Em Imigrante, encontro reuniu comunidades, religiosos e leigos para relembrar os 800 anos da Páscoa de São Francisco de Assis, o centenário da chegada dos frades holandeses ao estado e os 50 anos da Província São Francisco de Assis. Para o ministro provincial, Frei Olavio Dotto, a herança franciscana precisa continuar germinando em compromissos concretos com a paz, a fraternidade, os pobres e o cuidado com a Casa Comum.

Por Marcos Antonio Corbari | Brasil de Fato e Instituto Cultural Padre Josimo
Há presenças que para ficar. Marcam. Transformam. Iluminam. Permanecem nas histórias contadas em família, nos gestos de partilha, nas comunidades que continuam reunidas e nas pessoas que descobriram um novo sentido para a própria caminhada. Às vezes, estão na lembrança de uma criança acolhida na porta da igreja, no alimento repartido, na visita a uma família ou na mão estendida a quem já não tinha com quem contar.
É desse tipo de presença que testemunham centenas de pessoas que se deslocaram dos mais diversos recantos do Rio Grande do Sul até o município de Imigrante, na divisa do Vale do Taquari com a Serra Gaúcha. O objetivo comum: celebrar o centenário da trajetória franciscana no estado. Mais de 600 participantes, entre religiosos, religiosas, representantes de comunidades, lideranças leigas e pessoas ligadas as diferentes presenças e obras sociais da Ordem Franciscana Menor, participaram do encontro realizado no Convento São Boaventura, no distrito de Daltro Filho.
A celebração reuniu três marcos históricos: os 800 anos da Páscoa de São Francisco de Assis, os 100 anos da chegada dos frades franciscanos holandeses ao Rio Grande do Sul e os 50 anos de criação da Província São Francisco de Assis. Três tempos que se encontram em uma mesma pergunta: o que fazer, hoje, com a herança recebida?
A resposta não está apenas nos registros históricos, nos monumentos ou nas datas comemorativas. Está, sobretudo, nas comunidades que seguem encontrando na espiritualidade franciscana uma maneira de viver a fé, relacionar-se com os outros e compreender o mundo. E é justamente nessa direção que se desenvolve a reflexão do ministro provincial, Frei Olavio Dotto para a data: a tradição só permanece viva quando se transforma em compromisso com a realidade.

Uma história que atravessou oceanos e encontrou morada no chão gaúcho
A presença franciscana no Rio Grande do Sul tem uma história que antecede a criação da atual província. Em 1926, frades holandeses chegaram à região colonial gaúcha, dando continuidade a um processo de expansão missionária iniciado anos antes no Brasil.
Uma apresentação histórica realizada durante o encontro recuperou os registros da chegada dos primeiros religiosos a Bela Vista do Fão, comunidade então ligada à região de Lajeado. A pesquisa, baseada também nos livros de tombo e registros da época, identificou o dia 8 de agosto de 1926 como a data da chegada dos frades Frei Thiago Steffens, designado vigário, e Frei Floriano Groen, seu auxiliar. A pesquisa que resgatou essas memórias ficou a cargo da professora e historiadora Janaine Trombine.
A viagem que deveria representar o início de uma nova presença religiosa não foi simples. Segundo os registros apresentados, os religiosos enfrentaram estradas em condições precárias e levaram aproximadamente nove horas para percorrer o trajeto entre Lajeado e Bela Vista do Fão. A comunidade, entretanto, preparou uma recepção com cruzes, bandeiras, discursos, músicas, orações e foguetes.
Conforme destacou a professora Janaine, “cem anos depois, a memória daquela chegada foi retomada não como uma narrativa de conquistas individuais, mas como afirmação de uma caminhada construída por muitas gerações”.

