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Pesquisas identificam hortaliças com potencial de adaptação às mudanças climáticas no RS

Estudos desenvolvidos pela FURG, Campus São Lourenço do Sul,  identificaram 30 espécies de hortaliças não convencionais com alto desempenho para a agricultura no estado do Rio Grande do Sul

 

Atividade de campo do NEA PancPop promove a troca de conhecimentos e experiências sobre o cultivo de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Foto: Acervo/NEA PancPop.

 

São Lourenço do Sul, 27 de outubro de 2026 – Outubro é um período oportuno para ampliar o debate sobre a agroecologia e sua importância para a produção sustentável de alimentos. A valorização da agrobiodiversidade, dos conhecimentos dos agricultores familiares e camponeses e de práticas agrícolas adaptadas às características de cada território ganha ainda mais relevância diante das mudanças climáticas e aumento da incidência de eventos climáticos adversos e extremos. Em São Lourenço do Sul, pesquisas científicas desenvolvidas pelo Núcleo de Estudos em Agroecologia PancPop (NEA PancPop) contribuem para essa discussão, ao investigarem a resistência e resiliência de espécies de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) frente à condições climáticas adversas.

Um dos estudos principais acompanhou o cultivo de diferentes espécies de PANC entre 2023 e 2024, período no qual o estado do Rio Grande do Sul enfrentou uma das piores catástrofes climáticas de sua história. Das 42 espécies de PANC cultivadas em uma propriedade rural, 30 apresentaram alto desempenho em resistência e resiliência diante de eventos climáticos adversos, como estiagem, chuvas intensas, vendavais e variações de temperatura.

Os resultados reforçam o potencial das PANC como alternativas para sistemas de produção mais diversificados e adaptados às mudanças climáticas. Nesse contexto, a coordenadora do NEA PancPop e professora da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Dra. Jaqueline Durigon, destaca a contribuição da agroecologia para o desenvolvimento de formas mais sustentáveis de produzir alimentos.

“A Agroecologia é praticada por povos e comunidades tradicionais e camponeses, e o Brasil é referência no mundo em pesquisa, ensino e extensão rural nessa área. No cenário atual, as PANC têm se destacado como estratégias fundamentais para uma ‘outra agricultura’, muito mais eficiente, mais inteligente e sustentável. Isso porque, além de serem altamente produtivas, com grande valor nutricional, essas plantas são tolerantes a doenças e pragas e capazes de resistir ou se recuperarem após eventos climáticos adversos”, ressalta.

Durante o período de observação, o cultivo também enfrentou temperaturas de até

39,6 °C, além de episódios de geadas intensas. Além de Universidades como a FURG, UFPel, UFRGS, além da Embrapa Hortaliças, a pesquisa envolveu diretamente agricultores familiares do município, aproximando a investigação científica das condições reais de produção no território.

 

Agroecologia diante das mudanças climáticas

A agroecologia é uma ciência que considera as relações entre solo, água, plantas, agrobiodiversidade, territórios e comunidades rurais. Nesse contexto, a diversificação dos cultivos pode ampliar as alternativas de produção e diminuir a dependência de um número restrito de espécies, especialmente diante de condições climáticas desfavoráveis.

“As PANC fazem sentido no contexto de sistemas biodiversos para a promoção da resiliência climática e da resistência climática, porque é só com uma grande diversidade de espécies que a gente consegue construir essa perspectiva de que uma espécie apoia outra ou garante uma produção diante da perda de capacidade produtiva de outra. Não faz nenhum sentido pensar a produção das PANC numa lógica de monocultura, até porque é essa lógica que tem mostrado alta vulnerabilidade aos eventos climáticos adversos”, afirma o professor da FURG, Dr. Carlos Alberto Seifert Jr. (Jajá).

Jajá também destaca a necessidade de políticas públicas para apoiar agricultores e agricultoras na manutenção desses sistemas produtivos. “Ainda são muito incipientes os processos de formulação e implementação de políticas públicas para amparar agricultores e agricultoras a produzirem e manterem esses sistemas. A gente precisa reconhecer nos agricultores que mantêm esses sistemas um papel social, porque eles conservam uma diversidade de espécies que pode ser estratégica para garantir o nosso futuro e a capacidade de fornecer alimento diverso e de qualidade nesse presente de adversidades climáticas e num futuro incerto”, ressalta.

Além dos aspectos climáticos, as pesquisas realizadas pelo NEA PANCPOP buscam compreender o comportamento das PANC em relação à produtividade, à resistência ou tolerância a pragas e doenças e à aceitação pelos agricultores.

 

Pesquisa identificou espécies com diferentes respostas ao clima

Entre as 42 espécies avaliadas, 31 apresentaram melhor adaptação considerando o conjunto dos critérios analisados. Além disso, 15 obtiveram avaliação elevada em todos os quesitos.

