{"id":9142,"date":"2026-05-25T16:27:04","date_gmt":"2026-05-25T19:27:04","guid":{"rendered":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/?post_type=noticias&#038;p=9142"},"modified":"2026-05-25T16:51:32","modified_gmt":"2026-05-25T19:51:32","slug":"vozes-e-territorios-pelotas-para-alem-da-terra-dos-doces-quilombos-revelam-resistencia-negra-no-sul-do-rs","status":"publish","type":"noticias","link":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/noticias\/vozes-e-territorios-pelotas-para-alem-da-terra-dos-doces-quilombos-revelam-resistencia-negra-no-sul-do-rs\/","title":{"rendered":"VOZES E TERRIT\u00d3RIOS | Pelotas para al\u00e9m da terra dos doces: quilombos revelam resist\u00eancia negra no sul do RS"},"content":{"rendered":"<p><b>Das charqueadas \u00e0s lutas atuais, comunidades quilombolas disputam mem\u00f3ria, terra e perman\u00eancia no territ\u00f3rio<\/b><\/p>\n<p>Fabiana Reinholz e Marcelo Ferreira<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9143\" aria-describedby=\"caption-attachment-9143\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9143\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-300x200.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9143\" class=\"wp-caption-text\">Lideran\u00e7as e fam\u00edlias do Quilombo do Algod\u00e3o mant\u00eam viva a luta por terra, renda e perman\u00eancia na zona rural de Pelotas \/ Marcelo Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Situada na regi\u00e3o sul do Rio Grande do Sul, \u00e0s margens da Lagoa dos Patos e pr\u00f3xima ao Oceano Atl\u00e2ntico, Pelotas carrega marcas profundas da escravid\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma trajet\u00f3ria hist\u00f3rica de resist\u00eancia negra e quilombola. Do Passo dos Negros, rota que parte do munic\u00edpio de Rio Grande at\u00e9 o territ\u00f3rio pelotense, \u00e0s comunidades quilombolas ainda presentes no munic\u00edpio, a cidade se consolidou como um dos principais s\u00edmbolos da hist\u00f3ria negra no estado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m do passado ligado \u00e0s charqueadas e ao trabalho escravizado, Pelotas \u00e9 reconhecida pela organiza\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia de comunidades quilombolas. Atualmente, quatro comunidades quilombolas s\u00e3o oficialmente reconhecidas no munic\u00edpio, al\u00e9m de um quinto territ\u00f3rio citado por lideran\u00e7as locais. A regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria desses territ\u00f3rios, no entanto, ainda segue como uma das principais reivindica\u00e7\u00f5es das fam\u00edlias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa hist\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 marcada por personagens como Manoel Padeiro, considerado o primeiro her\u00f3i negro oficialmente reconhecido do Rio Grande do Sul.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Manoel Padeiro e a mem\u00f3ria coletiva<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conhecido como \u201cZumbi dos Pampas\u201d, Manoel Padeiro comandou levantes contra a escravid\u00e3o na regi\u00e3o de Pelotas, na Serra dos Tapes, durante a d\u00e9cada de 1830. A trajet\u00f3ria foi oficialmente reconhecida pelo Rio Grande do Sul por meio da Lei Estadual n\u00ba 16.070\/2023, de autoria da deputada estadual Laura Sito. A legisla\u00e7\u00e3o concedeu a Manoel Padeiro o t\u00edtulo de Her\u00f3i Rio-Grandense e instituiu 16 de junho como data oficial de celebra\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9144\" aria-describedby=\"caption-attachment-9144\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-9144\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-1024x529.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"413\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-1024x529.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-300x155.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-768x397.jpeg 768w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33.jpeg 1200w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9144\" class=\"wp-caption-text\">Manoel Padeiro, em ilustra\u00e7\u00e3o de Alisson Affonso para o livro \u201cQuilombo da Liberdade\u201d, escrito pela professora T\u00e2nia Rodrigues Tib\u00e9rio \/ Alisson Affonso<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pr\u00f3-reitora de A\u00e7\u00f5es Afirmativas e Equidade da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), professora Daiane Garcia Molet, afirma que Manoel Padeiro representa a dimens\u00e3o coletiva da resist\u00eancia quilombola e n\u00e3o pode ser compreendido de forma individualizada. \u201cManoel Padeiro \u00e9 uma importante lideran\u00e7a quilombola porque representa a coletividade, o quanto a resist\u00eancia negra e a constru\u00e7\u00e3o de projetos de presente e de futuro foram constru\u00eddas coletivamente. Ele n\u00e3o estava sozinho, estava junto com outros quilombolas lutando pela possibilidade de existir para al\u00e9m das narrativas da escravid\u00e3o, construindo outras possibilidades de ser e estar em Pelotas no s\u00e9culo XIX\u201d, exp\u00f5e.