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Aporofobia: Frei leva população de rua à Assembleia da Bahia e passa a sofrer ataques de conservadores

“Podem me atacar, mas não aos meus irmãos e irmãs que não tem como se defender”, denunciou Frei Lorrane Clementino após a sessão especial

 

Publicada no perfil de Lorrane no Facebook, foto está recebendo dezenas de ataques visivelmente orquestrados / Reprodução FB

 

Marcos Antonio Corbari | ICPJ

 

Uma imagem simples — e profundamente incômoda — atravessou os corredores da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) e expôs uma contradição estrutural que o poder público insiste em contornar: enquanto prédios inteiros apodrecem fechados no Centro Histórico de Salvador, cresce o número de pessoas que dormem nas calçadas.

Na última sexta-feira (20), na Sessão Especial sobre a Campanha da Fraternidade 2026, cujo lema é justamente “Fraternidade e Moradia – Ele Veio Morar Entre Nós”, o frei franciscano Lorrane Clementino Ofm rompeu com o protocolo e levou consigo quem quase nunca entra nesses espaços: Pessoas em situação de rua acompanhadas pela Casa Franciscana Maria Lúcia. A proposição da sessão especial partiu do deputado  Marcelino Galo (PT) e da deputada Maria del Carmen (PT).

“Eu trouxe aqui Leila e Éric, que estão em situação de rua”, disse logo no início de sua fala. “Imagino que todos que estão aqui têm um lugar para encostar a cabeça e se sentir seguros.” O gesto não foi apenas simbólico — foi uma denúncia encarnada.

 

O escândalo dos vazios urbanos

Ao tomar a palavra, Lorrane fez questão de sair das generalidades e apontar o problema pelo nome e endereço: o Pelourinho. “São tantas casas, tantos prédios fechados, abandonados, que as pessoas preferem que eles caiam na cabeça de alguém”, afirmou. “Enquanto, naquele mesmo lugar, existem inúmeras pessoas em situação de rua precisando de um lar.”

A imagem é brutal — e real. Ruas interditadas por risco de desabamento convivem com corpos deitados no chão. Imóveis vazios, sem função social, coexistem com vidas descartadas pela lógica urbana. O Brasil, segundo a Fundação João Pinheiro, acumula um déficit habitacional superior a 6 milhões de moradias. Ao mesmo tempo, milhões de imóveis permanecem vazios ou subutilizados, evidenciando que o problema não é falta de espaço — é escolha política.

 

“Não tem casa, não tem comida, não tem trabalho”

A fala do frei não se limitou à denúncia estrutural. Ele trouxe o cotidiano de quem vive a exclusão. “Não tem um lugar para repousar a cabeça, não tem comida, não tem trabalho — e tudo precisa caminhar junto”, afirmou.

Segundo ele, a Casa Franciscana Maria Lúcia, aberta há pouco mais de um mês no Centro Histórico, já sente o impacto do abandono estatal. “A cada dia que se passa, o número de pessoas que nos procuram aumenta.”

A Campanha da Fraternidade 2026, centrada na moradia, aparece nesse contexto não como reflexão abstrata, mas como chamado à ação concreta. “Estamos aqui refletindo, mas precisamos sair daqui de mãos dadas e fazer um mutirão para colocar em prática o que a campanha propõe.”

 

Clique e assista: Discurso de Lorrane durante a Sessão Especial / Reprodução AL-BA.

 

Parlamento vazio, realidade ignorada

Frei Lorrane também não poupou críticas à ausência de parlamentares na sessão. “Que pena que a gente não vê outros deputados aqui. Deveriam estar para conhecer de perto esse trabalho”, disse, em tom direto. Ao mesmo tempo, reforçou que há iniciativas populares e eclesiais já em curso — e abertas ao diálogo. “As portas da Igreja estão abertas para caminhar de mãos dadas e pensar possibilidades para beneficiar o nosso povo que não tem casa, não tem teto, não tem comida.”

