Em breve, Instituto Cultural Padre Josimo e Brasil de Fato lançam série com 12 episódios sobre tradições afro-gaúchas
Clara Aguiar E Marcela Brandes
Estreia, em breve, no Youtube do Brasil de Fato RS, o podcast “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”. A série reúne 12 episódios dedicados à história, aos saberes, à espiritualidade, à cultura e às lutas da população negra no Rio Grande do Sul. A apresentação é de Iyá Vera Soares, que conduz encontros com lideranças religiosas, pesquisadoras, educadoras e militantes do movimento negro ao longo de todo o programa.
Religiosidade, território e ancestralidade
A relação entre religiosidade de matriz africana e território aparece em mais de um episódio da série. No primeiro episódio, a relação entre os povos de terreiro e a economia solidária é o tema da entrevista com Gil Neves, educadora popular com atuação junto às comunidades de matriz africana no Rio Grande do Sul. Ela fala sobre organização comunitária, segurança alimentar e estratégias de enfrentamento à fome, à desigualdade social e ao racismo estrutural.

No segundo programa, a convidada é Iya Bia da Ilha, ialorixá de um terreiro localizado na Ilha da Pintada, em Porto Alegre, cuja liderança religiosa e comunitária é referência na discussão sobre território e territorialidade das tradições afro-gaúchas. Ela também trata sobre as enchentes e os terreiros atingidos.
Transmissão entre gerações
Dois episódios da série tratam especificamente de como o legado ancestral chega às novas gerações. No terceiro, a jornalista Maria Helena, filha de Iyalorixá, aborda a participação da juventude nas tradições de matriz africana, os desafios de manter viva a tradição em contextos urbanos contemporâneos e o que significa crescer como filha de uma liderança religiosa.

No sétimo episódio, quem debate o tema sob a perspectiva da educação formal é Lucia Regina Brito Pereira, conhecida no terreiro como Yemoleayaba. Gaúcha, licenciada e bacharel em História pela PUCRS desde 1991, com mestrado concluído em 1995 e doutorado em 2008 pela mesma universidade, ela construiu trajetória acadêmica dedicada à história afro-brasileira e à educação das relações étnico-raciais no Rio Grande do Sul, com produções sobre quilombos urbanos de Porto Alegre e sobre a implementação da Lei 10.639/2003 nas escolas gaúchas.

Pereira é autora de capítulos em obras como “Negras Histórias no Rio Grande do Sul” e “Colonos e Quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre”. No episódio, discute como a educação formal e não formal pode combater o racismo religioso, a aplicação da Lei 10.639/2003 na valorização da história africana e afro-brasileira, a preservação das tradições dentro e fora da escola, os desafios enfrentados em escolas e universidades e o papel dos terreiros como espaços de transmissão de saberes.
Saúde integral e ervas medicinais
O quarto episódio é dedicado à relação entre saúde e ancestralidade, com a participação de Kota Mulangi, nome religioso da Dra. Regina Goulart, médica e Ialorixá que atua no município de Rio Grande. Ela une a prática da medicina formal ao conhecimento ancestral das ervas e dos rituais de cura de matriz africana, abordando o uso de ervas medicinais em curas físicas, energéticas e rituais espirituais, a relação entre saúde integral, corpo, espírito e natureza, os diálogos e tensões entre medicina formal e saberes tradicionais, e o papel da Ialorixá no cuidado da comunidade.
Economia solidária e cooperativismo negro
A série reserva dois episódios para experiências de organização econômica das comunidades negras. No sexto, Iya Gisa de Oxum, Ialorixá e liderança comunitária no Rio Grande do Sul, discute o cooperativismo negro desde o período do navio negreiro, experiências contemporâneas de cooperativismo em terreiros, cozinhas solidárias ancestrais e redes de apoio comunitário, e a ancestralidade como base organizativa das comunidades negras.
Tambores, música e pesquisa acadêmica
Três episódios da série tratam da relação entre música, percussão e resistência negra. No décimo primeiro, Baba Phill, criador do Batuque Poa, projeto de referência na formação de tamboreiros no Rio Grande do Sul, fala sobre a importância dos cânticos, tambores e instrumentos na tradição de matriz africana, sobre como a música conecta e fortalece a identidade comunitária, sobre a formação de novas gerações de tamboreiros e sobre o Batuque Poa como experiência de transmissão cultural.
O oitavo episódio traz a pesquisadora Juliane Andreia Lucio Soares, que participa do Programa de Pós-Graduação em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros da Universidade Federal do Maranhão. Sua pesquisa investiga a noção de pessoa africana e afro-brasileira a partir da categoria Ìmò Jé, tendo como local de investigação a comunidade tradicional de matriz africana Ilé Asé Aloyá Iforakaran, no Rio Grande do Sul.
Segundo a pesquisadora, o estudo busca compreender como a visão de mundo do povo batuqueiro contribui para a construção de concepções de pessoa, humanidade e modos de existir, valorizando os saberes produzidos no interior das comunidades tradicionais como fundamentos legítimos para a produção de conhecimento em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros.

No sexto episódio, a percussionista e pesquisadora Nina Fola discute o tambor como meio de comunicação política do povo negro na África e na diáspora, o tambor como símbolo de resistência afro-gaúcha e a pesquisa acadêmica sobre percussão e cultura africana.
História do Movimento Negro Unificado
O décimo episódio recebe Emir Silva, analista de políticas públicas formada pela UFRGS e militante do Movimento Negro Unificado (MNU). Emir Silva integra a direção da Executiva Nacional da ANLU – A Nossa Luta Unificada, e atua no campo de reflexão, análise e articulação política do MNU. O episódio trata da resistência histórica e atual da organização no Rio Grande do Sul e no país.
A série é encerrada com a participação da socióloga Reginete Bispo sobre a participação das mulheres negras nos espaços de poder.
A série completa passa a ficar disponível no Youtube e nas redes sociais do ICPJ e do BDF RS a partir da estreia.
Esta matéria é parte das ações do Projeto “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”, executado em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. O apoio se dá conforme o Termo de Fomento nº 973281, correspondente à Meta 6 (Produção de Matérias escritas para mídias digitais).