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Molet destaca que a mem\u00f3ria de Manoel Padeiro segue viva nas comunidades quilombolas e no movimento negro da cidade. \u201cDesde a d\u00e9cada de 1970, essa representa\u00e7\u00e3o vem sendo cada vez mais fortalecida como s\u00edmbolo da luta quilombola e da resist\u00eancia negra.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Territ\u00f3rios de circula\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo a pesquisadora, os territ\u00f3rios quilombolas formados ao redor da Lagoa dos Patos integram uma rede hist\u00f3rica de circula\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia negra no Rio Grande do Sul. Em pesquisas, Molet identifica experi\u00eancias que conectam comunidades entre Pelotas, Rio Grande e o litoral sul ga\u00facho. \u201cTemos Pelotas com as charqueadas, Rio Grande com o \u00fanico porto mar\u00edtimo do estado e um litoral com v\u00e1rias comunidades quilombolas assentadas desde o s\u00e9culo XIX. Era um espa\u00e7o de circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, de pessoas escravizadas, mas tamb\u00e9m de pessoas negras fugindo e construindo formas de resist\u00eancia\u201d, explica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A professora tamb\u00e9m enfatiza o protagonismo das mulheres na sustenta\u00e7\u00e3o dos quilombos. Segundo ela, eram mulheres respons\u00e1veis pelos conhecimentos ligados ao cuidado, \u00e0 terra, \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de alimentos, \u00e0 cura e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das comunidades. \u201cN\u00e3o h\u00e1 como falar sobre resist\u00eancia negra e resist\u00eancia quilombola sem mencionar as mulheres\u201d, afirma. Entre os exemplos citados est\u00e1 Negra Rosa, ligada ao quilombo de Manoel Padeiro. \u201cEla era uma mulher que lutava com fac\u00f5es, que ia para a disputa e para a luta para defender aquilo que acreditava ser importante para o coletivo\u201d, pontua.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa resist\u00eancia, aponta Molet, aparece hoje na perman\u00eancia dos quilombos, na organiza\u00e7\u00e3o das mulheres e na luta por territ\u00f3rio em comunidades como o Quilombo do Algod\u00e3o, na zona rural de Pelotas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>No Quilombo Algod\u00e3o, resist\u00eancia passa por terra, escola e renda<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No alto da zona rural de Pelotas, a cerca de 26 quil\u00f4metros de Cangu\u00e7u, o Quilombo do Algod\u00e3o mant\u00e9m viva uma hist\u00f3ria atravessada pela escravid\u00e3o, pela fuga e pela resist\u00eancia. Formada por descendentes de negros escravizados nas charqueadas pelotenses, a comunidade re\u00fane 116 fam\u00edlias distribu\u00eddas em 12 n\u00facleos, mas ainda enfrenta dificuldades de acesso \u00e0 terra, renda e direitos b\u00e1sicos. \u201cA gente \u00e9 oriundo dos escravizados das charqueadas de Pelotas\u201d, resume Nilo Dias, lideran\u00e7a da comunidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cPelotas \u00e9 conhecida como uma das cidades que se desenvolveu \u00e0 base da escravid\u00e3o. Os escravizados que n\u00e3o suportaram o regime de escravid\u00e3o nas charqueadas, porque a m\u00e9dia de idade do pessoal que trabalhava nas charqueadas era 40 anos, fugiram pelo arroio Pelotas, porque a \u00e1gua era um meio de eles fugirem e n\u00e3o serem capturados, porque pelo arroio n\u00e3o deixa rastro.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9145\" aria-describedby=\"caption-attachment-9145\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9145\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-1.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-1-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9145\" class=\"wp-caption-text\">\u201cPelotas \u00e9 conhecida como uma das cidades que se desenvolveu \u00e0 base da escravid\u00e3o\u201d, afirma Nilo Dias \/ Marcelo Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo Dias, os fugitivos seguiram at\u00e9 o Morro Quingongo, pr\u00f3ximo \u00e0 comunidade atual. \u201cAli se alojaram mais de 300 fugitivos ainda no tempo da escravid\u00e3o. At\u00e9 hoje existem cavernas onde eles se escondiam. Era um lugar estrat\u00e9gico, de onde conseguiam vigiar a movimenta\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias de Cangu\u00e7u e Pelotas.