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VOZES E TERRITÓRIOS | Entre tambores e resistência: o carnaval como quilombo cultural em Porto Alegre

História afro-gaúcha contada pela Portela revela ao país a face invisibilizada do RS como território negro

 
 
 

O carnaval de Porto Alegre é mais do que uma celebração popular: é território de memória, religiosidade e resistência negra. Da história do Príncipe Custódio, homenageado neste ano pela escola de samba Portela na Marquês de Sapucaí, às iniciativas comunitárias do Areal da Baronesa, a cultura carnavalesca da capital gaúcha revela um verdadeiro quilombo urbano que preserva identidades historicamente invisibilizadas no Rio Grande do Sul.

“Enquanto houver um pastoreio a chama não se apagará / Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar / Aê, oni Bará! Aê, babá lodê! / A Portela reunida, carregada no dendê / Sob o céu do Rio Grande, tem reza pra abençoar / O príncipe herdeiro da coroa de Bará (…) Vai, negrinho, vai fazer libertação / Resgatar a tradição onde a África assenta / Ô, corre gira, vem revelar o reino de Ajudá / O Pampa é terra negra em sua essência / Alupo, meu senhor, alupô! / Vai ter xirê no toque do tambor / Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada / É macumba de Custódio no romper da madrugada / Alupo, meu senhor, alupô! / Vai ter xirê no toque do tambor / Alumia o cruzeiro, chave de encruzilhada.”

O trecho acima integra o enredo que rendeu nota 10 à Portela neste ano: O Mistério do Príncipe do Bará – a Oração do Negrinho e a Ressurreição de Sua Coroa Sob o Céu Aberto do Rio Grande. O samba narra a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio ou Príncipe do Bará, líder africano que se estabeleceu em Porto Alegre e se tornou símbolo da religiosidade e da ancestralidade afro-gaúcha.

Figura histórica do início do século 20, Custódio é considerado responsável pelo assentamento do Bará no Mercado Público de Porto Alegre e pela difusão do culto ao orixá em outros pontos da cidade.

 
Osuanlele Okizi Erupê, Príncipe do Benin, conhecido no Brasil como Príncipe Custódio, radicado em Porto Alegre em 1901 | Crédito: Autor desconhecido

 

Natural da região do antigo Reino do Daomé (atual Benin), Custódio chegou à capital gaúcha em 1901 e fixou residência em um casarão na rua Lopo Gonçalves, nº 498, na atual Cidade Baixa, região então chamada Areal da Baronesa, habitada majoritariamente por ex-escravizados e seus descendentes. O local ficaria conhecido posteriormente como berço do samba e do carnaval porto-alegrense. Foi ali, por exemplo, que surgiu a escola campeã Imperadores do Samba.

 

Do carnaval elitista às escolas de samba negras

Segundo o jornalista Renato Dornelles, o carnaval em Porto Alegre, assim como em grande parte do Brasil, não nasceu negro. A festa foi trazida pelos portugueses por meio do entrudo, brincadeira em que as pessoas jogavam água e líquidos perfumados umas nas outras. Na capital gaúcha, a prática chegou com os açorianos no século 18.

Com o tempo, porém, a prática passou a ser considerada perigosa e foi sendo deslocada para ambientes fechados, tornando-se elitizada, inspirada nos bailes de máscaras europeus. Quando voltou às ruas, ocorreu sob controle de sociedades carnavalescas também elitistas, como os Venezianos e Esmeraldinos, que desfilavam em forma de corso e inspirariam posteriormente os carros alegóricos.

“Os desfiles eram na rua da Praia, e os negros ficavam de um lado e os brancos de outro”, relata Dornelles, destacando a segregação racial presente naquele período, entre o final do século 19 e o início do 20.

A transformação veio com o advento do samba no Rio de Janeiro, no começo do século passado, quando surgiram as primeiras escolas de samba. A partir daí, o carnaval passou a assumir características profundamente ligadas à negritude.

