Rituais no Mercado Público expõem resistência afro-religiosa e protagonismo social das casas de matriz africana
Fabiana Reinholz e Marcelo Ferreira

O som dos tambores no Mercado Público de Rio Grande carrega mais do que a força de uma celebração religiosa. Quando os toques para Bará ocupam o centro da cidade, aquilo que por muito tempo foi empurrado para dentro das casas, dos fundos dos pátios e das periferias passa a se afirmar diante de todos: as religiões de matriz africana não são presença lateral na história local. Elas estão na base da formação cultural, comunitária e espiritual do município.
Hoje, Rio Grande tem dois momentos principais de celebração afro-religiosa no Mercado Público. O primeiro é o Toque do Mercado, realizado por mãe Mábia de Iansã em 29 de junho, em referência a São Pedro, padroeiro da cidade, associado ao Bará no sincretismo religioso local. Iniciado em 2015, após episódios de intolerância religiosa, o ritual abriu caminho para a ocupação afro-religiosa contínua do Mercado Público. O segundo é o Bará do Povo, celebrado em 26 de outubro, sob os cuidados da Casa Oxum de Taladê, de mãe Graça de Oxum e pai Júnior de Xangô.
Mais do que um ritual isolado, o Bará do Povo abre a Semana Municipal de Combate à Intolerância Religiosa, organizada desde 2019 pela Casa Oxum Taladê com apoio da Prefeitura do Rio Grande, universidades, secretarias municipais e sociedade civil. A programação reúne debates sobre saúde da população negra, educação étnico-racial, preservação patrimonial, oralidade, memória dos terreiros e enfrentamento ao racismo religioso, além de ações educativas, manifestações culturais e celebrações afro-religiosas, integrando o Novembro Unificado e reforçando políticas de igualdade racial.

Os dois rituais transformaram o Mercado Público em espaço de memória, enfrentamento ao racismo religioso e afirmação da presença negra em Rio Grande. “O Bará é do povo. Ele não pertence apenas à casa, pertence à comunidade”, resume mãe Graça.
Presença revelada em números
A dimensão dessa presença aparece também em números. Um mapeamento realizado pela Coordenadoria de Igualdade Racial em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande (Furg) já identificou mais de 950 casas religiosas em apenas oito bairros.
“Rio Grande tem mais de 50 bairros extraoficialmente. Nós conseguimos visitar oito e já identificamos mais de 950 terreiros na cidade. Quando terminarmos, a expectativa era de 2 mil terreiros. E nós não fizemos nem metade dos bairros e já chegamos em 950”, afirma Chandler Siqueira, coordenador de Igualdade Racial de Rio Grande e presidente do Conselho Municipal dos Povos de Terreiro.

Para Siqueira, o dado revela uma cidade ainda subestimada pela história oficial. “Isso mostra a participação e a presença dos fazeres e saberes negros nessa cidade. É isso que alicerça a cidade, que construiu e mantém a cultura local.”
O cenário dialoga com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostrou que a proporção de adeptos da Umbanda e do Candomblé no Brasil passou de 0,3% da população em 2010 para 1,0% em 2022. No Rio Grande do Sul, o crescimento se destaca ainda mais: o estado lidera proporcionalmente o país, com 3,19% da população declarada adepta de Umbanda, Candomblé ou outras religiões afro-brasileiras, acima da média nacional de 1,05%.
Memória negra e ancestralidade
Em Rio Grande, essa força também se explica na permanência histórica de práticas que sobreviveram ao apagamento. “Rio Grande tem uma história negra muito forte. Minha avó era negra mina, escravizada. Minha mãe nasceu nessa continuidade, e eu também nasci dentro da religião. Essa cidade recebeu muitos negros escravizados. Então nossa religião sempre esteve aqui, mesmo quando tentavam esconder”, afirma mãe Graça.
A ialorixá tem 74 anos e está há mais de seis décadas na religião. A Casa Oxum de Taladê, segundo ela, soma mais de 50 anos de trajetória. A história do terreiro se confunde com a própria vida da liderança religiosa, marcada por pobreza, reconstrução e acolhimento.
“A religião não me deu apenas fé. Me deu direção, estrutura e força para reconstruir minha vida quando parecia que tudo estava perdido”, conta. “Essa casa não é apenas um terreiro. É símbolo de tudo o que foi reconstruído na minha vida através da espiritualidade, da resistência e da luta.”

Pai Júnior reforça: “Existe uma trajetória de pobreza, enfrentamento, racismo religioso, reconstrução e muito trabalho. A mãe construiu não só uma casa religiosa, mas um espaço de referência social, cultural e espiritual.”
Mãe Graça e pai Júnior recordam como marco decisivo a chegada da imagem de Bará a Rio Grande, trazida por pai Paulinho de Ogum Xoroquê, de Porto Alegre, em 2019. A recepção, o assentamento e a incorporação do ritual à vida pública da cidade transformaram o momento em mais do que uma cerimônia religiosa: consolidaram um ato de resistência ao racismo religioso, afirmação da ancestralidade negra e ocupação simbólica do espaço público por comunidades historicamente marginalizadas.
Terreiros como redes de cuidado
Mãe Graça costuma dizer que mãe de santo é “médica, enfermeira, psicóloga e tudo”, porque muitas pessoas chegam ao terreiro antes de acessar outros serviços. Ela orienta filhos e frequentadores a procurarem atendimento médico quando necessário, mas ressalta que a casa também acolhe dores que não encontram escuta em outros lugares.