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o tempo, as fam\u00edlias se espalharam em pequenos n\u00facleos pela regi\u00e3o. De acordo com Dias, o isolamento entre os pr\u00f3prios grupos fazia parte de uma l\u00f3gica hist\u00f3rica de explora\u00e7\u00e3o. \u201cAs comunidades eram muito individualizadas. Nem os n\u00facleos conversavam entre si. Era uma maneira que o pessoal da volta tinha de explorar as pessoas da comunidade.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A organiza\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar a partir dos anos 2000, impulsionada por pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas \u00e0s comunidades quilombolas e pela atua\u00e7\u00e3o de entidades parceiras, como a Funda\u00e7\u00e3o Luterana de Diaconia (FLD). Em 2006, a comunidade come\u00e7ou, de fato, a se organizar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Luz el\u00e9trica chegou apenas em 2008<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar da longa perman\u00eancia no territ\u00f3rio, direitos b\u00e1sicos chegaram h\u00e1 pouco tempo. At\u00e9 2008, nenhuma casa da comunidade tinha energia el\u00e9trica. \u201cQuando surgiu o programa Luz para Todos, a gente correu atr\u00e1s durante quatro anos. Em 2008 foram colocadas as primeiras luzes nas casas. Faz menos de 20 anos que a comunidade passou a ter energia el\u00e9trica\u201d, lembra Dias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O reconhecimento oficial do Quilombo do Algod\u00e3o pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares veio em 2009 e abriu caminho para programas sociais e pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cAntes disso, a comunidade n\u00e3o conseguia acessar nem o Bolsa Fam\u00edlia. N\u00e3o tinha t\u00edtulo da terra, n\u00e3o tinha luz el\u00e9trica, n\u00e3o tinha tal\u00e3o de produtor. Como \u00e9 que tu ia provar para o poder p\u00fablico que morava aqui?\u201d, questiona. Segundo ele, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar ap\u00f3s o reconhecimento. \u201cO munic\u00edpio passou a reconhecer as fam\u00edlias quilombolas como habitantes daqui. A partir disso foi poss\u00edvel acessar programas sociais, habita\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2013, 31 casas foram constru\u00eddas pelo programa Minha Casa Minha Vida Rural, em modalidade voltada para comunidades quilombolas. Na educa\u00e7\u00e3o, o impacto tamb\u00e9m foi significativo. \u201cL\u00e1 em 2006, a gente tinha cerca de 30% das crian\u00e7as em idade escolar frequentando a escola. Hoje s\u00e3o praticamente 100%\u201d, relata. Para ele, a perman\u00eancia dos estudantes est\u00e1 ligada \u00e0s pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda. \u201cO Bolsa Fam\u00edlia trouxe os alunos para dentro da escola.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Trabalho eventual e pouca terra<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A falta de acesso \u00e0 terra continua sendo um dos principais desafios da comunidade. Hoje, aponta Dias, apenas entre seis e oito fam\u00edlias possuem \u00e1rea suficiente para garantir o sustento pr\u00f3prio. A maioria depende de trabalho eventual em propriedades vizinhas. \u201cNoventa e oito por cento das fam\u00edlias vivem do trabalho eventual na lavoura dos pequenos agricultores. Durante o ver\u00e3o tem mais servi\u00e7o, mas no inverno quase n\u00e3o tem nada. Tem semanas que a gente n\u00e3o trabalha nenhum dia.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9146\" aria-describedby=\"caption-attachment-9146\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9146\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-2.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-2-300x200.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-2-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9146\" class=\"wp-caption-text\">Nilo Dias em frente \u00e0 sede da comunidade quilombola do Algod\u00e3o, espa\u00e7o conquistado com mobiliza\u00e7\u00e3o e apoios \/ Marcelo Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em alguns espa\u00e7os, o territ\u00f3rio \u00e9 dividido entre muitas fam\u00edlias. \u201cAqui onde est\u00e1 a sede moram dez fam\u00edlias em menos de um hectare. N\u00e3o tem espa\u00e7o para plantar. Algumas conseguem fazer uma horta pequena, outras nem isso.