Notícia

Guardiões da Natureza entrelaçam memória, resitência e sonho na região da Campanha/RS

Evento promovido pelo ICPJ e UTE Pampa Sul certifica e reconhece pessoas que dedicam a vida ao convívio harmônico com os recursos naturais

 

Um evento repleto de simbolismos foi realizado no dia 19 de julho de 2018, em plena região da Campanha, RS. Um projeto que valoriza o vínculo do homem e da mulher com a terra, a água, os animais, as sementes e os demais recursos naturais reuniu cerca de 250 pessoas na sede da comunidade Nossa Senhora de Fátima, no assentamento Conquista da Fronteira, em Hulha Negra. O motivo era nobre e o clima festivo: o Instituto Cultural Padre Josimo e a Usina Termo Elétrica Pampa Sul estavam entregando a 52 famílias de Hulha Negra e 37 de Candiota o certificado de reconhecimento público na condição de Guardiões e Guardiãs da Natureza. Entre os contemplados estavam produtores de sementes orgânicas ligados à marca Bionatur – referência no segmento –, integrante dos projetos “Protegendo as Águas do Pampa” e “Árvores Nativas”, mulheres que fazem parte da feira de orgânicos de Candiota, além de registros coletivos para as escolas Chico Mendes e 13 de Julho.

 

Os projetos do ICPJ e da Pampa Sul vem sendo desenvolvido junto às unidades produtivas onde atuam há três décadas as famílias assentadas da reforma agrária, predominantemente integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, e com o evento viabilizou uma oportunidade de registrar a intervenção diferenciada de homens e mulheres que empreendem suas vidas e seus sonhos no trabalho com a terra, no cultivo do alimento, no trato com os animais e na integração com recursos naturais que se perpetuam a partir de seu olhar cuidador.

 

– Tem dias que eu vou no mato só para ouvir os passarinhos cantar, que coisa linda é a orquestra da natureza -, exemplificou Olália Fátima da Silva, destacando que a camponesa e o camponês possuem uma relação diferenciada, que ela sintetiza com a expressão “amor à natureza!”. Para ela, a verdade reside na semente crioula, nas árvores, nos animais, na água que deve correr livre e pura, em todas as coisas simples e singelas que no fundo formalizam uma qualidade de vida que é preciso mostrar a todos que se dispuserem a ver, conhecer, aprender e disseminar. “Esse é o processo que nós estamos construindo junto com o Instituto e com a pampa Sul: amor!”, arrematou.

 

– Todas as famílias foram visitadas pela equipe do ICPJ, respondendo a uma entrevista onde relataram suas origens, sua luta pela conquista da terra, os desafios enfrentados para se instalar na região -, explicou a engenheira florestal Macarena Santamarta Rodrigues. “Buscamos registrar como se dá seu trabalho com a terra, como essas pessoas sededicam no seu cotidiano para preservar o modo de vida camponês e, assim, se tornar guardiãs e guardiões da natureza”, acrescenta a comunicadora Marciane Fisher, da Rádio Terra Livre.

 

Os testemunhos dos homenageados da dia foram os mais diversos, porém mantendo relação com o que enunciou Ivanir Ivete da Silva, expressando muito em poucas palavras: “Gostamos de trabalhar com a terra e cuidar dela”. A crítica aos monocultivos também esteve presente nos relatos, como de Helmuth Griesang, que fez questão de afirmar que nunca se deixou enganar pela soja, ainda muito presente em unidadesp rodutivas no entorno, pois “ela não tem futuro para a pequena propriedade”. Rosa Maria da Silva Dionísio enaltece sentimentos contrastantes: “coisa boa é passar pelo meio das árvores até chegar na fonte de água, coisa triste é quando a gente passa e sente o cheiro de veneno”. Para Ricardo de Jesus, as sementes são o eleo simbólico a ser preservado: “Todo precisamos das sementes para produzir alimentos, mas os mais jovens não vão ter a oportunidade de conhecer variedades de sementes crioulas que foram se perdendo”, alertou, lembrando que quando não preservamos uma semente, é alimento que estamos perdendo. Seu Angelim Padilha alinhavou o raciocínio que fechou esse simbolismo: “Sempre pensei que é a natureza que nos conduz”, disse ele, acrescentando que ao homem e a mulher cabe a tarefa de plantar, mas no final “é a natureza que manda, nós precisamos dela”.

 

Fulgêncio Batista, executivo da UTE Pampa Sul, demonstrou satisfação com o trabalho realizado: “É uma grande satisfação estar hoje aqui e ver que já temos resultados, alcançando a perspectiva da sustentabilidade, da responsabilidade social e do fortalecimento das comunidades”. Para ele, a participação ativa a participação ativa motiva ainda mais a empresa na busca de concretizar e aumentar as parcerias com as comunidades, sempre dialogando e construindo de forma conjunta. Batista citou as duas vertentes priorizadas nestes primeiros três anos de parceria com o ICPJ, a preservação das smenetes crioulas e a recuperação das fontes e nascentes de água, mas frisou de maneira geral a visão da empresa em valorizar especialmente a relação das famílias com a terra e fortalecer a agricultura familiar.

 

Entre os momentos de intercâmbio de saberes, o professor Fernando Bernal, doutor em Engenharia Florestal, que veio de Santa Cruz para participar do evento, enalteceu a iniciativa, especialmente pelo seu viés coletivo: “Tivemos aqui o relato extremamente significativo daqueles que procederam uma mudança de paradigma frente ao que historicamente vinha acontecendo na região”. Bernal citou o envolvimento pedagógico das pessoas com o projeto, o que aumenta a capacidade de disseminação, ressaltando ainda a importância da preservação dos recursos naturais, desafiando os envolvidos a que se mantenham firmes e atuantes, levando essas atividades que fomentam desenvolvimento com preservação até todos os moradores do conjunto de assentamentos da região.

 

 

Marcos Corbari

ICPJ | Rede Soberania | MPA | Brasil de Fato-RS

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