. Passou a hora de pessoas negras pararem de usar nossa militância para compactuar com coisas escusas que a gente não acredita”.

 

Michele Corrêa

Graduanda em Filosofia na UFPel, Feminista Negra,

Assessora da Pastoral da Juventude (PJ) e

Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)

 


Referências:

https://www.tnh1.com.br/noticia/nid/diretora-da-vogue-brasil-e-acusada-de-promover-festa-racista/

https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souza-a-elite-do-atraso/

https://mundonegro.inf.br/djamila-sobre-a-festa-da-editora-da-vogue-as-pessoas-que-se-dizem-anti-racistas-tem-que-se-posicionar/

 

 

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