Após mais de uma década, encontro reúne 2 mil pessoas em Brasília e reafirma projeto popular para o campo em contraposição ao agronegócio
Marcos Antônio Corbari | ICPJ

Tem início nesta terça-feira (24) a 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário (3ª CNDRSS), retomada após mais de dez anos sem edições. Até o dia 27 de março, cerca de 2 mil participantes se reúnem no Centro de Convenções Ulysses Guimarães para consolidar propostas construídas em um dos maiores processos recentes de participação social do país.
Sob o tema “Uma agenda política de transformação agroecológica para o Brasil Rural”, a conferência chega à sua etapa decisiva trazendo o acúmulo de mais de 40 mil pessoas mobilizadas em todo o território nacional.
Mais do que números, o que está em jogo é a disputa entre dois projetos: de um lado, o modelo concentrador do agronegócio, baseado na exportação de commodities e no uso intensivo de agrotóxicos; de outro, a agricultura familiar camponesa, que produz alimentos, gera trabalho e sustenta a vida nos territórios.
Participação popular como enfrentamento político
Foram mais de 500 conferências preparatórias, que resultaram em cerca de mil propostas de políticas públicas. Desse processo, emergiu um caderno nacional com 300 propostas que agora serão debatidas e sistematizadas na etapa final.
A retomada da conferência, após um longo período de desmonte das políticas de participação social, é também um gesto político. Reabre canais de escuta e deliberação que haviam sido esvaziados, ao mesmo tempo em que fortalece a organização popular no campo.
Pela primeira vez, a CNDRSS incorporou uma etapa digital, ampliando o alcance da participação. Foram 130 mil acessos, com propostas e votações realizadas por meio da plataforma Brasil Participativo.
Os debates estão organizados em seis eixos que tratam desde a agroecologia e as mudanças climáticas até a reforma agrária, os direitos de povos quilombolas e tradicionais e a democratização do Estado.
Frei Sérgio: memória que vira presença política
A edição deste ano carrega um símbolo que atravessa toda a conferência. A 3ª CNDRSS leva o nome de Frei Sérgio Görgen, liderança histórica da luta camponesa no Brasil, falecido em fevereiro deste ano.
Frade franciscano e dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Frei Sérgio dedicou sua vida à organização do povo do campo e à construção de um projeto baseado na soberania alimentar, na justiça social e na dignidade camponesa. Foi fundador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Partido do Trabalhadores (PT), tendo tido ainda forte envolvimento com outros movimentos sociais, populares e sindicais.
Mais do que uma homenagem, dar seu nome à conferência é afirmar um posicionamento político: o de que não há desenvolvimento rural possível sem enfrentar a concentração de terra, sem fortalecer a agricultura familiar e sem colocar o povo no centro das decisões.
Sua trajetória, marcada pela formação militante, pela construção de base e pela incidência em políticas públicas, segue presente nas propostas que chegam à etapa nacional — muitas delas fruto direto das lutas que ajudou a impulsionar.
Cultura e produção como expressão de resistência
Enquanto os debates acontecem, a conferência também se transforma em vitrine da diversidade cultural e produtiva dos territórios. A Mostra de Cultura Maloca Raiz ocupa o espaço com apresentações de música, dança e manifestações populares, reafirmando que o campo não é apenas espaço de produção, mas também de cultura e identidade.
Já a Feira da Agricultura Familiar materializa, no cotidiano da conferência, o projeto defendido nos debates: alimentos agroecológicos, produção local e circuitos curtos de comercialização.
A programação da conferência reflete o caráter coletivo do processo. O primeiro dia é marcado pelo credenciamento, aprovação do regulamento e um painel sobre a construção da agenda agroecológica.
Nos dias seguintes, os participantes se dividem em grupos de trabalho e plenárias temáticas, organizadas em torno dos seis eixos centrais. A sexta-feira (27) será dedicada à plenária final, onde as propostas serão consolidadas no documento nacional.
O futuro do campo em disputa
Em um país que voltou a sair do Mapa da Fome, mas ainda convive com profundas desigualdades no acesso à terra e aos alimentos, a 3ª CNDRSS recoloca no centro a necessidade de políticas estruturantes.
Reforma agrária, fortalecimento da agricultura familiar, enfrentamento à crise climática e valorização dos povos do campo, das águas e das florestas aparecem como pilares de um projeto que se contrapõe diretamente ao avanço do agronegócio.
Mais do que uma conferência, o encontro em Brasília é parte de uma disputa maior: a de qual modelo de desenvolvimento deve orientar o país.
Ao carregar o nome de Frei Sérgio Görgen, essa disputa ganha também memória, direção e compromisso histórico.
Serviço | 3ª CNDRSS – Frei Sérgio Görgen
O quê: 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário
Quando: 24 a 27 de março de 2026
Onde: Centro de Convenções Ulysses Guimarães, Brasília (DF)
Participação: evento com delegados e convidados; atividades culturais e feira abertas ao público
Destaques da programação:
- Abertura oficial: 24/03, às 19h
- Grupos de trabalho: 25/03
- Plenárias temáticas: 26/03
- Plenária final e encerramento: 27/03
Atividades paralelas:
- Feira da Agricultura Familiar (produtos agroecológicos)
- Mostra de Cultura Maloca Raiz (apresentações às 12h e 18h)
Informações:
3cndrss@mda.gov.br
www.gov.br/cndrss3
(61) 3276-4413