{"id":380,"date":"2017-08-21T13:49:30","date_gmt":"2017-08-21T16:49:30","guid":{"rendered":"http:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/?post_type=artigos&#038;p=380"},"modified":"2017-08-21T16:10:47","modified_gmt":"2017-08-21T19:10:47","slug":"e-estrategico-para-a-humanidade-o-campesinato-continuar-vivo","status":"publish","type":"artigos","link":"https:\/\/padrejosimo.com.br\/site\/artigos\/e-estrategico-para-a-humanidade-o-campesinato-continuar-vivo\/","title":{"rendered":"\u2018\u00c9 estrat\u00e9gico para a humanidade o campesinato continuar vivo\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>Do Sul21, por Marco Weissheimer\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/20170818-jornal-sul21-mr-170817-1406-03.jpg\" width=\"900\" height=\"600\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">Frei S\u00e9rgio Gorgen: \u201cTemos tr\u00eas prioridades: a prioridade um \u00e9 sobreviver, a prioridade dois \u00e9 sobreviver e a prioridade tr\u00eas \u00e9 sobreviver\u201d. (Foto: Maia Rubim\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">No governo de Fernando Henrique Cardoso, consolidou-se no Brasil um novo modelo de explora\u00e7\u00e3o do campo, assentado em uma poderosa estrutura de financiamento com acesso a capitais vol\u00e1teis internacionais, que deu origem a um novo pacto de poder pol\u00edtico no rural brasileiro. Com o passar dos anos, esses capitais, por meio de tradings e grandes multinacionais de insumos, passaram a controlar o grande mercado agr\u00edcola. Os grandes fazendeiros foram perdendo poder para o capital financeiro, sendo hoje s\u00f3cios menores desse neg\u00f3cio. Trata-se de um modelo petrodependente que colocar\u00e1 a seguran\u00e7a alimentar do planeta em s\u00e9rio risco quando a escassez do petr\u00f3leo aumentar. Esse \u00e9 um dos principais diagn\u00f3sticos do livro \u201cTrincheiras da Resist\u00eancia Camponesa\u201d (Editora do Instituto Cultural Padre Josimo), de Frei S\u00e9rgio Ant\u00f4nio Gorgen, frade franciscano da Ordem dos Frades Menores do Rio Grande do Sul, ex-deputado estadual e militante h\u00e1 mais de 35 anos junto aos movimentos camponeses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista ao Sul21, Frei S\u00e9rgio fala sobre a origem e a situa\u00e7\u00e3o atual desse modelo que segue dominante no campo brasileiro. Ele tamb\u00e9m aponta os desafios dos movimentos sociais do campo diante da atual conjuntura, destacando a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica do campesinato para a sobreviv\u00eancia de toda a humanidade. \u201cO modelo de agricultura do agroneg\u00f3cio \u00e9 petrodependente. Do pneu do trator ao insumo agr\u00edcola \u00e9 tudo feito com petr\u00f3leo. Quando a escassez desse produto chegar a um patamar maior, um per\u00edodo que pode ser pensado entre 2030 e 2050, como \u00e9 que esse modelo vai alimentar a humanidade?\u201d \u2013 questiona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frei S\u00e9rgio cita um caso ocorrido recentemente no Brasil para defender a import\u00e2ncia da agricultura camponesa. \u201cOs capitalistas j\u00e1 previram o fim do campesinato h\u00e1 muito tempo mas, ao mesmo tempo, precisam dele. O fiasco do feij\u00e3o no Brasil \u00e9 um exemplo disso\u201d, referindo-se ao movimento que deslocou a produ\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o para m\u00e9dias e grandes propriedades, como alternativa \u00e0 soja ou consorciada a ela. \u201cA\u00ed o pre\u00e7o da soja foi para 75 reais e os caras largaram m\u00e3o de plantar feij\u00e3o. O Brasil teve que importar feij\u00e3o da Nicar\u00e1gua e da China, em pleno governo Dilma. O pre\u00e7o foi \u00e0s