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O acesso \u00e0 previd\u00eancia social tamb\u00e9m demorou a chegar. \u201cAntes de 2016, a gente n\u00e3o tinha direito a aposentadoria, aux\u00edlio-doen\u00e7a ou aux\u00edlio-maternidade. O primeiro tal\u00e3o de produtor saiu s\u00f3 em 2016\u201d, afirma Dias. Ainda assim, ele avalia que os avan\u00e7os recentes transformaram a vida da comunidade. \u201cNesses \u00faltimos 20 anos a gente avan\u00e7ou mais do que em 100 anos antes. Porque teve pol\u00edtica p\u00fablica direcionada para as comunidades quilombolas, teve organiza\u00e7\u00f5es parceiras e a gente passou a participar dos espa\u00e7os de decis\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Juventude quilombola busca forma\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A trajet\u00f3ria de Tatiane Lanzar da Siqueira simboliza parte dessas mudan\u00e7as. Filha de trabalhadores rurais, ela \u00e9 a primeira pessoa da fam\u00edlia a cursar o ensino t\u00e9cnico. \u201cMinha av\u00f3 \u00e9 analfabeta, minha m\u00e3e \u00e9 analfabeta. Eu sou a primeira da fam\u00edlia a fazer ensino t\u00e9cnico\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9147\" aria-describedby=\"caption-attachment-9147\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9147\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-3.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-3.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-3-300x200.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-3-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9147\" class=\"wp-caption-text\">Tatiane Lanzar da Siqueira \u00e9 a primeira da fam\u00edlia a fazer ensino t\u00e9cnico \/ Marcelo Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Atualmente, Tatiane faz est\u00e1gio na \u00e1rea de t\u00e9cnico em alimentos na Funda\u00e7\u00e3o Luterana de Diaconia, em Pelotas, onde permanece durante a semana. \u201cA ideia \u00e9 concluir o curso, ganhar o diploma e trazer retorno para a minha fam\u00edlia.\u201d Ela divide o tempo entre os estudos, a cria\u00e7\u00e3o da filha de 7 anos e o trabalho na produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica da fam\u00edlia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cMinha fam\u00edlia trabalha com agroecologia. A gente produz numa horta pequena e leva para a feira em Pelotas\u201d, explica. A Feira Agroecol\u00f3gica Akotirene acontece aos s\u00e1bados em frente ao Mercado Central de Pelotas, com produtos quilombolas, e completa cinco anos neste m\u00eas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conforme aponta Tatiane, a feira mudou a vida de muitas fam\u00edlias quilombolas. \u201cMeu pai trabalhava de eventual na lavoura dos outros produtores. Hoje ele consegue tirar o sustento da feira. Foi muito importante para a nossa fam\u00edlia.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9148\" aria-describedby=\"caption-attachment-9148\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-9148\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-1-1024x484.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"378\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-1-1024x484.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-1-300x142.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-1-768x363.jpeg 768w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-1.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9148\" class=\"wp-caption-text\">Feira Kilombola Akotirene re\u00fane produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de comunidades quilombolas de Pelotas \/ Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/Feira Kilombola Akotirene<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Mulheres sustentam rede de cuidado<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">M\u00e3e de oito filhos, um deles falecido ap\u00f3s um acidente, Rosa Maria Lacerda Siqueira cria sete filhos com idades entre 7 e 27 anos, al\u00e9m de ajudar a cuidar dos quatro netos. A rotina, conta ela, \u00e9 marcada pelo cuidado coletivo e pelo trabalho dentro e fora de casa. \u201cEu cuido das crian\u00e7as, dos netos, da horta e da casa\u201d, afirma. \u201cAqui uma turma vai para a escola de manh\u00e3, outra vai de tarde. N\u00e3o tem descanso.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Rosa Siqueira tamb\u00e9m produz verduras em uma estufa conquistada por meio de um projeto social. Parte da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 vendida na feira agroecol\u00f3gica; outra parte garante a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. \u201c\u00c9 dali que as crian\u00e7as aprendem a comer verdura. Antes a gente nem tinha isso.