Célia Maria Plentz – Ministra Regional da Ordem Franciscana Secular e coordenadora para os estados do RS, SC e PR, destacou a dimensão dessa trajetória. Para ela, a celebração representa “o reconhecimento de homens que deixaram sua terra, suas famílias e sua cultura para colocar o Evangelho e o serviço aos irmãos no centro da própria existência”.
Mas essa história possui também uma dimensão institucional: há 50 anos, em Porto Alegre, foi constituída a Província São Francisco de Assis, consolidando uma organização própria para a presença franciscana no estado. Antes disso, os religiosos gaúchos estavam vinculados à província de Minas Gerais.
Mas, se a história começou com homens que atravessaram oceanos, sua continuidade dependeu de milhares de pessoas que abriram as portas das próprias casas, sustentaram as comunidades e assumiram a missão no cotidiano através de diferentes rostos e jeitos, com homens, mulheres e crianças que abraçaram o Tau Franciscano e a missão de viver a Paz e o Bem como personificação do evangelho e da radicalidade do santo de Assis.

Uma história contada pelas pessoas
A dimensão humana dessa trajetória aparece com força nos relatos de quem conviveu ou que ainda convive com os frades ao longo de décadas. E os relatos trazem uma certeza: quem um dia se deixou tocar pela presença desafiadora de São Francisco ou de Santa Clara de Assis, não volta mais a ser o mesmo.
Ana Flávia Machado, da comunidade Santa Rita de Cássia, Paróquia São José, em Gravataí, começou sua caminhada em 2013. Hoje ela não receia em afirmar que “a proximidade, o diálogo e a maneira como os frades conduzem a vida comunitária fazem diferença”. Questionada sobra a importância dessa presença no território, é assertiva: “Eu não consigo imaginar a nossa comunidade sem os freis lá”.
Em Porto Alegre, Célia Plentz encontrou na Ordem Franciscana Secular uma opção de vida. Ministra local e regional, assumiu a responsabilidade de acompanhar fraternidades em diferentes localidades. Sua escolha, explica, é “seguir o Evangelho de Cristo segundo São Francisco” e deixa o convite para que mais pessoas conheçam a experiência franciscana e se aproximem da Ordem Secular.
Já a experiência do casal Bernadete de Fátima e Sílvio Montinelli, da comunidade São José, Vila Schmidt, município de Boqueirão do Leão, demonstra como a presença dos frades fortalece o protagonismo das comunidades. Ministros leigos, eles destacam a abertura dos religiosos à participação popular e o incentivo para que os próprios moradores assumam responsabilidades.

Na experiência de Bernadete, “a missão de levar a Eucaristia às pessoas doentes e necessitadas ganhou ainda mais significado com a convivência franciscana”. Sílvio, por sua vez, conta que “o trabalho comunitário e as visitas aos enfermos fortaleceram sua própria caminhada de fé”. Ambos comungam da mesma impressão: “Levar Jesus às pessoas necessitadas é muito importante”.
Em Taquari, a pediatra Maria Cristina Locatel dos Santos carrega uma história que atravessa gerações. Relembra a importância do Frei João em sua vida, que acompanhou diferentes momentos: “Ele esteve comigo desde a primeira Confissão, a Primeira Comunhão, o Crisma, o casamento, os batizados das filhas e da neta e até a unção dos enfermos, durante uma doença grave que atravessei”.
“A minha maneira de me relacionar com Deus é franciscana”, afirma. Para ela, os religiosos não são apenas referências da vida comunitária: tornaram-se parte da família.
A lembrança de Maria Cristina também atravessa gerações. Sua neta, de apenas três anos, gosta de ouvir as histórias de São Francisco e carrega consigo uma pequena imagem do santo. A relação com a natureza e os animais é um dos aspectos que mais despertam a curiosidade da criança.