alturas. Agora, o feij\u00e3o est\u00e1 se deslocando de novo para a pequena propriedade. O capitalista agr\u00edcola planta de acordo com os pre\u00e7os do mercado. Se a soja d\u00e1 mais, ele larga o feij\u00e3o. Est\u00e1 pouco se lixando se tem crise de abastecimento ou n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<figure style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/20170818-jornal-sul21-mr-170817-1354-01.jpg\" width=\"900\" height=\"600\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cJunto com a cria\u00e7\u00e3o do Plano Real, no governo de Fernando Henrique Cardoso, tamb\u00e9m foi criado um novo modelo de explora\u00e7\u00e3o do campo\u201d. (Foto: Maia Rubim\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>Um dos pontos centrais do seu livro \u00e9 a identifica\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de um novo pacto pol\u00edtico no campo brasileiro, baseado em uma rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o entre o agroneg\u00f3cio e o setor financeiro. Como surgiu esse novo modelo e quais suas principais caracter\u00edsticas?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frei S\u00e9rgio Gorgen<\/strong>: Essa caracteriza\u00e7\u00e3o est\u00e1 bastante fundamentada nas pesquisas de Guilherme Delgado, no per\u00edodo em que esteve no IPEA (Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada), e de Hor\u00e1cio Martins de Carvalho, que \u00e9 um pesquisador do capitalismo no campo no Brasil e dos movimentos camponeses. Junto com a cria\u00e7\u00e3o do Plano Real, no governo de Fernando Henrique Cardoso, tamb\u00e9m foi criado um novo modelo de explora\u00e7\u00e3o do campo. Esse modelo de explora\u00e7\u00e3o foi assentado em uma poderosa estrutura de financiamento, com acesso a capitais vol\u00e1teis internacionais, para a agricultura. Esses capitais passam a controlar o grande mercado agr\u00edcola, atrav\u00e9s das commodities, das tradings e das grandes multinacionais de insumos, garantindo nas bolas de valores a compra dos gr\u00e3os, em especial da soja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para isso funcionar \u00e9 preciso ter uma engrenagem mais ou menos perfeita. Para tanto, foram aprovadas pelo Banco Central as CPRs (C\u00e9dulas de Produto Rural) e as NPRs (Notas de Produto Rural), que se tornaram os instrumentos de financiamento. Elas d\u00e3o como garantia o gr\u00e3o para fazer os empr\u00e9stimos. Os bancos nacionais e as principais tradings internacionais, que tamb\u00e9m tem bancos associados, entraram pesado neste processo, trazendo capitais de fora para financi\u00e1-lo. Esse modelo foi apoiado tamb\u00e9m em uma linha de financiamento p\u00fablico para estrutura, o Moderfrota, destinada \u00e0 compra de tratores e plantadeiras de grande porte, colheitadeiras, semeadoras e outros equipamentos. A ind\u00fastria de insumos, tanto de fertilizantes quanto de venenos agr\u00edcolas tamb\u00e9m foi integrada a esse sistema, criando um pacote completo, com uma parte do Estado, uma parte do capital privado, uma das tradings exportadoras de gr\u00e3os e uma das ind\u00fastrias de fertilizantes, venenos e de m\u00e1quinas. Foi um arranjo muito bem montado, quase perfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabia ao Estado garantir uma legisla\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o da terra, o que significava, entre outras coisas, nada de reforma agr\u00e1ria. Tamb\u00e9m cabia ao Estado criar mecanismos de financiamento p\u00fablico e propor legisla\u00e7\u00f5es para garantir a libera\u00e7\u00e3o de transg\u00eanicos e dos venenos agr\u00edcolas. A m\u00eddia tamb\u00e9m teve um papel fundamental para a sustenta\u00e7\u00e3o