As observações também permitiram identificar diferenças na resposta das plantas às condições ambientais. O jambu, uma planta muito utilizada em regiões tropicais do Brasil, mas pouco explorada no Rio Grande do Sul, apresentou bom desempenho mesmo diante do frio e da ocorrência de geadas.

Outro exemplo é o tupinambor, espécie próxima ao girassol que desenvolve estruturas subterrâneas comestíveis. Segundo a professora Jaqueline Durigon, a planta demonstrou capacidade de recuperação após a incidência de vendavais, mantendo alta produtividade.

Esses resultados ajudam a compreender dois conceitos importantes para a adaptação climática. A resistência, que está relacionada à capacidade de uma planta suportar condições adversas, e a resiliência, que por sua vez, diz respeito à capacidade de recuperação após às adversidades. 

“A pesquisa científica em Agroecologia é capaz de apontar caminhos para a agricultura no Brasil e no mundo e é isso que observamos nessa pesquisa. Enquanto grande parte do Rio Grande do Sul sofria com as enchentes de 2024 e eventos climáticos adversos, com grande comprometimento da safra de hortaliças, nós registramos altos índices de produtividade para algumas espécies de PANC, como o tupinambor e a araruta,  e uma ampla variedade de oferta de folhosas nas feiras locais. Então, o papel estratégico das PANC está bastante claro e amparado cientificamente”, destaca Jaqueline.

 

PANC ampliam as possibilidades para a agricultura familiar

As Plantas Alimentícias Não Convencionais são espécies com potencial alimentício que não fazem parte dos hábitos de consumo cotidiano pela maioria da população. Sua utilização pode diversificar a produção e ampliar a variedade de alimentos, de acordo com as condições de cada propriedade.

Para agricultores familiares e camponeses, a diversificação pode representar uma estratégia para ampliar as opções produtivas e valorizar espécies adaptadas às características do território. O cultivo de PANC também se relaciona à valorização da agrobiodiversidade, à segurança e à soberania alimentar e aos conhecimentos tradicionais sobre plantas utilizadas na alimentação.

A agricultora camponesa Neusa Fischer, participante do NEA PANCPOP, relata que a experiência com essas espécies ampliou suas possibilidades de produção e alimentação. Segundo ela, a resistência das plantas às condições climáticas adversas e a capacidade de rebrotar ou germinar novamente favorecem o cultivo e a oferta de alimentos.

“Eu me encontrei nas PANC. Estou sempre buscando aprender mais a respeito destas plantas maravilhosas. Mas sei que são muito mais resistentes que as convencionais. Outra vantagem é que tem muitas que nascem espontaneamente, são rústicas. Aguentam muito mais tempo na terra sem estragar, depois de completar o ciclo. Se adaptam às mudanças climáticas com facilidade. Muitas vezes, depois de tempestades violentas, parece que está tudo perdido, sem vida. Poucos dias depois, lá estão bem, firmes e fortes, fornecendo alimento para nossa mesa”, conta Neusa. A agricultora também destaca a possibilidade de cultivar diferentes espécies em espaços pequenos, combinando plantas com características distintas, e a contribuição das PANC para a renda familiar. As espécies fazem parte dos alimentos comercializados por ela na feira aos sábados, e a aquisição de sementes pelo PEA Sementes também fortalece a produção.

 

NEA PANCPOP aproxima conhecimento científico e experiências do território

O Núcleo de Estudos em Agroecologia PANCPOP (NEA PANCPOP), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande (FURG), desenvolve atividades relacionadas à agroecologia e à valorização das plantas alimentícias não convencionais. A temática da pesquisa dialoga com a aproximação entre o conhecimento científico e as experiências dos agricultores.

Os resultados oferecem subsídios para novas investigações sobre o comportamento das PANC em diferentes condições de cultivo. O estudo inaugura uma investigação para o desenvolvimento de futuras análises capazes de complementar e aprofundar a compreensão sobre as respostas das espécies a eventos climáticos e às particularidades de cada ambiente.

Na avaliação de Jaqueline Durigon, a ação da Universidade e parceiras por meio do NEA tem promovido uma grande transformação social na metade sul do estado. Grandes avanços já foram conquistados, incluindo a ampliação da oferta das PANC em feiras locais, inserção das espécies em Programas Institucionais como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o que amplia a geração de renda para as famílias agricultoras. 

“As PANC têm se tornado um verdadeiro ‘seguro produtivo’ e novas pesquisas do NEA PANCPOP já estão investigando sua inserção em produtos alimentícios e fitoterápicos”, afirma Jaqueline.

No mês da Agroecologia, a experiência desenvolvida em São Lourenço do Sul reforça a importância de investigar estratégias científicas para a adaptação da agricultura às mudanças climáticas. Ao avaliar diferentes espécies e suas respostas às condições ambientais, a pesquisa amplia o conhecimento sobre o potencial das PANC e suas possibilidades de inserção em sistemas de produção diversificados

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