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Analfabeta, Rosa Siqueira diz que aprendeu apenas a escrever o pr\u00f3prio nome em aulas de Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA). Ainda assim, v\u00ea mudan\u00e7as na forma como a comunidade \u00e9 tratada. \u201cAntes do reconhecimento, as pessoas olhavam atravessado para n\u00f3s. Tratavam diferente\u201d, lembra. \u201cQuando meus pais trabalhavam nas lavouras, os pe\u00f5es n\u00e3o sentavam na mesa com os patr\u00f5es. Comiam nos galp\u00f5es. Hoje j\u00e1 mudou.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A valoriza\u00e7\u00e3o da identidade quilombola, afirma, trouxe dignidade para muitas fam\u00edlias. \u201cAgora as pessoas tratam mais igual.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9149\" aria-describedby=\"caption-attachment-9149\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9149\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-4.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-4.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-4-300x200.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-4-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9149\" class=\"wp-caption-text\">Rosa Siqueira cuidando da horta para consumo das fam\u00edlias e para a comercializar na feira \/ Marcelo Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Cultura e organiza\u00e7\u00e3o coletiva<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A sede da associa\u00e7\u00e3o quilombola se tornou um espa\u00e7o central de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e comunit\u00e1ria. O pr\u00e9dio recebeu melhorias ap\u00f3s a comunidade acessar, em 2020, recursos da Lei Aldir Blanc. \u201cFoi a primeira verba da cultura que a gente conseguiu acessar\u201d, relata Dias. \u201cCom ela colocamos piso, revestimento e sistema de monitoramento.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O espa\u00e7o abriga reuni\u00f5es bimensais da comunidade, onde as fam\u00edlias discutem demandas junto ao poder p\u00fablico e a organiza\u00e7\u00f5es parceiras. \u201c\u00c9 ali que a comunidade se organiza\u201d, resume a lideran\u00e7a quilombola.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A luta por reconhecimento dos quilombos de Pelotas tamb\u00e9m passa por lideran\u00e7as que conectam mem\u00f3ria ancestral, organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e disputa institucional. \u00c9 o caso de Ant\u00f4nio Leonel Rodrigues Soares, quilombola que hoje ocupa a Secretaria de Desenvolvimento Rural do munic\u00edpio.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>\u201cHoje a lan\u00e7a que a gente carrega n\u00e3o \u00e9 essa, \u00e9 a caneta\u201d<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A frase de Soares resume uma trajet\u00f3ria atravessada pela mem\u00f3ria da resist\u00eancia negra no sul do Rio Grande do Sul. Descendente de um lanceiro negro que participou da Batalha de Porongos, ele vive no Monte Bonito, em Pelotas, e h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas atua no reconhecimento e fortalecimento das comunidades quilombolas da regi\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9150\" aria-describedby=\"caption-attachment-9150\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9150\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-2.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-2-300x200.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-2-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9150\" class=\"wp-caption-text\">Ant\u00f4nio Leonel Rodrigues Soares \u00e9 secret\u00e1rio de Desenvolvimento Rural de Pelotas \/ Marcelo Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Morador da comunidade quilombola V\u00f3 Elvira, Soares participou diretamente do processo de reconhecimento de dezenas de comunidades no sul do estado. Al\u00e9m de Pelotas, o trabalho percorreu territ\u00f3rios em Cangu\u00e7u, Piratini, Pedras Altas, Santana da Boa Vista, Cristal e S\u00e3o Louren\u00e7o do Sul.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo ele, o processo come\u00e7ou em 2003, quando trabalhava no Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (CAPA). \u201cTeve uma demanda de fazer o reconhecimento das comunidades e eu fui um dos que foi em todas as comunidades fazendo esse reconhecimento e tamb\u00e9m resgatei um pouco da minha hist\u00f3ria, que est\u00e1 um pouco em cada comunidade dessas.