desse modelo, por meio de uma propaganda para alimentar uma simpatia da popula\u00e7\u00e3o com o agroneg\u00f3cio, dizendo que \u00e9 ele quem carrega o Brasil nas costas, que garante as exporta\u00e7\u00f5es, a balan\u00e7a de pagamentos e a gera\u00e7\u00e3o de empregos. Essa hist\u00f3ria de gerar empregos, ali\u00e1s, \u00e9 falsa. O que menos gera \u00e9 emprego e, quando gera, \u00e9 em algumas \u00e9pocas do ano. A soja, por exemplo, gera empregos tr\u00eas meses por ano em uma cidade. Onde tem ind\u00fastria de m\u00e1quinas agr\u00edcolas ainda \u00e9 um pouco mais equilibrado. Outra perna deste modelo era a conten\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais. Foi um per\u00edodo duro para o MST e para a Reforma Agr\u00e1ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>Estamos falando de que per\u00edodo mesmo aqui?<\/em><\/p>\n<figure style=\"width: 398px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/20170818-jornal-sul21-mr-170817-1437-07-600x400.jpg\" alt=\"\" width=\"398\" height=\"265\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cHoje, os latifundi\u00e1rios n\u00e3o dirigem mais esse processo. Eles s\u00e3o s\u00f3cios menores desse acordo.\u201d (Foto: Maia Rubim\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0Frei S\u00e9rgio<\/strong>: 1998 e 1999 fundamentalmente. Esse \u00e9 o marco temporal. Por isso que o meu livro abrange o per\u00edodo de 2000 a 2016. O livro tenta mostrar como esse modelo se formou, como se sedimentou na sociedade brasileira e como os governos Lula e Dilma, ou n\u00e3o enxergaram ou n\u00e3o quiseram enxergar, optando por uma alian\u00e7a de classe com esse setor. Hoje, os latifundi\u00e1rios n\u00e3o dirigem mais esse processo. Eles s\u00e3o s\u00f3cios menores desse acordo. Em parte, tamb\u00e9m s\u00e3o v\u00edtimas dele, vivendo uma inseguran\u00e7a muito grande. K\u00e1tia Abreu, de certa forma, expressa esse mal estar do setor latifundi\u00e1rio que vai perdendo poder para o capital financeiro internacional que assume o controle de todo o processo de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso reconhecer que foi uma engenharia bem feita, mas o campesinato reagiu a ela de v\u00e1rias formas. Tivemos a luta do fumo, a luta contra os eucaliptos e os desertos verdes, contra os transg\u00eanicos e agrot\u00f3xicos, entre outras. Todas elas ocorreram no contexto desse grande arranjo. O governo Lula n\u00e3o mexeu nisso, mas ao menos fez um contraponto, criando pol\u00edticas p\u00fablicas para a Reforma Agr\u00e1ria e a agricultura familiar, que come\u00e7aram a entrar em decad\u00eancia em 2011. Eu tenho uma grande amizade com a Dilma, mas a verdade nua e crua \u00e9 essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro tamb\u00e9m procurar registrar como se deu essa resist\u00eancia camponesa e as constru\u00e7\u00f5es feitas pelo campesinato nas \u00e1reas da ecologia e da agroecologia para ter um novo modelo de produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis. Merece destaque especial a\u00ed o Plano Campon\u00eas, como uma proposta de pol\u00edtica p\u00fablica ampla, integrada e sist\u00eamica, capaz de prover produ\u00e7\u00e3o de alimentos e produtos de exporta\u00e7\u00e3o de alta qualidade. Cabe lembrar que a pauta de exporta\u00e7\u00f5es do Rio Grande do Sul, hoje \u00e9, basicamente, soja e celulose. A parte final do livro trata desse processo de apropria\u00e7\u00e3o da agroecologia pelo movimento campon\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>Qual a rela\u00e7\u00e3o entre a financeiriza\u00e7\u00e3o do campo e os processos de concentra\u00e7\u00e3o e de estrangeiriza\u00e7\u00e3o de terras no Brasil?