Em Porto Alegre, esse processo ocorreu entre as décadas de 1930 e 1940, especialmente em territórios negros como o Areal da Baronesa, a antiga Colônia Africana e a Ilhota. Nesses espaços, o carnaval se popularizou e se tornou antítese das antigas sociedades elitistas.

“As escolas de samba acabam se tornando sociedades negras e, de certa forma, uma espécie de quilombo, porque ali se mantêm tradições da ancestralidade africana. É um foco de resistência”, afirma.

Visibilidade à negritude gaúcha

Enredo da Portela deu destaque ao Batuque, religião afro-gaúcha com elementos em comum com o candomblé | Crédito: Allan Duffes/Site Carnavalesco

Para o jornalista, a escolha da Portela de levar a história do Príncipe Custódio à avenida ajuda a combater a ideia equivocada de que o Rio Grande do Sul seria exclusivamente europeu.

“Existe um forte traço africano na cultura gaúcha, na culinária e em vários setores, mas muitas vezes somos invisibilizados”, diz. Ele observa que a comunidade negra representa cerca de 20% da população do estado, mas exerce influência significativa na formação cultural.

O enredo também deu destaque ao Batuque, religião afro-gaúcha com elementos em comum com o candomblé, mas com características próprias.

Gentrificação e expulsão de territórios negros

Dornelles aponta que a presença negra histórica em regiões centrais da Capital foi drasticamente reduzida por processos de gentrificação. Na Ilhota, houve remoções compulsórias, com transferência de moradores para a Restinga. Já na antiga Colônia Africana, a expulsão ocorreu por meio da especulação imobiliária.

 

Travessa dos Venezianos em Porto Alegre | Crédito: Rafa Dotti

 

Na Cidade Baixa, restou principalmente o Quilombo do Areal, hoje reconhecido oficialmente, fruto de intensa resistência comunitária. Ruas como Joaquim Nabuco e Lima e Silva, além da Travessa dos Venezianos, já foram territórios majoritariamente negros. Foi nessa área que nasceu a Imperadores do Samba, próxima à Travessa dos Venezianos.

Mercado Público e religiosidade

O Mercado Público mantém forte vínculo com o carnaval e com a religiosidade afro-gaúcha. Ali está o assentamento do Bará realizado pelo Príncipe Custódio, considerado um ponto de referência religiosa. No Batuque, Bará é o orixá que detém as chaves que abrem caminhos, negócios e prosperidade, frequentemente associado a Exu na Umbanda.

É comum ver fiéis fazendo oferendas ao longo do dia no Bará do Mercado. O espaço também é tradicional palco de rodas de samba e eventos pré-carnavalescos, como apresentações de escolas de samba, exposições e seminários.

 

Bará do Mercado, no centro do Mercado Público de Porto Alegre | Crédito: Rafa Dotti

 

A Descida da Borges

Outro símbolo do carnaval porto-alegrense é a Descida da Borges, na avenida Borges de Medeiros, coração da cidade, cujo percurso termina próximo ao Mercado Público. A via foi palco dos desfiles nos anos 1960.

Nos anos 1990, a Imperadores do Samba retomou a tradição com um cortejo anual, posteriormente seguido pela Bambas da Orgia. O evento acabou oficializado no calendário carnavalesco municipal e, após alguns anos de interrupção, foi retomado recentemente.

O Porto Seco e o deslocamento do carnaval

Desde 2004, os desfiles oficiais ocorrem no Complexo Cultural do Porto Seco, fora do centro da cidade. Para Dornelles, a mudança aproximou o carnaval da região Metropolitana, que abriga escolas importantes, mas afastou parte do público da Capital, especialmente moradores da zona sul.

Ele destaca que, passadas duas décadas, o espaço ainda carece de estrutura completa para se tornar um verdadeiro complexo cultural ativo durante todo o ano. Neste ano, ensaios técnicos das escolas de samba ocorreram sem a instalação de energia elétrica, já que a finalização da estrutura é feita perto dos desfiles, que ocorrem no último final de semana de fevereiro, dias 27 e 28.

