Artigo

Revista de Rádio Nº651 – 05 de fevereiro de 2026

Publicado em 5 de fevereiro de 2026

INSTITUTO CULTURAL PADRE JOSIMO 

PROGRAMA REVISTA DE RÁDIO

Produção e apresentação: Frei João Osmar

651º programa: 05 de fevereiro de 2026:

1 -Resenha: No programa de hoje vamos tratar sobre a vida, morte, velório e sepultamento de Frei Sérgio Gorgen. Frei Sérgio nasceu em 29 de janeiro de 1956 no município de Não Me Toque, RS, onde viveu sua infância e adolescência e fez seus estudos primários. Muito jovem ainda entrou como vocacionado no seminário dos freis franciscanos, onde fez seus votos religiosos que viveu com muita dignidade até o dia de sua morte em 03/02/2026. Seu velório transformou-se em um verdadeiro espaço para as homenagens e manifestações de gratidão pela sua vida e militância: Lideranças Religiosas de diversas matizes, de Movimentos Populares e Político se revezavam ao microfone, sempre intercalado por boa música, com palavras carregadas de muita emoção, nos três locais onde aconteceu o velório: Comunidade São Roque, Assentamento Conquista da Fronteira, no início da tarde do dia três de fevereiro, na Comunidade Nossa Senhora da Conceição em Candiota, RS no final da tarde e início da noite do mesmo dia, e finalmente, na igreja matriz São João Batista em Daltro Filho, Imigrante, RS, no dia 04, até às 16h, quando houve a Missa de Corpo Presente, seguida do sepultamento no cemitério da Província dos Franciscanos do RS no pátio do Convento São Boaventura na mesma localidade. Vou transcrever aqui um texto de memória escrito por Frei Sérgio no dia de seu aniversário, que após seu repentino falecimento, virou seu testamento de vida!

Ao Completar Setenta Anos

Ao completar setenta anos, roda um filme na cabeça da gente. Nunca imaginei chegar a esta idade. Mas se os anos se cumpriram, não resta dúvida, foi por Graça, pura Graça. Então, só resta agradecer ao Senhor da Vida, em seu Filho e em sua Mãe. Com certeza, me ampararam e me seguraram. Muitas e muitas vezes, através das amizades, do companheirismo, da fortaleza comum, no suporte das duas famílias (a de sangue e a de hábito), das tantas e tantas orações, dos pedidos de “se cuide” (quase nunca obedecidos). É nos gestos que a Graça se faz prática e o Amor se faz vivo.

Chegar aos setenta tendo sofrido 6 acidentes de carro, passado por cinco greves de fome, inúmeros conflitos sociais e fundiários, saindo ferido em dois, como diz o ditado popular, “só por Deus”. Vivi em situações de muita dor (até hoje ecoam nos meus ouvidos o choro de crianças com fome nos barracos de acampamento e até me dói no mais fundo de mim a dor de enterrar crianças que morriam de fome) e muita tensão em tantos e tantos conflitos vividos, mas os tempos de alegria e confraternização foram infinitamente maiores. Algumas decepções, mas os testemunhos edificantes foram e são infinitamente maiores.

Lembro, neste filme da vida, dos direitos que não tive. Não tive o direito de ter medo, mesmo carregado de temor, porque em tantos conflitos, uma covardia minha seria a derrocada para muita gente. Não tive o direito de vacilar, embora inseguro e cheio de dúvidas, por este vacilo comprometeria a firmeza na luta de tanta gente. Não tive o direito ao desânimo, embora tantas vezes sem enxergar caminhos seguros, porque estavam tantos olhando em minha direção e uma pequena demonstração de desânimo de minha parte, contaminaria o coração de muita gente e desistiriam de lutar pela dignidade de suas vidas. Não tive direito ao cansaço, embora tantas e tantas vezes, o espírito arrastou meu corpo exausto. Não tive o direito de ter crise, nem vocacional, nem espiritual, nem de confiança no futuro, embora em meu interior, tenha passado por várias e tantas, porque sentia a responsabilidade e o peso do hábito de São Francisco sobre os ombros na vocação que abracei.

E desde aquele dia em que, num conflito de terra na ocupação da Fazenda Anonni, em que a Brigada Militar avançava em direção ao povo e uma mulher puxou minha camisa e me disse “Frei, o senhor não vai fazer nada?” e eu, cheio de vergonha, avancei do meio do povo e fui para frente dos policiais, incapaz de dizer uma única palavra, abri os braços e parei bem próximo a eles – e as crianças com flores na mão, me seguiram e os policiais pararam – desde aquele dia, perdi também o direito à omissão. Por isto cheguei aos setenta meio assim, bruto, sincero demais, teimoso, xucro, irreverente, fora dos prumos estabelecidos, mas disposto e esperançoso na força do amor e da vida, pedindo sempre a Jesus e aqueles com quem caminho nas empreitadas da vida, que me farquejem e corrijam, para que meus muitos defeitos não sejam mais salientes que a Graça de Deus.

Continuo acreditando na força do povo organizado, uma das expressões mais vigorosas da Graça e das bênçãos divinas. Um direito, porém, sempre me assistiu: a proteção de Maria e a presença amorosa e incômoda de Jesus. Talvez, só por isto, tenha chegado aos setenta. Gratidão enorme, a Deus e a tanta gente com quem os caminhos da existência propiciou encontrar.  

Frei Sérgio Antônio Görgen ofm – 29 de janeiro de 2026.

2- Testemunho/entrevista: Hoje vamos ouvir o testemunho de Fábio Paes que é membro do Serviço Franciscano de Solidariedade – SEFRAS dos freis franciscanos de São Paulo, de Manuela D’Ávila que liderança da Política Partidária em Porto Alegre, de Rosiele Ludtke que é liderança do Movimento dos Pequenos Agricultores do Brasil,com destaque para a emancipação das mulheres e de Frei Olávio Dotto que é o Ministro Provincial dos freis franciscanos no RS e que presidiu as Cerimônias de despedida de Frei Sérgio.

3- Música: Homenagem a Frei Sérgio pelo seu aniversário, com letra e arranjo musical de Marcos Corbari e outros, com o apoio da IA;

4- Fotos da internet: Frei Sérgio – Instituto Cultural Padre Josimo:

Áudio 1

Áudio 2

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