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O reconhecimento oficial das comunidades ocorreu entre 2004 e 2009, por meio da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares. Apesar disso, Soares destaca que nenhuma comunidade quilombola de Pelotas possui titula\u00e7\u00e3o definitiva das terras. Atualmente, segundo ele, existem cinco comunidades reconhecidas no munic\u00edpio: V\u00f3 Elvira, Algod\u00e3o, Alto do Caix\u00e3o, Cerrito Alegre e Ramos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9151\" aria-describedby=\"caption-attachment-9151\" style=\"width: 552px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9151\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.02.16.jpeg\" alt=\"\" width=\"552\" height=\"310\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.02.16.jpeg 552w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.02.16-300x168.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 552px) 100vw, 552px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9151\" class=\"wp-caption-text\">Moradores do Quilombo V\u00f3 Elvira na \u00e9poca em que a Funda\u00e7\u00e3o Palmares reconheceu quilombos no sul do RS, em 2009 \/ Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>V\u00f3 Elvira, Monte Bonito e rotas de fuga<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele descreve a comunidade V\u00f3 Elvira como um territ\u00f3rio marcado por conflitos entre quilombolas e capit\u00e3es do mato. \u201cSegundo as informa\u00e7\u00f5es, ali foi um lugar de muitas batalhas travadas\u201d, afirma. Entre as lideran\u00e7as que marcaram a regi\u00e3o, Soares destaca Manoel Padeiro, s\u00edmbolo da resist\u00eancia negra no sul do estado. \u201cEle era um Zumbi dos Pampas\u201d, resume. Para Soares, no entanto, a resist\u00eancia nunca foi constru\u00edda individualmente. \u201cQuando \u00e9 apontada uma lideran\u00e7a s\u00f3, \u00e9 f\u00e1cil terminar com ela e a luta parar. Mas n\u00e3o \u00e9 assim.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Segundo ele, o territ\u00f3rio do Monte Bonito integra uma antiga rota de fuga de pessoas escravizadas. O Arroio Pelotas era utilizado para despistar c\u00e3es durante as persegui\u00e7\u00f5es. \u201cIa por dentro da \u00e1gua\u201d, explica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Soares nasceu em Cangu\u00e7u, no in\u00edcio do Arroio Pelotas. O pai se mudou para Pelotas quando ele ainda era crian\u00e7a, acompanhando o trajeto feito pelo av\u00f4, tropeiro que conduzia gado pela regi\u00e3o. \u201cPassava bem onde eu moro hoje.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As hist\u00f3rias familiares, segundo ele, se misturam com a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o dos quilombos. \u201cNada \u00e9 por acaso\u201d, diz. Ao longo dos anos, Soares passou a enxergar sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e comunit\u00e1ria como continuidade dessa trajet\u00f3ria ancestral.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9152\" aria-describedby=\"caption-attachment-9152\" style=\"width: 834px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9152\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-3.jpeg\" alt=\"\" width=\"834\" height=\"626\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-3.jpeg 834w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-3-300x225.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.33-3-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 834px) 100vw, 834px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9152\" class=\"wp-caption-text\">M\u00e3e e pai de Ant\u00f4nio Leonel Rodrigues Soares na \u00e9poca do reconhecimento da comunidade<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ocupa\u00e7\u00e3o institucional e responsabilidade coletiva<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje, Soares \u00e9 secret\u00e1rio de Desenvolvimento Rural de Pelotas e afirma que ocupar espa\u00e7os institucionais \u00e9 parte da luta quilombola contempor\u00e2nea. \u201cEu me apresento como secret\u00e1rio e sou um quilombola. \u00c9 um secret\u00e1rio quilombola que est\u00e1 aqui hoje.\u201d Segundo ele, a presen\u00e7a de pessoas negras em espa\u00e7os de decis\u00e3o ainda \u00e9 recente em uma cidade marcada pela heran\u00e7a escravista das charqueadas. \u201cPelotas tem muitas fam\u00edlias negras e era muito mais dif\u00edcil ocupar esses espa\u00e7os.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para a responsabilidade de quem chega a cargos p\u00fablicos sem romper v\u00ednculos com as comunidades de origem. \u201cAs origens a gente n\u00e3o pode deixar s\u00f3 por estar ocupando um cargo pol\u00edtico.