Festa negra, democrática e politizada: “quilombos da atualidade”

Apesar de ser uma celebração aberta a todos, Dornelles destaca que o carnaval continua sendo predominantemente negro, devido à sua origem cultural e religiosa.

 

“As escolas de samba e os terreiros são os quilombos da atualidade”, afirma Renato Dornelles | Crédito: Rafa Dotti

 

As escolas de samba, assim como os terreiros, desempenham papel fundamental na preservação de tradições, da cultura e da religiosidade afro-brasileira. Ao mesmo tempo, os enredos frequentemente abordam temas sociais, históricos e políticos, contrariando a ideia de que o carnaval seria uma festa alienante. “Não é uma festa partidarizada, mas é uma festa politizada”, afirma.

“O carnaval e a religião andam muito próximos. As escolas de samba e os terreiros são os quilombos da atualidade”, afirma.

Carnaval como resistência e existência

A professora Fernanda Oliveira, do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e uma das autoras do enredo da Portela, avalia o carnaval como um espaço privilegiado de resistência cultural. Para ela, a festa cumpre um papel fundamental na afirmação da existência e da alegria das populações historicamente marginalizadas.

“O carnaval tem sido um espaço cada vez mais de resistência, de existência e de uma insistência numa existência plena”, afirma. “Não significa alienação, mas a necessidade de um momento que permita continuar nas lutas.”

Pesquisa acadêmica e enredo

A aproximação da pesquisadora com o projeto da Portela partiu de suas investigações sobre experiências negras no Sul do Brasil. O convite ocorreu após reunião intermediada pela Secretaria de Cultura do Rio Grande do Sul, que reuniu especialistas sobre diferentes grupos culturais do estado. O tema também dialoga com a repercussão das enchentes de 2024, que evidenciaram o racismo ambiental e o impacto desproporcional sobre populações vulneráveis.

No encontro, Oliveira apresentou pesquisas que comprovam a presença histórica e contemporânea da população negra no território gaúcho, citando a Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora (1872) e o jornal Alvorada, publicado em Pelotas entre 1907 e 1965. Também destacou dados do Censo 2022 que apontam o Rio Grande do Sul como o estado com maior concentração de praticantes de religiões de matriz africana no país, com mais de 300 mil pessoas autodeclaradas (3,2% da população).

Aquilombamento cultural

A professora ressalta que espaços como clubes sociais negros e escolas de samba não podem ser reduzidos à ideia de entretenimento. Para ela, tratam-se de formas de “aquilombamento cultural”, espaços de organização comunitária e produção de vida coletiva.

Oliveira explica que a noção contemporânea de aquilombamento remete a experiências históricas como o Quilombo dos Palmares, que reunia não apenas pessoas escravizadas fugitivas, mas diferentes grupos que contestavam a ordem escravista.

Segundo ela, Palmares agregava negros livres, indígenas, brancos empobrecidos e outros sujeitos marginalizados, constituindo uma forma coletiva de oposição ao sistema vigente. Essa diversidade, afirma, permanece como característica de quilombos contemporâneos: “Há uma presença negra predominante na matriz cultural desses espaços, mas eles também acolhem pessoas de outros grupos”.

Oliveira destaca que instituições culturais como as escolas de samba conseguem ampliar debates que muitas vezes permanecem restritos à academia. “Uma escola de samba com tamanha relevância pode fazer o que, por vezes, nós, historiadores, não conseguimos”, afirma.

 

A professora Fernanda Oliveira é uma das autoras do enredo da Portela | Crédito: Allan Duffes/Site Carnavalesco

 

O enredo da Portela, segundo ela, resulta de um esforço coletivo que articula produção acadêmica, tradição oral e experiências de movimentos sociais. Embora assine como enredista, a professora ressalta que diversos pesquisadores, negros e não negros, contribuíram para a construção da narrativa.