Gilberto Perez, também de Taquari, aprendeu com os frades que a simplicidade pode ser um caminho para enfrentar as dificuldades. Ao recordar Frei José, que teve como padrinho de convivência, lembra uma história da infância que o religioso compartilhava: em uma família numerosa e com dificuldades para conseguir alimento, ele costumava comer menos para deixar comida aos irmãos. “Isso mostra que a pessoa traz dentro dela essa humildade”, recorda.
Já Gilberto Santos Cavalheiro, de Agudo, destaca a importância da presença franciscana para atender comunidades rurais distantes. São cerca de 14 comunidades no interior do município, muitas delas separadas por longos trechos de estrada de chão. Ele ressalta o acolhimento dos frades e a necessidade de fortalecer a participação comunitária para que a missão continue. “Não existe distância que eles não estejam dispostos a percorrer e sempre chegam com alegria mesmo enfrentando estradas difíceis e longos deslocamentos”.
Em Porto Alegre, Sinézio Weschenfelder encontrou na convivência franciscana oportunidades de colocar o Evangelho em prática. Há cinco anos participa da comunidade São Francisco de Assis e se envolve em ações de solidariedade, entre elas a distribuição de alimentos, os almoços e a oferta de banhos para pessoas em situação de rua.
A experiência o fez compreender que “a fraternidade não se resume à celebração religiosa: precisa chegar a quem vive nas margens”. Ao recordar o primeiro encontro de Natal com pessoas em situação de rua, conta que descobriu histórias e realidades que antes não conhecia. “A gente descobriu que são pessoas que realmente precisam de um apoio”, relata Sinézio.

Maria Terezinha da Luz Almeida, da rede de comunidades São José, em Gravataí, chama atenção para uma dimensão nem sempre lembrada: os religiosos também precisam ser cuidados e essa responsabilidade precisa ser exercida pela comunidade onde eles estão inseridos. É um chamado à reciprocidade.
“Muitas vezes nós precisamos deles, lógico, mas muitas vezes eles precisam de nós. Nós temos que ter esse olhar para eles como um membro da nossa família”. Ao recordar com saudade o Frei João, conta que sua filha, ainda pequena, costumava chegar à igreja e colocar as mãos sobre as mãos do religioso. O gesto permaneceu na memória familiar e continuou sendo praticado pela filha, hoje adulta.
A lembrança de Carla Mariane Marques, de Tiradentes do Sul, aproxima a memória franciscana da história de sua própria família. Seu pai conta que Frei Sérgio Görgen – falecido recentemente – que visitava os camponeses, celebrava e pedia milho para alimentar as galinhas criadas pelos religiosos. Sua mãe também conta com carinho que a filha andou no colo do frade quando era pequena: “É uma lembrança muito carinhosa que tenho, que traz muito orgulho”.
A memória afetiva vem acompanhada do reconhecimento de uma formação que ultrapassava o campo religioso. Carla recorda o trabalho com a Pastoral da Juventude e as atividades desenvolvidas pelos frades na região. “Foi muito importante para mim a formação, não só religiosa, mas também cidadã”, afirma.

Darci Perin, que teve uma longa trajetória de convivência com os franciscanos e participou inclusive de atividades de formação da Ordem, destaca a dimensão social do carisma. Para ele, que hoje reside em Arroio do Meio, “São Francisco representa uma maneira de compreender a vida em sua totalidade, não apenas na dimensão religiosa, mas também na corporal, social e espiritual”. Ao falar da opção pelos mais vulneráveis, lembra que o próprio Evangelho aponta nessa direção. “A gente precisa entender toda essa dimensão social”, defende.
Também identifica sinais do franciscanismo nos movimentos sociais e nas organizações populares. Perin cita os pequenos agricultores, acampados e assentados como “expressões de uma espiritualidade que continua presente nas lutas por justiça, unidade e bem comum”. Seu recado é direto: “cada pessoa precisa encontrar uma maneira de se engajar em algum processo coletivo comprometido com a justiça social e o cuidado com a Casa Comum”.
Em Horizontina, Ana Denise Görgen Strapasson guarda uma memória familiar profundamente ligada aos franciscanos. Criada em Não-Me-Toque, recorda religiosos como Frei Mauro, Frei Osmar, Frei Gabriel e Frei Luiz, que acompanharam diferentes etapas de sua vida. Foi a relação construída ao longo dos anos que possibilitou seu convite para trabalhar na pastoral em Horizontina, em 1993. Ela também recorda as experiências de catequese, círculos bíblicos, Pastoral da Juventude, olimpíadas e festivais juvenis.
Prima de Frei Sérgio Görgen, Ana Denise fala com emoção do religioso, que considera um testemunho de luta e oração. “Ele sempre lutava e orava junto”, recorda, ao destacar a capacidade do frade de motivar as pessoas a não desistirem de seus sonhos. A história da família também revela uma dimensão coletiva da sustentação da missão: campanhas comunitárias de arrecadação de donativos para ajudar na formação dos novos religiosos. Hoje, ela continua participando do grupo de vocações e defendendo a presença franciscana em Horizontina.

