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Opinião | As mãos que se fecham: reflexão sobre feminicídio, patriarcado e privilégio

Não basta condenar o feminicídio; é preciso enfrentar o patriarcado que sangra os corpos, os sonhos e o chão das mulheres

 

Marcos Antonio Corbari – ICPJ*

 

 

Há homens que se indignam diante de um feminicídio. Há homens que compartilham campanhas de enfrentamento à violência. Há homens que dizem apoiar as mulheres. Mas o feminismo começa a se tornar um problema para muitos deles quando deixa de ser discurso e passa a exigir renúncia e atitude. Renúncia ao privilégio de falar mais alto. Renúncia ao privilégio de decidir sozinho. Renúncia ao privilégio de ocupar os espaços de poder como se fossem naturalmente seus. É nesse ponto que a solidariedade declarada encontra a estrutura histórica do patriarcado — e muitos recuam.

Os números ajudam a desfazer qualquer ilusão. O Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o maior número desde que o crime foi tipificado em 2015. Foram quatro mulheres assassinadas por dia pela condição de serem mulheres. Enquanto as mortes violentas em geral diminuíram, a violência de gênero seguiu crescendo, revelando que não estamos diante de um problema de segurança pública isolado, mas de uma engrenagem específica de dominação patriarcal. Não são estatísticas frias, são vidas interrompidas, são crianças órfãs e famílias devastadas.

O Monitor de Feminicídios no Brasil identificou pelo menos 928 filhos de mulheres assassinadas em feminicídios consumados apenas em 2024. Em centenas de casos, os filhos estavam presentes no momento do crime. O patriarcado não mata apenas mulheres. Ele deixa uma herança de trauma, silêncio e dor que atravessa gerações.

Há uma disputa de narrativa em curso. Quando setores conservadores falam em “defesa da família” para atacar direitos das mulheres, tentam transformar subordinação em valor moral. Quando chamam educação para igualdade de gênero de “ideologia”, procuram ocultar que toda sociedade já educa meninos e meninas de maneira desigual. Como lembra Márcia Tiburi, a violência não nasce apenas do ato extremo; ela é preparada por uma cultura que naturaliza hierarquias e autoriza silenciamentos. Estabelece uma construção social em que mulheres cumprem com papéis de cuidado e trabalho reprodutivo invisibilizados, não remunerados e muitas vezes desvalorizados.

O patriarcado tem pedagogia, ensina o menino a dominar e a menina a ceder, ensina o homem a confundir autoridade com poder e a mulher a negociar a própria segurança. Essa pedagogia do medo e da submissão é reproduzida na família, na escola, nas igrejas, nos meios de comunicação e nas instituições do Estado.

Como homem, percebo que alguns posicionamentos são relativamente simples. É fácil condenar o agressor. É fácil lamentar a morte. É fácil defender direitos em abstrato. Difícil é dividir o trabalho de cuidado. Difícil é aceitar a liderança das mulheres. Difícil é reconhecer que o patriarcado também nos beneficiou. Difícil é admitir que, muitas vezes, tivemos mais tempo livre porque outra mulher assumiu o peso da casa. Difícil é perceber que falamos em igualdade sem abrir mão dos espaços privilegiados que ocupamos.

Chimamanda Ngozi Adichie insiste que todos somos educados dentro de expectativas de gênero que limitam mulheres e homens, ainda que de forma profundamente desigual. O feminismo não é uma guerra contra os homens; é uma crítica às estruturas que transformam o poder masculino em norma social.

Mas há uma reflexão ainda mais incômoda. As mesmas mãos que hoje podem apertar um pescoço já se fecharam um dia para não dividir uma simples tarefa doméstica. Os mesmos braços que hoje podem agredir e assassinar já se cruzaram no passado, recusando-se a lavar uma louça, cuidar de uma criança ou compartilhar o trabalho da casa.

O feminicídio não começa no golpe. Começa na recusa cotidiana em reconhecer a mulher como sujeito igual. Começa quando um privilégio histórico é defendido como se fosse um direito natural. Começa quando o homem aprende que servir é humilhação e mandar é destino.

O problema não está apenas nos homens violentos que aparecem nas manchetes. Está também nos homens que se consideram aliados, mas resistem a perder privilégios. Está na dificuldade de compartilhar tarefas. Está na tendência de transformar o feminismo em algo aceitável desde que não altere a distribuição real de poder. Tombam mulheres porque o agressor se sente dono. Porque a cultura da posse ainda sobrevive. Porque instituições falham. Porque o silêncio masculino continua sendo uma forma de cumplicidade.

O patriarcado não se sustenta apenas pela violência explícita. Sustenta-se pelos pequenos privilégios acumulados ao longo dos séculos, naturalizados como se fossem mérito individual. Por isso o feminismo incomoda. Incomoda porque desloca os homens do centro. Incomoda porque transforma igualdade em prática concreta. Incomoda porque exige partilha de poder, de tempo, de cuidado e de decisão.

A pergunta que fica não é se os homens apoiam as mulheres quando isso cabe em uma postagem nas redes sociais. A pergunta é outra: estamos dispostos a abrir mão dos privilégios que fizeram do patriarcado uma casa confortável para nós e um campo de batalha para elas?

Se nós não enfrentarmos essa questão, continuaremos contando mulheres mortas enquanto seguimos para seguir nos afirmando como homens progressistas desconstruídos. Ainda há muito em que avançar companheiros.

 


* Corbari é jornalista, comunicador popular, militante da Via Campesina, Movimento dos Pequenos Agricultores e Instituto Cultural Padre Josimo. 

** Este é um artigo de opinião. As afirmações do autor não necessariamente representam a posição do ICPJ.

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