De acordo com Oliveira, entre os objetivos do desfile estavam combater a ideia de que a negritude brasileira estaria concentrada apenas no Nordeste e no Sudeste. “A nossa ideia é que o conhecimento auxilie nessa desconstrução do racismo”, afirma. “O conhecimento, por si só, não elimina práticas racistas, mas acreditamos no potencial de um letramento antirracista.”

Território, memória e disputa simbólica

A geógrafa e pesquisadora Daniele Vieira, mestra pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), também compreende o carnaval como um espaço de “aquilombamento cultural” diante das históricas tentativas de apagamento da população negra. Professora de Geografia e estudiosa dos antigos territórios negros de Porto Alegre, ela foi premiada nacionalmente, em 2019, por sua dissertação sobre o tema.

Segundo Vieira, embora o carnaval não tenha origem originalmente negra, a festa como é conhecida hoje resulta de um processo de apropriação pelas populações negras, tornando-se espaço privilegiado de celebração, convivência e lazer. “É um espaço onde essa população pode ser ela mesma, estar entre os seus e ter acesso ao lazer”, afirma.

Vieira também ressalta o caráter territorial do carnaval: cada cidade e bairro produz sua própria forma de festejar, refletindo experiências locais. Em Porto Alegre, ainda no início do século 20, diferentes territórios negros organizavam blocos e celebrações próprias.

Entre eles estão o Areal da Baronesa, a Ilhota, a antiga Cabo Rocha (atual rua Professor Freitas e Castro), a Colônia Africana e a antiga Bacia do Mont’Serrat. Localizados próximos ao centro, esses espaços promoviam festas próprias e, em alguns momentos, desfiles conjuntos.

 

Cordão carnavalesco Os Turunas, da Colônia Africana de Porto Alegre, em 1931 | Crédito: Autor desconhecido

 

Além da celebração, o carnaval cumpre um papel simbólico fundamental na construção de sentidos sobre a própria comunidade e seu território. Vieira cita pesquisa do historiador Marcos Vinícius de Freitas Rosa, da Ufrgs, que analisa como comunidades negras utilizavam a festa para demonstrar capacidade de organização e criatividade, contrapondo estigmas sociais associadas à pobreza, precariedade e violência.

Segundo a pesquisadora, o carnaval produz sentidos tanto para o público externo quanto para a própria comunidade: projeta uma imagem positiva e fortalece pertencimento e autoestima coletiva. “É a possibilidade de dizer: somos mais do que aquilo que falam de nós”, explica.

Espaço de continuidade da cultura negra

Vieira também recorre à reflexão da historiadora e intelectual negra Beatriz Nascimento, que identificou bailes black, terreiros, periferias e escolas de samba como espaços de continuidade da população negra no Brasil.

A pesquisadora destaca ainda a função educativa das escolas de samba. Crianças e jovens acompanham os ensaios desde cedo, aprendendo história, identidade e pertencimento. “É uma educação ampliada, que ensina não só conteúdos históricos, mas formas de ser e de se ver no mundo”, afirma.

Areal da Baronesa resiste

Ao abordar o antigo Areal da Baronesa, hoje reconhecido como quilombo urbano, Vieira destaca a importância histórica para o carnaval porto-alegrense. O território ocupava vasta área entre o atual Colégio Pão dos Pobres e a antiga rua dos Pretos Forros (hoje avenida Ipiranga), incluindo regiões como Praia de Belas, Baronesa do Gravataí e Múcio Teixeira, até o Arroio Dilúvio.

Na década de 1930, carnavais ocorriam em vários territórios negros da cidade, mas os do Areal ganharam destaque pela dimensão e repercussão.

Um dos principais símbolos dessa memória é Adão Alves de Oliveira, o Lelé, considerado o primeiro rei Momo negro da cidade. Durante cerca de três anos, no final da década de 1930, ele comandou os festejos locais.