\u201d Ao falar sobre racismo e desigualdade, Soares afirma que a luta quilombola vai al\u00e9m da representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. \u201cN\u00e3o adianta ser preto s\u00f3 por ser preto, porque o capit\u00e3o do mato est\u00e1 no meio dos pretos tamb\u00e9m.\u201d<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Comit\u00ea, universidades e luta por terra<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma das principais conquistas recentes apontadas por ele foi a cria\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea Gestor Quilombola de Pelotas, formado por lideran\u00e7as das comunidades e representantes de diferentes secretarias municipais. \u201cTalvez seja o \u00fanico do Brasil\u201d, afirma. O processo come\u00e7ou por volta de 2017 e foi oficializado em 2019. Segundo Soares, o comit\u00ea re\u00fane \u00e1reas como Sa\u00fade, Educa\u00e7\u00e3o, Cultura, Assist\u00eancia Social, Igualdade Racial e Desenvolvimento Rural. \u201cAs decis\u00f5es s\u00e3o das lideran\u00e7as. As secretarias s\u00e3o parceiras no processo.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar dos avan\u00e7os, Soares pontua que a principal reivindica\u00e7\u00e3o segue sendo o acesso \u00e0 terra. \u201cA luta por terra em todas as comunidades \u00e9 a luta pela terra.\u201d Segundo ele, muitas fam\u00edlias vivem em \u00e1reas pequenas, sem espa\u00e7o suficiente para produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. \u201cEmbora sendo zona rural, n\u00e3o tem \u00e1rea para produzir. N\u00e3o tem como fazer o sustento.\u201d Ele relata que muitos moradores acabam trabalhando em propriedades de terceiros ou migrando para a cidade em busca de renda.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9153\" aria-describedby=\"caption-attachment-9153\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9153\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-5.jpeg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-5.jpeg 1024w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-5-300x200.jpeg 300w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.34-5-768x512.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9153\" class=\"wp-caption-text\">N\u00facleo onde fica a sede do Quilombo do Algod\u00e3o abriga 10 fam\u00edlias em \u00e1rea menor que 1 hectare \/ Marcelo Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Soares tamb\u00e9m destaca a forte presen\u00e7a das mulheres na organiza\u00e7\u00e3o quilombola, especialmente em munic\u00edpios como Cangu\u00e7u, que concentra o maior n\u00famero de quilombos do Rio Grande do Sul. \u201cDependendo da regi\u00e3o onde a coisa \u00e9 mais apertada, as mulheres \u00e0 frente conseguem fazer as coisas com mais facilidade\u201d, afirma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre os avan\u00e7os das \u00faltimas d\u00e9cadas, Soares aponta o acesso \u00e0s universidades p\u00fablicas e \u00e0s pol\u00edticas habitacionais. Segundo ele, as lideran\u00e7as quilombolas participaram diretamente da constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de ingresso para quilombolas e ind\u00edgenas na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e na Universidade Federal do Rio Grande (Furg). \u201cOs primeiros cursos que escolhemos fomos n\u00f3s, pelas demandas que a gente tinha dentro da comunidade.\u201d Entre as \u00e1reas priorizadas estavam medicina, agronomia, administra\u00e7\u00e3o, fisioterapia e educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. \u201cHoje n\u00f3s temos quilombolas formados na UFPel e tamb\u00e9m na Furg.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A presen\u00e7a quilombola no ensino superior tamb\u00e9m \u00e9 destacada pela pr\u00f3-reitora Daiane Molet. Segundo ela, a universidade acompanha a perman\u00eancia desses estudantes na institui\u00e7\u00e3o. \u201cA UFPel tamb\u00e9m \u00e9 um territ\u00f3rio quilombola. Na Pr\u00f3-Reitoria de A\u00e7\u00f5es Afirmativas e Equidade, n\u00f3s atendemos estudantes quilombolas e acompanhamos a perman\u00eancia deles na institui\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um coletivo de estudantes quilombolas na universidade, presente em diferentes cursos, como medicina, direito e veterin\u00e1ria. S\u00e3o estudantes de Pelotas, de outras localidades do Rio Grande do Sul e tamb\u00e9m de outros estados do Brasil\u201d, afirma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De acordo com Soares, a proposta nunca foi formar profissionais apenas para atuar dentro dos quilombos, mas preparar pessoas capazes de transformar os espa\u00e7os que ocupam. \u201cQuando chegar algu\u00e9m da periferia ou de um quilombo, ele vai saber atender diferente.