“A religião, para nós, nunca foi só rezar ou fazer obrigação. Sempre foi acolher. Aqui em casa, muitas vezes, chegam pessoas sem ter o que comer, sem ter para onde ir, sem ter com quem contar. E a gente acolhe”, diz.
Mãe Mábia de Iansã descreve realidade semelhante. Conhecida por atuar com ações na periferia, ela relaciona a força das religiões de matriz africana à ausência de políticas públicas suficientes nos territórios populares.
“Porque as pessoas da periferia não têm médico. O médico é o caboclo, o preto velho, é o Exu. Tem o postinho, mas eles não têm para pagar uma consulta, e muitas vezes vão lá passar uma vela. Por isso que eu digo: a maior parte da cidade de Rio Grande é da macumba ou da umbanda. Mas é porque, muitas vezes, o Exu é o médico, o preto velho é o psicólogo, o caboclo é o abraço”, afirma.
A fala ajuda a entender por que os terreiros não podem ser tratados apenas como templos religiosos. Em Rio Grande, eles operam como espaços de cuidado, alimentação, memória, educação informal, circulação cultural e organização comunitária, atuando como redes de acolhimento e sobrevivência coletiva onde políticas públicas frequentemente não alcançam.
Solidariedade e resistência
Essa função social se expressa tanto na programação educativa da Semana Municipal de Combate à Intolerância Religiosa quanto em ações cotidianas. Mãe Mábia mantém distribuição de marmitas, ações com crianças, mesa de Cosme e Damião e cozinha solidária.

Durante a enchente de 2024, essa atuação se ampliou. Mesmo com a própria casa atingida, ela afirma ter produzido mais de 2 mil marmitas.
“Eu olhava para aquele quintal e dizia: a minha casa foi o quintal, mas eu estou dormindo numa cama seca. Aí eu não pude. Tive que tirar pessoas que estavam dentro do meu quarto de santo, porque começou a entrar água. Mas o que eu pude, fiz”, lembra.
Na Casa Oxum de Taladê, a enchente também atingiu a estrutura física e o acervo espiritual. Pai Júnior conta que a primeira preocupação foi proteger os orixás e os fundamentos da casa. Ao mesmo tempo, a comunidade se reorganizou para apoiar filhos de santo e pessoas próximas.
“A casa não é só parede. Ela representa tudo o que foi reconstruído na minha vida. Por isso foi tão doloroso ver aquilo”, diz mãe Graça. “Foi muito difícil, mas seguimos ajudando. Porque nossa história sempre foi de resistência.”
Ocupação pública contra o apagamento
A resistência também se expressa nos processos de enfrentamento ao racismo religioso. Tanto mãe Graça quanto mãe Mábia transformaram episódios de perseguição em marcos públicos.
Mãe Graça relata que, numa ocasião, quando começou a tocar tambor, vizinhos chamaram a polícia. A casa enfrentou processo judicial, teve restrições impostas em primeira instância e precisou se regularizar com documentação, projeto acústico e adequações estruturais. A decisão foi revertida em Porto Alegre.
“Eu me coloquei como matriarca e disse que minha casa não ia fechar. Não aceitei. E vencemos. Hoje fazemos tudo dentro da lei, mas mantendo nossa fé”, afirma.
A data da vitória judicial, 31 de outubro, foi incorporada à memória pública da cidade e deu origem ao Dia Municipal contra a Intolerância Religiosa.
Hoje, a programação organizada pela Casa Oxum Taladê se estende por vários dias, reunindo debates, atividades educativas, feiras afro, manifestações culturais e celebrações religiosas entre outubro e o Novembro Negro, consolidando o evento como expressão pública de resistência afro-religiosa no município.
“Não é apenas uma festa. É uma construção de memória, resistência, ocupação de espaço público e afirmação da cultura afro-religiosa em Rio Grande”, diz pai Júnior.
Mãe Mábia também chegou ao Mercado Público após enfrentar intolerância religiosa. Em 2015, criou o Toque do Mercado como promessa a Bará. Inicialmente impedida de entrar no prédio, realizou o ritual do lado de fora até vencer ação no Ministério Público, em 2016, quando passou a ocupar oficialmente o espaço.