Cláudia Neis e Clair Freisleben, trabalhadoras do Convento São Boaventura, também encontram no ambiente franciscano uma experiência de acolhimento. Há quase cinco anos trabalhando no local, descrevem a convivência com os frades e colegas como uma relação familiar. “A nossa segunda casa, nossa família”, resumem.
Ao lembrar uma atividade realizada com cerca de 150 pessoas – jovens filhos de camponeses da base do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) que vieram de todas as regiões do país –, em um período marcado pelas consequências das enchentes, destacam como foi marcante a mobilização e a alegria de trabalhar coletivamente. Para elas, o legado das ações desenvolvidas naquele momento difícil, de modo especial a Missão Sementes de Solidariedade, precisa continuar, especialmente na ajuda ao próximo.
Aline Pilar Coelho Eberle, de São José do Inhacorá, relaciona a presença franciscana à história de sua comunidade, que tem 85 anos e abriga um santuário dedicado a São Francisco de Assis. Ela destaca a continuidade do trabalho dos religiosos nas atividades comunitárias, na Semana Santa e nas visitas escolares. Para Aline, “a solidariedade, o acolhimento e o cuidado com os idosos, os animais e toda a comunidade são formas de renovar o espírito franciscano”.
Naldi Terezinha e Pedro Edílio Eingster, de Três Passos, também trouxeram uma história de convivência que se aproxima de cinco décadas. O casal recorda a amizade construída com os frades, as festas comunitárias, as orações pelas vocações e a colaboração cotidiana com o convento. “São quase 50 anos de convivência, que mostra como a fraternidade também se constrói com trabalho, amizade e partilha”, explicam Naldi e Pedro, recordam de muitos momentos em que contribuíram com seu ofício construindo móveis e utensílios em madeira para os frades. Recentemente foram chamados a esculpir o Tau que está em peregrinação itinerante por cada uma das presenças franciscanas estabelecidas no território do RS e até mesmo além dele.

Acolhimento e transformação social
Um dos espaços mais concorridos do dia de celebração no convento em Daltro Filho foi a sala onde o Centro de Promoção da Criança e do Adolescente montou uma verdadeira teia de ações que partiam de uma imagem de São Francisco e se estendia por dezenas de produtos resultantes de suas ações na periferia de Porto Alegre.
Na Lomba do Pinheiro, onde o CPCA atua, a presença franciscana também se expressa no trabalho cotidiano com crianças, adolescentes e famílias que enfrentam situações de vulnerabilidade social. É ali que, segundo Mônica Melquiona Albuquerque, se desenvolve há 47 anos um trabalho inspirado nos valores de São Francisco de Assis.
Acompanhada por dezenas de voluntários e beneficiários da ação, a coordenadora destacou que “a missão vai além do atendimento: trata-se de acolher pessoas, respeitar as diferenças e contribuir para que crianças, adolescentes e suas famílias encontrem oportunidades de construir outros caminhos”.
“Abrace uma vida, mude uma história” é o lema que orienta esse trabalho. Para Mônica, a pedagogia franciscana se manifesta justamente nessa capacidade de receber cada pessoa com respeito, reconhecer sua dignidade e acreditar que é possível transformar realidades marcadas pela desigualdade.