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao tratar da valoriza\u00e7\u00e3o da cultura afro nas escolas, a lideran\u00e7a pontua que ela depende de como \u00e9 provocada nas fam\u00edlias e nas comunidades. \u201cA nossa hist\u00f3ria \u00e9 bonita\u201d, afirma. \u201cEu fui ouvindo do meu pai, da minha av\u00f3 contando as hist\u00f3rias.\u201d Segundo ele, as mudan\u00e7as das \u00faltimas d\u00e9cadas transformaram a vida comunit\u00e1ria. \u201cA gente n\u00e3o tinha luz el\u00e9trica at\u00e9 os 17 anos\u201d, recorda. Hoje, afirma, a televis\u00e3o e o celular alteraram a conviv\u00eancia e as brincadeiras entre as crian\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_9154\" aria-describedby=\"caption-attachment-9154\" style=\"width: 427px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9154\" src=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.32.jpeg\" alt=\"\" width=\"427\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.32.jpeg 427w, https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/WhatsApp-Image-2026-05-25-at-16.00.32-300x242.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9154\" class=\"wp-caption-text\">Fam\u00edlia da comunidade com a V\u00f3 Elvira sentada ao centro \/ Museu Afro-Brasil-Sul da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo assim, Soares diz que as comunidades seguem organizadas e articulando novos encontros para debater os desafios atuais. Entre as principais demandas, aponta a regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria e o acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. \u201cAinda falta a quest\u00e3o da terra, acessar pol\u00edticas p\u00fablicas para desenvolver, plantar, ter Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para investimento.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para ele, a luta quilombola exige responsabilidade com a mem\u00f3ria e com os ancestrais. \u201cSe \u00e9 para trabalhar com quilombo e n\u00e3o fazer as coisas certas, ent\u00e3o n\u00e3o faz nada\u201d, afirma. \u201cEst\u00e1 mexendo com a hist\u00f3ria, com a espiritualidade, com muita coisa.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre a mem\u00f3ria das fugas pelo Arroio Pelotas, a lembran\u00e7a de Manoel Padeiro e a vida cotidiana das comunidades que seguem sem titula\u00e7\u00e3o definitiva, a hist\u00f3ria quilombola de Pelotas permanece como uma disputa aberta. Mais do que recuperar o passado, as lideran\u00e7as ouvidas afirmam que reconhecer essa trajet\u00f3ria significa garantir terra, pol\u00edticas p\u00fablicas e condi\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia para as fam\u00edlias que seguem produzindo vida no territ\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-6950de8 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"6950de8\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n<div>\u00a0<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<div>Esta mat\u00e9ria \u00e9 parte das a\u00e7\u00f5es do Projeto \u201cIgualdade e Cultura Negra: Vozes e Territ\u00f3rios\u201d, executado em parceria com o Minist\u00e9rio da Igualdade Racial. O apoio se d\u00e1 conforme o Termo de Fomento n\u00ba 973281, correspondente \u00e0 Meta 6 (Produ\u00e7\u00e3o de Mat\u00e9rias escritas para m\u00eddias digitais).<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Das charqueadas \u00e0s lutas atuais, comunidades quilombolas disputam mem\u00f3ria, terra e perman\u00eancia no territ\u00f3rio<\/p>\n","protected":false},"featured_media":9143,"template":"","categorias_noticias":[3,13],"class_list":["post-9142","noticias","type-noticias","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","categorias_noticias-cultural","categorias_noticias-noticias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>VOZES E TERRIT\u00d3RIOS | Pelotas para al\u00e9m da terra dos doces: quilombos revelam resist\u00eancia negra no sul do RS - Instituto Cultural Padre Josimo<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/noticias\/vozes-e-territorios-pelotas-para-alem-da-terra-dos-doces-quilombos-revelam-resistencia-negra-no-sul-do-rs\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"VOZES E TERRIT\u00d3RIOS | Pelotas para al\u00e9m da terra dos doces: quilombos revelam resist\u00eancia negra no sul do RS - 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