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frei S\u00e9rgio<\/strong>: A concentra\u00e7\u00e3o de terras no pa\u00eds \u00e9 brutal. Ela cresceu um pouco menos aqui no Rio Grande do Sul que em outros lugares. O que ocorre mais aqui \u00e9 o arrendamento. Os propriet\u00e1rios n\u00e3o vendem a terra, mas arrendam. H\u00e1 casos de arrendamento inclusive em assentamentos e \u00e1reas ind\u00edgenas. Muitos produtores n\u00e3o est\u00e3o interessados em ter a terra, mas sim em us\u00e1-la. A estrangeiriza\u00e7\u00e3o da terra ocorre em uma escala um pouco menor porque eles se deram mal no caso nos eucaliptos porque o Ex\u00e9rcito n\u00e3o abriu m\u00e3o das \u00e1reas de fronteira. Eles n\u00e3o puderam executar o plano inteiro como gostariam de ter feito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tese que eu tenho debatido na Via Campesina \u00e9 que eles querem a libera\u00e7\u00e3o de terras para estrangeiros n\u00e3o tanto para compr\u00e1-las \u2013 o que v\u00e3o fazer, \u00e9 claro -, mas sim para ter uma garantia real mais execut\u00e1vel ao capital internacional, para que a financeiriza\u00e7\u00e3o possa ser mais efetiva. As C\u00e9dulas de Produto Rural e as Notas de Produto Rural n\u00e3o deram t\u00e3o certo quanto eles esperavam porque h\u00e1 m\u00e9dios propriet\u00e1rios e mesmo alguns grandes propriet\u00e1rios que s\u00e3o muito caloteiros. Eles fazem a CPR contigo, mas entregam em outro silo e voc\u00ea n\u00e3o tem como executar. At\u00e9 se descobrir para que silo foi a produ\u00e7\u00e3o, o gr\u00e3o j\u00e1 foi vendido e a garantia n\u00e3o \u00e9 execut\u00e1vel. H\u00e1 um problema de financiamento da produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os hoje. Se tiver a autoriza\u00e7\u00e3o de compra de terras por estrangeiros, essa terra pode ser dada em garantia para os capitais internacionais. N\u00e3o pagou, tira a terra, o que hoje n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer. A terra n\u00e3o pode ser dada em garantia em financiamento internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>\u00c9 a famosa \u201cseguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d\u2026<\/em><\/p>\n<figure style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/20170818-jornal-sul21-mr-170817-1450-08-600x400.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cA quest\u00e3o dos gr\u00e3os n\u00e3o deu assim t\u00e3o certo\u201d. (Foto: Maia Rubim\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0Frei S\u00e9rgio<\/strong>: Seguran\u00e7a jur\u00eddica e garantia real. A quest\u00e3o dos gr\u00e3os n\u00e3o deu assim t\u00e3o certo. H\u00e1 muitas cooperativas e cerealistas que n\u00e3o conseguiram fidelizar seus produtores. Em \u00e9poca de crise, eles n\u00e3o depositam o gr\u00e3o com quem fizeram o contrato. Se um grande produtor ou tr\u00eas ou quatro m\u00e9dios n\u00e3o entregarem a produ\u00e7\u00e3o, o cara quebra, porque a margem com que ele trabalha por saco de soja \u00e9 muito pequena, 2 ou 3 reais por saca que vale cerca de 70 reais. Se algu\u00e9m que produz 10 mil sacas n\u00e3o entregar sua produ\u00e7\u00e3o, imagine quantas sacas de soja ele ter\u00e1 que pegar de outro para compensar esse preju\u00edzo. Esse \u00e9 um dos elementos que impedem o capital internacional de entrar com mais for\u00e7a no campo e da\u00ed o esfor\u00e7o de autorizar a compra de terras por estrangeiros para que esse fluxo de capitais possa vir para c\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu penso que esse modelo est\u00e1 em crise, sob v\u00e1rios aspectos. Uma das faces dessa crise \u00e9 de natureza tecnol\u00f3gica. Ele induz o plantio de extensos monocultivos, o que traz problemas de solo e de pragas de todos os tipos. J\u00e1 est\u00e3o utilizando quatro aplica\u00e7\u00f5es para a ferrugem, indo para a quinta. Com esses problemas, a lucratividade tende a baixar. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o quer comer s\u00f3 soja e n\u00e3o quer mais comer veneno, exigindo outro tipo de alimento, mais saud\u00e1vel e natural. Comida de verdade, enfim. Essa mudan\u00e7a de comportamento no meio urbano tamb\u00e9m est\u00e1 alimentando uma crise neste modelo. E, em rela\u00e7\u00e3o a soja, ele poder\u00e1 enfrentar outro problema ainda que \u00e9 uma crise de superprodu\u00e7\u00e3o. Se isso ocorrer, o pre\u00e7o vai baixar e a margem, que j\u00e1 \u00e9 pequena porque os insumos e as m\u00e1quinas n\u00e3o baixam, vai ficar ainda pior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse quadro pode trazer uma situa\u00e7\u00e3o complicada logo ali na frente e, por isso, o campesinato tem que estar pronto para uma ampla reforma agr\u00e1ria e para mostrar uma fant\u00e1stica capacidade de produ\u00e7\u00e3o de alimentos saud\u00e1veis em larga escala para abastecer a popula\u00e7\u00e3o e ocupar o espa\u00e7o que os monocultivos ocupam hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>O per\u00edodo retratado no livro \u00e9 um momento tamb\u00e9m de crescimento da organiza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais do campo, como MST, MPA, Via Campesina entre outros. Qual o seu balan\u00e7o desse per\u00edodo do ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o e das lutas desses movimentos?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frei S\u00e9rgio<\/strong>: As lutas foram muito intensas, abrangendo v\u00e1rias frentes: transg\u00eanico, sementes, soja, leite, venenos, fumo, eucaliptos. \u00c9 um leque impressionante. Isso causou certa confus\u00e3o em um primeiro momento. Antes disso era muito simples: tinha o sem terra e o latifundi\u00e1rio, o campon\u00eas e o cerealista.<\/p>\n<figure style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/20170818-jornal-sul21-mr-170817-1458-11.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"600\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cTivemos um grande salto no governo Ol\u00edvio Dutra quando foram assentadas aproximadamente 7 mil fam\u00edlias em quatro anos\u201d. (Foto: Maia Rubim\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>Qual \u00e9 o ano mesmo de cria\u00e7\u00e3o do MST?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frei S\u00e9rgio<\/strong>: O mito fundador do MST est\u00e1 nas ocupa\u00e7\u00f5es das fazendas Macali e Brilhante em 1979. Mas, oficialmente, o movimento foi criado em 1984 e o seu boom foi no final dos anos 1980 at\u00e9 1995 mais ou menos. N\u00f3s tivemos um grande salto no governo Ol\u00edvio Dutra quando foram assentadas aproximadamente 7 mil fam\u00edlias em quatro anos. Foi um neg\u00f3cio fant\u00e1stico. Tive a honra de fazer parte desse per\u00edodo como diretor de Reforma Agr\u00e1ria do Estado. Depois esse processo come\u00e7ou a entrar em decad\u00eancia e a contradi\u00e7\u00e3o passa a ser outra, opondo campesinato, de um lado, e capital financeiro internacional, do outro. Isso representou uma mudan\u00e7a muito grande que n\u00e3o foi t\u00e3o simples de entender o que estava acontecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca, eu cometi uma imprecis\u00e3o cient\u00edfica em rela\u00e7\u00e3o aos transg\u00eanicos. Falando de um modo muito simples, disse que o transg\u00eanico da soja poderia provocar AIDS. Isso criou uma celeuma enorme. Foi uma imprecis\u00e3o ling\u00fc\u00edstica da minha parte. A linguagem que usei n\u00e3o foi