Embora houvesse um Rei Momo oficial, a comunidade do Areal elegeu seu próprio representante, ligado ao território e à tradição local.

 

Adão Alves de Oliveira, o Lelé, Rei Momo no carnaval do Areal da Baronesa na década de 1930 | Crédito: Autor desconhecido

 

Segundo Vieira, Lelé abria o carnaval com cortejos iniciados na Ponte de Pedra — então limite entre centro e zona sul, seguindo pela atual rua João Alfredo até o Areal, onde ficava o coreto que marcava o início oficial da festa.

A imprensa da época acompanhava intensamente os eventos. Jornais como o Correio do Povo e a revista O Globo publicavam cronogramas detalhados das festividades, que duravam vários dias.

O carnaval do Areal ficou conhecido como “carnaval na areia”, referência à geografia local. Situada às margens do Guaíba, a região acumulava depósitos de areia que originaram o nome do território no século 19.

Hoje, o espaço histórico foi reduzido à Travessa Luiz Guaranha, onde permanece o Quilombo do Areal, um dos poucos territórios negros da primeira metade do século 20 que ainda preserva população negra e tradição carnavalesca.

Entre as iniciativas atuais está o bloco mirim Areal do Futuro, formado por crianças e jovens da comunidade, voltado à preservação dessa memória.

Remoções e apagamento histórico

Vieira lembra que outros territórios negros também tiveram papel importante no carnaval, como a Colônia Africana e a Bacia do Mont’Serrat, onde festas ocorriam em salões comunitários hoje desvinculados dessa história.

Um exemplo é a atual rua Miguel Tostes, que abrigava o antigo Salão Modelo, palco de carnavais na primeira metade do século 20.

 

Festa no Salão Modelo da Colônia Africana em torno de 1920 | Crédito: Autor desconhecido

 

Para a pesquisadora, recuperar essas memórias é essencial para compreender a cidade contemporânea e reconhecer as contribuições da população negra. “Muitas vezes moramos nesses lugares sem saber que ali estão as origens do carnaval da cidade”, afirma.

Segundo Vieira, Porto Alegre foi profundamente transformada ao longo do tempo, frequentemente à revelia dessas comunidades, o que contribuiu para o apagamento histórico.

“Raízes profundas e antigas”

Ao celebrar a história afro-gaúcha ganhando o Brasil no desfile da Portela, a pesquisadora comenta sobre o Batuque, religião de matriz africana espalhada por todo o estado. Destaca a presença dos clubes sociais negros, como a Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, fundada em 1872 em Porto Alegre, considerada o clube negro mais antigo do país.

O enredo, para ela, “mostra para o Brasil que o Rio Grande do Sul é também esse espaço negro, com raízes profundas e antigas”.

Vieira conclui analisando o deslocamento dos desfiles das escolas de samba em Porto Alegre, que foram do centro para o Complexo Cultural do Porto Seco. Para ela, o processo reproduz a lógica histórica de remoção das comunidades negras ao longo do século 20.

Areal do Futuro

Morador do Areal da Baronesa e conhecido na comunidade como Paulinho, Paulo César Silveira atua como diretor de bateria e responsável pelo projeto Areal do Futuro, iniciativa que busca manter viva a tradição do carnaval na região central de Porto Alegre. Segundo ele, a relação do bairro com a festa atravessa décadas e se confunde com a própria história do samba na cidade.

 

Instrumentos do bloco Areal do Futuro | Crédito: Rafa Dotti

 

Paulinho recorda que a mobilização carnavalesca no Areal começou ainda na época dos blocos e bandas locais. Em 1994, foi fundada uma escola de samba que desfilou até 2003. Após o encerramento das atividades, moradores criaram o projeto Areal do Futuro, com foco na memória cultural e na formação de novas gerações.

“Manter viva essa questão da memória é manter viva a percussão, a dança, o carnaval em si na comunidade”, afirma.