“São Francisco está em cada criança, em cada abraço que elas nos dão e que a gente pode dar a elas”, afirmou. A presença franciscana, acrescenta, “também aparece nos momentos em que as crianças reconhecem na equipe do CPCA pessoas em quem podem confiar, com quem podem compartilhar suas histórias e aprender — numa relação em que os adultos também aprendem com elas”.
O testemunho evidencia uma dimensão essencial do legado franciscano: a espiritualidade que não se fecha nos espaços religiosos, mas se faz compromisso com a vida concreta, sobretudo onde a desigualdade social exige presença, escuta e cuidado. Na sala cuidadosamente preparada pelas voluntárias no dia anterior ao encontro, a fraternidade ganha corpo no trabalho diário com as novas gerações e na construção de vínculos capazes de abrir possibilidades de futuro.
O franciscanismo como compromisso com o mundo
É nesse conjunto de histórias que a reflexão de Frei Olavio Dotto ganha dimensão especial. Em sua homilia, o ministro provincial propôs uma leitura do legado de São Francisco a partir de sementes que precisam continuar germinando no presente.
A primeira delas é a paz. Mas não uma paz entendida como simples ausência de conflitos ou como uma saudação repetida por hábito. Ao recuperar a expressão franciscana “O Senhor te dê a paz”, Frei Olavio defendeu que ela seja compreendida como estilo de vida e programa de evangelização. “Levar paz, sermos instrumentos de paz pela nossa boca, pelos nossos gestos, nossas atitudes”, afirmou.

A distinção é importante. Em um mundo atravessado pela violência, pela intolerância e pelo ódio, a paz franciscana exige mais do que discursos conciliadores. Exige a disposição de reconstruir relações, enfrentar rupturas e buscar caminhos de reconciliação. Na interpretação do religioso, Francisco não propõe uma convivência superficial, que esconda os conflitos, mas relações que possam ser curadas pela misericórdia.
A segunda semente é a fraternidade. E, para explicar seu sentido, Frei Olavio recuperou uma expressão do testamento de São Francisco: “O Senhor me deu irmãos”. A escolha das palavras contém uma concepção profunda de comunidade. Francisco não dizia que havia escolhido seus irmãos, mas que os havia recebido. Isso significa acolher quem chega, reconhecer a diversidade e compreender que a fraternidade não depende de todos pensarem ou agirem da mesma maneira. “Ele nunca buscou eliminar diferenças, mas acolheu cada frade do seu jeito, dentro desse mesmo horizonte evangélico”, explicou o ministro provincial.
A reflexão ganha relevância para além da vida religiosa. Em sociedades marcadas pela polarização e pela tendência de transformar diferenças em inimizades, a fraternidade exige que ninguém seja descartado. É um convite à convivência, ao diálogo e à construção de caminhos comuns. Para Frei Olavio, essa é uma tarefa urgente: não negar as diferenças, mas não transformar quem pensa diferente em inimigo. A fraternidade precisa ser uma experiência concreta, na qual cada pessoa possa trazer aquilo que é e contribuir para um projeto coletivo.
A terceira semente é o cuidado com a criação. São Francisco, reconhecido como referência de uma espiritualidade profundamente ligada à natureza, deixou um chamado que, segundo o religioso, se tornou ainda mais urgente diante da crise climática.

O ministro provincial relacionou os impactos das mudanças climáticas à vida cotidiana: a água, a alimentação, a saúde, o aumento das temperaturas e as enchentes. Chamou atenção, especialmente, para o fato de que os mais atingidos são os pobres e aqueles que dependem diretamente da terra, da chuva e das colheitas para sobreviver.
“Aqueles que vivem do que a terra oferece, que dependem da chuva, que dependem da colheita”, lembrou Frei Olavio ao apontar quem mais sofre com os desequilíbrios ambientais. A defesa da Casa Comum, portanto, não pode ser separada da justiça social. O cuidado ambiental precisa considerar as pessoas e os territórios que mais sofrem com a degradação da natureza. Também exige mudanças nos hábitos individuais e coletivos, em direção a um modo de vida mais simples, humano e comprometido com o cuidado.
A quarta semente é a oração. Frei Olavio lembrou que São Francisco não apenas rezava: sua própria vida foi se tornando oração. A pobreza, a fraternidade, a alegria e a misericórdia brotavam de uma existência moldada pela presença de Deus. A oração, nessa perspectiva, não é uma atividade isolada, reservada ao tempo que sobra depois das obrigações. É uma experiência que transforma a maneira de viver e de se relacionar.
“As quatro sementes – paz, fraternidade, cuidado com a criação e oração – não aparecem como dimensões separadas. Formam um mesmo projeto de vida, no qual a espiritualidade precisa produzir consequências concretas nas relações humanas e na maneira como a sociedade trata os mais vulneráveis”, alinhavou o ministro provincial.