adequada. Eles aproveitaram a minha derrapada para atacar os movimentos. A partir da\u00ed, comecei a estudar o que significava a entrada dos transg\u00eanicos na agricultura. Li pilhas de livros, refiz a minha forma\u00e7\u00e3o em Biologia que tinha sido prec\u00e1ria. O ingresso dos transg\u00eanicos na agricultura n\u00e3o significava apenas uma quest\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas envolvia um pacote completo. Quando comecei a discutir isso com os movimentos, me disseram que eu estava viajando na maionese. Aos poucos, por\u00e9m, a ficha foi caindo e a quest\u00e3o ambiental entrou no centro dos debates tamb\u00e9m. O meu ponto era: eles t\u00eam um projeto completo e n\u00f3s tamb\u00e9m temos que ter um projeto completo, org\u00e2nico e sist\u00eamico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o foi s\u00f3 eu que defendeu isso. J\u00e1 falei do Guilherme Delgado e do Hor\u00e1cio Martins de Carvalho. Os camponeses foram percebendo isso e vendo que a quest\u00e3o era bem maior e mais complexa do que parecia. O que fez a minha ficha cair foi a decis\u00e3o de aprofundar meus estudos sobre os transg\u00eanicos. Foi um per\u00edodo interessante no qual escrevi um livro modesto, junto com o Rubens Nodari e o Sebasti\u00e3o Pinheiro, intitulado \u201cRiscos dos transg\u00eanicos\u201d, que foi publicado pela Editora Vozes na virada de 2000 para 2001. Dissemos neste livro que haveria uma alta concentra\u00e7\u00e3o de empresas qu\u00edmicas, que ocorreriam problemas ambientais muito graves e que iria aumentar muito o uso de veneno na agricultura. Neste novo livro, peguei o que dissemos naquela \u00e9poca e escrevi um novo texto chamado \u201cOs riscos dos transg\u00eanicos, 16 anos depois\u201d. Quando profetizo alguma coisa ruim, eu adoro estar errado, mas, \u00e0s vezes, a gente est\u00e1 certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>Esse debate sobre os transg\u00eanicos parece ter sa\u00eddo um pouco dos holofotes. Est\u00e1 acontecendo isso mesmo?<\/em><\/p>\n<figure style=\"width: 420px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/20170818-jornal-sul21-mr-170817-1419-04-600x400.jpg\" alt=\"\" width=\"420\" height=\"280\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cDo ponto de vista cient\u00edfico, a transgenia \u00e9 uma tecnologia totalmente superada\u201d. (Foto: Maia Rubim\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frei S\u00e9rgio<\/strong>: O transg\u00eanico era uma parte de um modelo, uma parte essencial para controlar o mercado das sementes e para estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o com um tipo espec\u00edfico de agrot\u00f3xico. Ele \u00e9 essencial para esse modelo, pois permite que uma semente que \u00e9 de uso comum da humanidade se transforme em propriedade de uma empresa. E esse transg\u00eanico \u00e9 vinculado a um veneno que essa mesma empresa produz. Do ponto de vista cient\u00edfico, trata-se de uma tecnologia totalmente superada. O gene, tomado e analisado individualmente, \u00e9 um assunto do s\u00e9culo XX. No s\u00e9culo XXI j\u00e1 se descobriu que a express\u00e3o que um gene isolado tem s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em fun\u00e7\u00e3o de toda uma cadeia de genes vinculados a ele. Aquilo que era chamado de DNA lixo n\u00e3o \u00e9 DNA lixo, mas sim o alicerce do DNA que expressa uma determinada prote\u00edna e que as prote\u00ednas talvez sejam at\u00e9 mais importantes que os genes. A nossa diferen\u00e7a gen\u00e9tica em rela\u00e7\u00e3o aos macacos \u00e9 de apenas 3 ou 4%, com os su\u00ednos \u00e9 de aproximadamente 7%. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a gen\u00e9tica. H\u00e1 outras, muito maiores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como tecnologia, a nanotecnologia j\u00e1 est\u00e1 superando a transgenia e agora est\u00e1 vindo a edi\u00e7\u00e3o de genes, que permite identificar\u00a0genes\u00a0de interesse, no DNA de qualquer esp\u00e9cie, e modific\u00e1-lo de acordo com as necessidades da pesquisa, sem a inclus\u00e3o de\u00a0genes\u00a0de outras esp\u00e9cies. Do ponto de vista tecnol\u00f3gico, a transgenia \u00e9 algo superado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>O sistema de assentamentos de reforma agr\u00e1ria e de cooperativas de pequenos agricultores, que incorporou muito a pauta da agroecologia, tamb\u00e9m est\u00e1 sendo atingido agora pelo desmonte de pol\u00edticas e programas nesta \u00e1rea patrocinado pelo governo Temer. Qual a capacidade desse sistema resistir a esse processo de desmonte?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frei S\u00e9rgio<\/strong>: N\u00e3o sei dizer. S\u00f3 o tempo responder\u00e1 a essa quest\u00e3o. O que vejo nos debates e nas conversas com os camponeses \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o de produzir comida e se firmar na terra. Temos tr\u00eas prioridades: a prioridade um \u00e9 sobreviver, a prioridade dois \u00e9 sobreviver e a prioridade tr\u00eas \u00e9 sobreviver. Estamos sendo alvo de uma avalanche muito brutal que vem de todos os lados. Por outro lado, a gente percebe que esse modelo vigente hoje tamb\u00e9m est\u00e1 enfrentando crises, o que nos anima. E as estrat\u00e9gias de resist\u00eancia se ampliam muito neste per\u00edodo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os que previram o fim do campesinato at\u00e9 hoje, erraram, tanto os de direita quanto os de esquerda. O pr\u00f3prio Marx dos anos 1850, do s\u00e9culo XIX, achava isso e chegou a dizer que os camponeses eram um saco de batata. J\u00e1 por volta de 1870, quando ele troca informa\u00e7\u00f5es com militantes russos, que viviam em aldeias camponesas, come\u00e7a a mudar essa vis\u00e3o. Hoje, h\u00e1 excelentes marxistas que enxergam o campesinato como uma classe revolucion\u00e1ria e importante para as transforma\u00e7\u00f5es sociais. O atual processo de financeiriza\u00e7\u00e3o da agricultura d\u00e1 mais raz\u00e3o a Marx para dizer que tudo vira mercadoria. As pr\u00f3prias religi\u00f5es viraram mercadoria. J\u00e1 o que diz no 18 Brum\u00e1rio, sustentando que os camponeses seriam incapazes de se organizar, n\u00e3o se confirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os capitalistas j\u00e1 previram o fim do campesinato h\u00e1 muito tempo mas, ao mesmo tempo, precisam dele. As culturas do fumo, do frango, dos produtos alimentares em geral precisam da presen\u00e7a do campon\u00eas. O fiasco do feij\u00e3o no Brasil \u00e9 um exemplo disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sul21<\/strong>: <em>Qual foi o fiasco do feij\u00e3o?<\/em><\/p>\n<figure style=\"width: 416px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/www.sul21.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/20170818-jornal-sul21-mr-170817-1456-10-600x400.jpg\" alt=\"\" width=\"416\" height=\"277\" \/><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cO campon\u00eas tem uma mente organizada para policultivos e um conhecimento maior sobre uma diversidade de cultivos.