A iniciativa ajudou a consolidar o Mercado Público como território de resistência, fé e visibilidade negra em Rio Grande.
Para ela, a presença de Bará no mercado tem relação direta com movimento, abertura de caminhos e vida urbana. “Toque do Mercado é uma grande homenagem ao Bará, que fica ali no centro do movimento da cidade, que é o Mercado Público de Rio Grande”, explica.
Patrimônio, política pública e reconhecimento
A disputa por respeito, no entanto, permanece. Mãe Mábia lembra episódios recentes de discriminação, como o caso de uma filha de santo impedida de entrar em um carro de aplicativo por estar usando roupa religiosa, além de depredações, destruição de assentamentos e ataques a casas de matriz africana. “Vejo muita intolerância, vejo muito racismo religioso”, afirma.
A secretária de Cultura de Rio Grande avalia que esse reconhecimento exige rever políticas patrimoniais.“Não se trata apenas de preservar uma narrativa já consolidada, como a herança lusitana da cidade, mas de reconhecer a centralidade da presença negra e da diáspora africana na construção de Rio Grande.”
“A presença de pessoas de comunidades tradicionais traz uma outra lógica de organização social. A gente precisa superar a ideia de que isso se resume ao sagrado. O sagrado é o que mais se conhece de fora, mas a vida nos terreiros é uma forma complexa de organização social, com valores e princípios próprios”, diz.
Projetos como Caminhos Negros e o próprio mapeamento dos terreiros reforçam esse reposicionamento.

Saberes que sobrevivem pela oralidade
A secretária destaca ainda a centralidade histórica da cidade na formação afro-religiosa gaúcha. “O chamado berço do Batuque está aqui, com reconhecimento histórico de sua presença. Há estimativas de cerca de 950 terreiros na cidade, ainda em levantamento. Essa permanência se deu, em grande parte, pela resistência de mulheres negras, que sustentaram saberes e práticas dentro das comunidades.”
Essa resistência feminina aparece diretamente nas trajetórias de mãe Graça e mãe Mábia. Mãe Graça nasceu na religião, herdou saberes da mãe e da avó e consolidou liderança em um ambiente em que oralidade e ancestralidade permanecem centrais.“O tambor é tudo. Ele é sagrado. É ele que conduz. A responsabilidade é enorme”, afirma.
Pai Júnior destaca que essa tradição não se limita aos rituais públicos, mas está profundamente ligada ao cotidiano da casa: preparar alimentos, separar grãos, cuidar do espaço sagrado e compreender fundamentos ancestrais. “Muito do que sabemos não está escrito. Está no fazer”, explica.
Cultura negra para além do ritual
Essa profundidade também se manifesta fora do terreiro, em expressões culturais como o samba. Pai Júnior criou o projeto Samba de Terreiro para reafirmar a ligação histórica entre samba, terreiros e cultura negra, articulando religião, memória e circulação cultural em Rio Grande.
A iniciativa já levou artistas convidados a diferentes espaços da cidade e também busca recuperar memórias de escolas de samba, do sopapo e de outras tradições negras locais, fortalecendo vínculos entre ancestralidade, produção cultural e identidade comunitária. “O samba não pode ficar marginalizado ou desconectado dessa origem”, afirma. “O Samba de Terreiro não é só entretenimento. É memória, tradição religiosa, fortalecimento comunitário, circulação cultural e recuperação histórica.”

A cidade diante do que tentou esconder
No centro dessa disputa está o direito de existir publicamente. Para Chandler Siqueira, o assentamento de Bará no Mercado Público tem valor simbólico porque Rio Grande ainda possui poucas representações de matriz africana a céu aberto. Além do Bará, ele cita a estátua de Iemanjá no Cassino, onde ocorre uma das maiores celebrações dedicadas à orixá no país.
Para ele, a Semana Municipal de Combate à Intolerância Religiosa também fortalece essa visibilidade pública: “Destaca o Bará do Mercado e evidencia, a céu aberto, a importância da resistência negra e de todos esses saberes e fazeres”.
A cidade reúne outros marcos públicos dessa presença, como representações de orixás e o monumento em homenagem a Xangô na orla da Lagoa dos Patos. Ainda pontuais diante da dimensão afro-religiosa, esses espaços indicam que essa memória permanece inscrita em diferentes territórios urbanos, embora siga atravessada por disputas, intolerância e invisibilização.
Enquanto o poder público ainda registra oficialmente poucas casas de matriz africana — a Secretaria da Fazenda tem menos de 20 cadastradas — o mapeamento em curso demonstra uma presença muito mais ampla. “Há um abismo de desconhecimento”, afirma Chandler Siqueira. “Estamos falando de comunidades tradicionais que salvaguardam esses saberes e que ainda são invisibilizadas.”

Quando os tambores tocam no Mercado Público, portanto, o que se escuta não é apenas uma celebração religiosa. É a expressão pública de uma cidade que começa a se enxergar por outras lentes, reposicionando no centro urbano uma presença histórica negra e afro-religiosa que por décadas foi marginalizada.
Mãe Graça sintetiza essa dimensão ao definir o ritual como experiência coletiva, igualdade e reafirmação pública dessa memória: “Quando a religião entra em ritual, vira quilombo. Todo mundo junto, na mesma fé, trabalhando igual. Pode ser doutor, pode ser pobre, pode ser quem for. Aqui dentro todo mundo é igual.”
Esta matéria é parte das ações do Projeto “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”, executado em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. O apoio se dá conforme o Termo de Fomento nº 973281, correspondente à Meta 6 (Produção de Matérias escritas para mídias digitais).