Estiveram presentes, além dos dois deputados que propuseram a sessão especial, padre José Carlos, pároco de Nossa Senhora de Guadalupe, no Alto do Peru; dom Sergio da Rocha, arcebispo de Salvador; Augusto Amorim, pastor da Igreja Presbiteriana Unida; Patrícia Oliveira, do Centro de Estudos Bíblicos Ecumênico; Geri Lima, da Cáritas Regional Nordeste 3; Carlos Alberto dos Santos, do Movimento Social de Luta por Moradia e Cidadania; Aidinalva Barbosa, representante do Movimento dos Sem-Teto de Salvador; Ailton Ferreira, assessor especial da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social; Gisele Ramos, chefe de Gabinete do Bahia Sem Fome; Marina Pimenta, coordenadora do Núcleo de Gestão Ambiental da Defensoria Pública do Estado; Karina Lopes, delegada titular da Casa da Mulher Brasileira; André Fidalgo, superintendente da Desenbahia; padre Ferdinando Caprine, presidente do Centro Afro Promoção Defesa da Vida; e o tenente-coronel Paulo César Luz Nunes. A presidente da AL-BA, deputada Ivania Bastos (PSD) enviou mensagem, uma vez que estava ausente da cidade.
 

O ódio como resposta

Se dentro da Assembleia o gesto provocou reflexão, fora dela a reação revelou outra face da sociedade. Após publicar a imagem ao lado de Éric e Leyla, Frei Lorrane passou a receber uma enxurrada de ataques nas redes sociais — muitos deles direcionados não a ele, mas às pessoas em situação de rua.

“O que realmente me revolta não são os ataques contra mim”, afirmou. “O que me incomoda profundamente são os ataques direcionados a Leila e a Éric.” Segundo o frei, os comentários expõem um traço persistente da sociedade brasileira: o desprezo pelos pobres.

“As pessoas julgam pela aparência, pelo estereótipo, sem conhecer a história, sem saber o que enfrentam nas ruas”, disse. “Isso escancara algo muito sério: a aporofobia.” Ele foi categórico: “Isso não é opinião. Isso é desumanização.”

 

Clique e assista: Lorrane faz denúncia pública sobre ataques que Eric e Leila vem recebendo em seu perfil no Facebook.

 

“Podem me atacar, mas não ataquem os meus irmãos”

Diante da violência, Frei Lorrane respondeu com firmeza — e posicionamento político. “Podem falar o que quiserem de mim. Eu aguento”, afirmou. “Mas não vou aceitar ataques gratuitos contra pessoas que já são invisibilizadas todos os dias.”

O desabafo virou denúncia pública. “São pessoas que já têm sua dignidade negada pela sociedade. E a gente precisa denunciar tudo isso.” Ao defender Éric e Leyla, o frei recoloca o debate no seu eixo central: não se trata apenas de moradia, mas de humanidade.

 

Direito à cidade em disputa

A cena levada à Assembleia — dois corpos historicamente excluídos ocupando o espaço institucional — expôs o que muitas vezes se tenta esconder: o direito à cidade segue sendo negado à maioria.

Enquanto a função social da propriedade permanece como letra morta na Constituição, a política urbana segue subordinada à especulação e ao abandono.

Ao romper o protocolo, Frei Lorrane não apenas denunciou uma contradição. Ele obrigou o parlamento — e a sociedade — a encará-la. E a reação violenta que se seguiu talvez diga mais sobre o país do que o próprio discurso.

 


 

Quem é Frei Lorrane Clementino

Frei Lorrane Clementino é frade franciscano e uma das vozes religiosas que vêm tensionando, a partir da fé cristã, as estruturas de desigualdade no Brasil. Com atuação junto a comunidades periféricas e movimentos populares, ele se destaca pela defesa intransigente do direito à moradia, da dignidade humana e da justiça social.

Inspirado pela Teologia da Libertação e pela tradição franciscana, sua prática pastoral rompe com o assistencialismo e se ancora na organização popular. Em suas falas públicas, Frei Lorrane tem sido direto ao denunciar que “a falta de moradia não é uma fatalidade, é resultado de um modelo de sociedade que concentra riqueza e exclui o povo”. Para ele, enfrentar o déficit habitacional exige ir além de políticas pontuais e encarar as raízes estruturais da desigualdade.

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