\u201d (Foto: Maia Rubim\/Sul21)<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Frei S\u00e9rgio<\/strong>: A Embrapa desenvolveu um feij\u00e3o com a haste elevada para poder colher com m\u00e1quina. Normalmente, o feij\u00e3o tem a haste baixinha, exigindo a colheita \u00e0 m\u00e3o. Deslocou-se ent\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o de feij\u00e3o das pequenas para medias e grandes propriedades, como alternativa \u00e0 soja ou consorciada com ela. A\u00ed o pre\u00e7o da soja foi para 75 reais e os caras largaram m\u00e3o de plantar feij\u00e3o. O Brasil teve que importar feij\u00e3o da Nicar\u00e1gua e da China, em pleno governo Dilma. O pre\u00e7o foi \u00e0s alturas. Agora, o feij\u00e3o est\u00e1 se deslocando de novo de volta \u00e0s regi\u00f5es tradicionais da pequena propriedade. O capitalista agr\u00edcola vai plantar de acordo com os pre\u00e7os do mercado. Se a soja d\u00e1 mais, ele larga o feij\u00e3o. Est\u00e1 pouco se lixando se tem abastecimento ou se n\u00e3o tem. J\u00e1 o campon\u00eas \u00e9 est\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um grande produtor de leite n\u00e3o suporta quatro ou cinco meses de crise, com o pre\u00e7o muito baixo, pois seus custos permanecem elevados. O campon\u00eas que tem l\u00e1 suas 10 ou 15 vacas pode estar ganhando um pouco menos, mas suporta um tempo muito maior pois sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 mais flex\u00edvel e diversificada. Um grande capitalista de soja tem um equipamento que s\u00f3 pode ser utilizado para a cultura desse produto, n\u00e3o serve para outra coisa. J\u00e1 o campon\u00eas planta soja, milho, batata, mandioca e outros produtos. Ele tem uma mente organizada para policultivos e um conhecimento maior sobre uma diversidade de cultivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 por isso que defendo neste livro que os sistemas camponeses de produ\u00e7\u00e3o talvez sejam os sistemas de produ\u00e7\u00e3o do futuro, que v\u00e3o alimentar a humanidade quando a crise do petr\u00f3leo se agravar. O modelo de agricultura do agroneg\u00f3cio \u00e9 petrodependente. Do pneu do trator ao insumo agr\u00edcola \u00e9 tudo feito com petr\u00f3leo. Basta ver o que aconteceu com a Venezuela. Nadando em petr\u00f3leo, extinguiram o campesinato. Quando a escassez desse produto chegar a um patamar maior, um per\u00edodo que pode ser pensado entre 2030 e 2050, como \u00e9 que esse modelo vai alimentar a humanidade? Ent\u00e3o, \u00e9 estrat\u00e9gico para a humanidade o campesinato continuar vivo. Ele det\u00e9m saberes acumulados ao longo dos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, \u00e9 muito importante constituirmos uma nova gera\u00e7\u00e3o camponesa que incorpore coisas novas. O campesinato tem dificuldades para algumas coisas, como na quest\u00e3o do papel da mulher e do conv\u00edvio com outras formas de viv\u00eancia sexual, por exemplo. Na agroecologia tamb\u00e9m h\u00e1 desafios. Temos tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es viciadas no veneno. \u00c0s vezes, os netos t\u00eam que recorrer aos av\u00f3s para pegar a mem\u00f3ria de como se cultivava antes. E n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel repetir o modelo dos av\u00f3s pois a terra est\u00e1 super contaminada com venenos. A nossa juventude est\u00e1 se propondo a enfrentar esses desafios.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No governo de Fernando Henrique Cardoso, consolidou-se no Brasil um novo modelo de explora\u00e7\u00e3o do campo, assentado em uma poderosa estrutura de financiamento com acesso a capitais vol\u00e1teis internacionais, que deu origem a um novo pacto de poder pol\u00edtico no rural brasileiro. Com o passar dos anos, esses capitais, por meio de tradings e grandes multinacionais de insumos, passaram a controlar o grande mercado agr\u00edcola. Os grandes fazendeiros foram perdendo poder para o capital financeiro, sendo hoje s\u00f3cios menores desse neg\u00f3cio. 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