Uma Igreja que não tenha medo de sair ao encontro
A reflexão de Frei Olavio também dialoga com os desafios da própria organização franciscana. Celebrar uma história centenária, para ele, não significa apenas olhar para o passado com gratidão. É necessário perguntar o que está sendo feito com o legado recebido e quais marcas estão sendo deixadas nas pessoas e nas comunidades.
Em sua mensagem, o ministro provincial questionou: “que marcas franciscanas estamos deixando nas pessoas que encontramos? Que Igreja estamos ajudando a construir?” A resposta passa pela construção de uma Igreja próxima das pessoas, especialmente daquelas que mais precisam. “Uma Igreja que não tenha medo de sair ao encontro, servir e amar”.
Essa perspectiva aparece também na participação dos leigos e leigas no encontro. A missão franciscana não pode ser compreendida como uma tarefa exclusiva dos religiosos. Ela se realiza na colaboração entre frades, comunidades, lideranças e pessoas que assumem cotidianamente o compromisso de viver o Evangelho.
Edneia Ferreira, falando em nome dos leigos e leigas das diferentes presenças franciscanas, ressaltou que a participação popular precisa ser reconhecida como parte constitutiva da missão. “Nós, leigos e leigas, não somos apenas pessoas que ajudam quando precisam. Somos parte dessa missão”, afirmou.

A fala reforça a importância de uma caminhada construída conjuntamente, com espaço para a escuta, a participação e o reconhecimento dos diferentes dons e experiências. “A sinodalidade, nesse sentido, não pode permanecer como conceito. Precisa se expressar na construção conjunta dos caminhos da evangelização”, acrescenta.
O desafio também envolve compreender as transformações do tempo presente. Em uma das intervenções, foi destacada a necessidade de utilizar as novas tecnologias, inclusive a inteligência artificial, com responsabilidade e discernimento, sem perder de vista o essencial: Jesus Cristo, a Palavra, a oração e o encontro com as pessoas. A tecnologia pode ampliar o alcance da missão, mas não substitui a espiritualidade nem o vínculo humano que sustenta a presença comunitária.
Nicanor Constantin, representante dos ex-alunos franciscanos, também relacionou a herança recebida ao compromisso cotidiano de construir a paz. Para ele, a missão não é exclusiva dos religiosos: a vida familiar e comunitária também oferece oportunidades para que cada pessoa seja instrumento de reconciliação.
A participação das autoridades locais também foi marcada pelo reconhecimento do trabalho social e religioso desenvolvido pelos franciscanos. O prefeito de Imigrante, Germano Stevens, destacou a importância de receber os participantes no município e reconheceu a contribuição dos religiosos para as comunidades, especialmente junto às pessoas que mais precisam.

A memória de Frei Sérgio e as sementes que continuam germinando
Entre as muitas histórias compartilhadas durante o encontro, a lembrança de Frei Sérgio Görgen trouxe uma dimensão particular à celebração.
Carla Marques, que conviveu com o religioso por meio de sua família, recordou as visitas à propriedade rural no interior de Tiradentes do Sul. A lembrança de um gesto simples – oferecer alimento a quem chegava – atravessou o tempo e permaneceu na memória familiar.
Ana Denise, prima de Frei Sérgio, também recordou o religioso como alguém que articulava luta e oração, presença nas comunidades e compromisso com as causas populares. Para ela, seu testemunho continua inspirando pessoas a não desistirem dos sonhos e da transformação da realidade.
O relato se aproxima de outra experiência compartilhada por participantes ligados ao Convento São Boaventura, onde Frei Sérgio esteve em atividades de convivência e solidariedade. A mobilização para ajudar famílias atingidas pelas enchentes – a Missão Sementes de Solidariedade – também foi lembrada como parte de um legado que precisa continuar.