Atualmente, cerca de 70 crianças participam das atividades e devem desfilar no carnaval do bairro. Desde 2013, o grupo deixou de se apresentar no Complexo Cultural do Porto Seco e passou a realizar cortejos na própria comunidade, em um percurso que inclui ruas tradicionais da região e segue até a Praça dos Bombeiros.

Berço do samba em Porto Alegre

Paulinho ressalta que o Areal da Baronesa é historicamente ligado ao samba porto-alegrense e mantém relação direta com a escola Imperadores do Samba, fundada nas proximidades. Muitos integrantes do projeto são ex-componentes da agremiação, assim como seus familiares. “Imperadores, Areal, Cidade Baixa, tudo faz parte da mesma história”, resume.

 

 

A transferência dos desfiles oficiais para o Porto Seco, segundo ele, dificultou a participação de comunidades com menos estrutura. Por isso, o grupo optou por um carnaval de rua independente, embora hoje precise novamente de autorizações formais devido ao aumento do número de blocos na cidade.

Apesar das dificuldades financeiras, Paulinho garante que a festa acontece todos os anos. “Aqui funciona com dinheiro ou sem dinheiro. O Areal vai para a rua igual.”

O nome Areal do Futuro, explica, foi escolhido para preservar a identidade da antiga escola de samba, mantendo cores, símbolos e tradição, mas com foco nas novas gerações.

Para os organizadores, o bairro é reconhecido como um dos principais polos históricos do samba em Porto Alegre. Diversos nomes importantes da cultura carnavalesca passaram pela região, assim como moradores que posteriormente foram deslocados para outros bairros, especialmente para a Restinga, que também se consolidou como reduto do carnaval.

O projeto atende participantes de diferentes idades. A bateria, por exemplo, reúne pessoas de cinco a 80 anos, demonstrando o caráter intergeracional da iniciativa.

“Carnaval é trabalho e cultura”

Presidente do Areal do Futuro, Cleusa Gonçalves, conhecida como Tia Cleusa, tem mais de cinco décadas de envolvimento com o carnaval. Natural de Santana do Livramento, ela chegou à Capital já ligada à festa e participou por muitos anos da Imperadores do Samba.

 

Paulinho e Tia Cleusa, do Areal do Futuro | Crédito: Rafa Dotti

 

Para ela, o carnaval vai muito além da diversão. “É trabalho, alegria, diversão e cultura”, afirma. “Para colocar uma escola na rua é preciso tema, estudo, samba-enredo. Tudo isso é trabalho.”

Neste ano, o bloco Areal do Futuro homenageou a própria dirigente, de reconhecida trajetória na comunidade. Emocionada, ela diz ainda não ter assimilado completamente a homenagem. “É muita honra.”

Tia Cleusa também expressa orgulho pelo fato de a Portela levar ao Rio de Janeiro a história negra do Rio Grande do Sul, incluindo a trajetória do príncipe Custódio.

Manter o carnaval vivo

Moradora da região há décadas, a presidente descreve o Areal como um lugar alegre, próximo ao centro e marcado pela vida noturna, especialmente na rua Joaquim Nabuco. Para ela, viver no antigo “cinturão do carnaval” da cidade é motivo de satisfação.

Ao final, os entrevistados destacam a importância do respeito à cultura carnavalesca e à história do território, considerado por eles um quilombo urbano — espaço de resistência cultural negra dentro da cidade.

“Que prospere, porque é um quilombo do qual somos oriundos”, afirma Tia Cleusa. Para a comunidade do Areal da Baronesa, manter o carnaval vivo é preservar identidade, memória e pertencimento, independentemente das dificuldades materiais.

 


Esta matéria é parte das ações do Projeto “Igualdade e Cultura Negra: Vozes e Territórios”, executado em parceria com o Ministério da Igualdade Racial. O apoio se dá conforme o Termo de Fomento nº 973281, correspondente à Meta 6 (Produção de Matérias escritas para mídias digitais).

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