Não por acaso, a imagem das sementes atravessou a celebração. No encerramento, os participantes receberam pequenas porções de sementes crioulas: feijão miúdo, girassol, arroz de sequeiro e diferentes variedades de milho, entre outras.
A iniciativa foi articulada com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Santa Cruz do Sul, que trabalha com sementes crioulas e já havia contribuído para ações de apoio a famílias atingidas pelas enchentes. Algumas dessas sementes chegaram a famílias que precisavam recomeçar suas lavouras e reconstruir suas condições de produção.
O gesto de entregar sementes aos participantes transformou a memória em compromisso. Não se tratava apenas de levar uma lembrança do encontro para casa, mas de assumir a responsabilidade de plantar, cuidar e fazer frutificar. Já a mensagem escolhida para acompanhar a distribuição sintetizou o sentido da celebração: “Nós com Francisco e Clara, sementes de paz e fraternidade”.
A imagem também dialoga com a homilia de Frei Olavio. A herança espiritual não é algo que se guarda intacto, como peça de museu. É uma semente que precisa encontrar terra, ser cuidada e produzir novos frutos. E no ponto culminante, que os frutos sejam compartilhados, conforme ensinou a interpretação radical do Evangelho desenvolvida por Francisco de Assis e seus irmãos e irmãs há 800 anos.

O futuro depende de quem assume a caminhada
Ao final do encontro, Frei Olavio Dotto agradeceu aos frades, às equipes de organização, aos colaboradores do Convento São Boaventura, aos leigos e leigas e a todos que se deslocaram de diferentes regiões do estado para participar da celebração.
Mas o gesto de despedida foi também um envio. Os participantes foram convidados a retornar às suas comunidades levando consigo a experiência de convivência, espiritualidade, cultura e partilha vivida em Imigrante. A celebração dos 800 anos da Páscoa de São Francisco, do centenário da chegada dos frades holandeses e do cinquentenário da Província São Francisco de Assis não encerra uma história. Recoloca diante de cada pessoa a responsabilidade de continuá-la.
Em diferentes sotaques, idades e trajetórias, os depoimentos reunidos durante o encontro apontam para uma mesma compreensão: a presença franciscana ganha sentido quando se torna proximidade, acolhida, serviço e compromisso com a vida.
Talvez seja esse o maior significado de uma história que atravessou um século no Rio Grande do Sul e desde ali chegou a outras terras distantes, permanecendo inspirada por uma experiência espiritual iniciada há oito séculos. Não basta recordar São Francisco, admirar sua imagem ou repetir suas palavras. É preciso permitir que seu modo de viver transforme nossas escolhas.

Como insistiu Frei Olavio, a paz precisa aparecer nos gestos, a fraternidade deve acolher as diferenças, o cuidado com a criação precisa alcançar os territórios e os mais vulneráveis, e a oração deve sustentar a vida inteira.
A história franciscana não pertence somente aos frades que chegaram da Holanda, aos religiosos que construíram a província ou aos nomes que ficaram registrados nos livros. Pertence também à mulher que abre a igreja, ao casal que visita os doentes, ao trabalhador que oferece seu tempo, à educadora que acolhe crianças, à família que reparte o alimento e a quem decide não abandonar a comunidade.
São essas pessoas que mantêm a semente viva. E, cem anos depois da chegada dos primeiros frades holandeses ao chão gaúcho, talvez a melhor maneira de honrar aqueles que vieram antes seja justamente essa: continuar semeando e continuar compartilhando.
